A Itália aprendeu o algodão com o Islã até 1400 — e deixou à Síria os campos
O algodão saiu da Índia como fibra, como conjunto de ferramentas e como repertório de tecidos. O mundo islâmico fez dele um pano de uso cotidiano entre 700 e 1100; a partir do século XII, as cidades do vale do Pó copiaram seus tecidos, suas ferramentas e seus nomes, e em 1400 os comboios algodoeiros de Veneza traziam para casa quase 12.000 sacas de fibra síria por ano.
Em 1400, as cocas algodoeiras de Veneza trouxeram para casa quase 12.000 sacas de algodão em rama da Síria mameluca, que seriam fiadas por camponesas lombardas e tecidas em fustão em Milão e Cremona. A Itália aprendera a fibra, as ferramentas e o tecido com o mundo islâmico; agora comprava apenas a fibra.
Antes: um mundo de lã e linho
Por volta do ano 1000, os habitantes do vale do Pó vestiam-se com duas fibras. A lã vinha das ovelhas dos contrafortes alpinos e dos Apeninos e, para os melhores tecidos, do exterior; era fiada, tecida, pisoada e tingida em oficinas urbanas que já figuravam entre os maiores empregadores de Milão, Florença e seus vizinhos. O linho vinha da planta homônima, e a Lombardia era terra de linho. A planta crescia nas planícies irrigadas entre o Ticino e o Adda, era macerada em valas, batida, penteada e fiada por mulheres nas aldeias, e tecida nas camisas, lençóis, toalhas e roupas de baixo que ficavam junto à pele. O cânhamo, mais grosseiro, dava sacaria, cordas e as velas das barcaças fluviais. A seda, para as igrejas e os muito ricos, era comprada de Bizâncio e do mundo islâmico. O algodão, como tecido para gente comum, não existia. Maureen Fennell Mazzaoui, cujo estudo de 1981 continua a ser o alicerce do tema, trata a indústria algodoeira italiana que surgiu mais tarde como um transplante: todos os elementos essenciais — a fibra, as ferramentas, os tipos de tecido e muitos de seus nomes — foram tomados do Mediterrâneo islâmico.12
As duas fibras nativas organizavam mais do que guarda-roupas. Organizavam o ano, o lar e a cidade. O linho era cultura camponesa e ofício feminino; a lã era uma indústria urbana, com guildas, inspetores e mercadores-capitalistas que distribuíam a lã bruta às fiandeiras e recompravam o fio. Quando os manuais de saúde ilustrados conhecidos como Tacuinum sanitatis foram copiados em oficinas lombardas no fim do século XIV, ainda classificavam as roupas nesses dois tipos: vestis lanea, a lã, que aquece mas irrita a pele, e vestis linea, o linho, que refresca mas pesa sobre a pele e bloqueia sua respiração, defeito que o texto corrige misturando o linho com seda. A essa altura, o algodão já era tecido na Lombardia havia duzentos anos, e no entanto a categoria médica em que ingressou ainda era aquela que o linho criara. Tal era a profundidade com que as duas fibras mais antigas haviam definido o que era tecido.1
O que a Europa latina sabia do algodão
A Europa ouvira falar do algodão durante mil e quinhentos anos sem cultivá-lo nem tecê-lo. Heródoto, escrevendo no século V a.C., colocou-o entre as maravilhas da orla oriental do mundo: na Índia, “uma lã mais bela e excelente que a das ovelhas cresce em árvores silvestres; essas árvores fornecem aos indianos suas vestes”.3 Plínio, o Velho, no século I d.C., conhecia um arbusto no Alto Egito, voltado para a Arábia, que alguns chamavam gossypion e a maioria xylon, cuja fibra fazia as vestes mais estimadas pelos sacerdotes egípcios.4 A planta não era desconhecida no Mediterrâneo romano: Michael Decker demonstrou que o algodão era cultivado no Egito romano e tardo-antigo e no Oriente Próximo antes das conquistas árabes, uma das várias razões pelas quais ele rejeita a forma forte da tese de que o Islã o teria introduzido.5
Mas na Europa latina ao norte do litoral mediterrâneo, o algodão continuou a ser um boato e um artigo importado. A pluma de algodão em rama — bambagia, palavra que chegou ao italiano pelo grego bizantino a partir do persa — servia para enchimento, para acolchoar os gibões usados sob a armadura e para pavios de vela. O tecido de algodão acabado chegava como exotismo, em pequenas quantidades, do mundo islâmico. As Viagens do século XIV atribuídas a “Sir John Mandeville” ainda descreviam um fruto do Extremo Oriente que se abria para revelar um cordeirinho, a fábula do “cordeiro vegetal” com a qual um mundo que não cultivava algodão tentava explicar uma lã que vinha de uma planta. A fábula diz menos sobre o algodão do que sobre a distância: quem a contava nunca vira um capulho de algodão se abrir no pé.

A longa estrada do algodão para fora da Índia
A fibra que a Europa imaginava como cordeiro era trabalhada no sul da Ásia havia pelo menos sete mil anos. Em 2002, Christophe Moulherat e colegas publicaram fios preservados pela corrosão do cobre no interior de uma conta proveniente de um sepultamento em Mehrgarh, na planície de Kachi, no Baluchistão, datado da primeira metade do sexto milênio a.C. Identificaram as fibras como algodão, do gênero Gossypium — o mais antigo conhecido no subcontinente indiano. A preservação foi um acidente químico: os sais metálicos do cobre em corrosão haviam impregnado os fios e fixado sua estrutura.6 Nos seis mil anos seguintes, o sul da Ásia foi a grande manufatura algodoeira do mundo; a história global da fibra escrita por Giorgio Riello põe a Índia no centro de todos os sistemas algodoeiros anteriores a 1750.7
A Índia desenvolveu as ferramentas que definiram o processamento do algodão em todos os lugares aonde ele depois chegou:
- O descaroçador de rolos, um par de rolos girando um contra o outro que espremia as sementes para fora do capulho — a etapa que torna o algodão utilizável.
- O arco, um grande arco de corda cuja corda dedilhada, mergulhada num monte de algodão descaroçado, batia as fibras até deixá-las soltas e fofas para a fiação.
- A dobadoura, para enrolar o fio fiado em meadas.
- O tingimento com mordentes e a estampagem a bloco, que fizeram do tecido indiano o luxo do mundo do oceano Índico.18
O tecido indiano chegou ao Egito por mar muito antes de a Itália ver um tear de algodão. A coleção Newberry, no Ashmolean Museum de Oxford, guarda mais de mil e duzentos fragmentos de algodão estampados a bloco e tingidos por reserva, em sua maioria recuperados dos montes de lixo de Fustat, a antiga capital do Egito. Ruth Barnes, que os catalogou, rastreou sua origem até o Guzerate e datou-os do fim do século X ao século XV — o resíduo material de um comércio que levou o algodão indiano pelo mar Vermelho até o Mediterrâneo islâmico durante quinhentos anos.8 As oficinas egípcias aprenderam com o que chegava. O fragmento de algodão mameluco estampado a bloco do Cleveland Museum of Art, com seus peixes repetidos, é um desenho egípcio feito com a técnica indiana de estampar com blocos de madeira entalhados.
A transmissão: dos campos do califado ao vale do Pó
O algodão não viajou para a Itália diretamente da Índia. Chegou em duas etapas. Na primeira, aproximadamente de 700 a 1100, tornou-se cultura de massa e tecido de uso cotidiano em todo o mundo islâmico, do Khorasan a al-Andalus. Na segunda, a partir de cerca de 1100, os portos italianos e depois as cidades do vale do Pó aprenderam a tecê-lo — e Veneza e Gênova construíram um comércio marítimo para abastecê-las com fibra cultivada nas terras de seus parceiros comerciais muçulmanos.
O cinturão algodoeiro islâmico, 700–1100
Em 1974, e em livro em 1983, o historiador econômico Andrew Watson sustentou que o mundo islâmico dos primeiros séculos realizou uma transformação agrícola: cerca de dezoito culturas, entre elas o algodão, difundiram-se da Índia e do Oriente por todo o califado, junto com técnicas de irrigação e a prática do cultivo de verão, que permitia uma segunda colheita nos meses quentes, quando os campos de cereais de inverno do Mediterrâneo ficavam ociosos.9 O algodão, cultura de verão que exigia calor e água, era exatamente o tipo de planta que o novo regime favorecia.
A tese de Watson é hoje contestada. Decker argumentou em 2009 que várias das culturas “novas” de Watson, algodão incluído, já eram cultivadas no Mediterrâneo romano e tardo-antigo, e que a mudança foi mais lenta e mais desigual do que uma “revolução” sugere.5 A divergência diz respeito à introdução e ao ritmo, não ao resultado. No século X, o algodão era cultivado no Irã, no Iraque, na Síria, no Egito, no Norte da África, na Sicília e em al-Andalus numa escala que nenhum Estado mediterrâneo anterior conhecera. O agrônomo sevilhano do século XII Ibn al-ʿAwwām, ao escrever seu Kitāb al-filāḥa nas propriedades do Aljarafe, deu ao algodão seu lugar no capítulo sobre as plantas fibrosas, ao lado do linho e do cânhamo — uma cultura de campo com instruções próprias, não uma curiosidade.10
Richard Bulliet apresentou o argumento mais forte sobre o alcance desse surto. Segundo sua leitura, um aumento da produção e da exportação de algodão fez do Irã a região mais rica do califado nos séculos IX e X, e a expansão do cultivo algodoeiro correu em paralelo com a difusão do Islã na sociedade iraniana. No século XI, sustenta ele, um prolongado resfriamento do clima reduziu a safra e pôs fim à primazia iraniana.11 O nexo causal que Bulliet traça entre algodão e conversão é argumento seu; a escala do comércio que ele documenta não está em dúvida.
Em todo o califado, o algodão desceu na escala social. Mazzaoui descreve sua passagem, no início do império islâmico, de artigo de luxo a artigo comum de uso diário, favorecido pelas normas suntuárias islâmicas e tecido puro ou misturado com linho, seda e lã.1 Boa parte dele era produzida nas oficinas reais chamadas ṭirāz, que Ashtor descreve em todos os países do Oriente Próximo sob os abássidas e os fatímidas, muitas vezes arrendadas a empresários e produzindo para exportação ao lado de uma florescente indústria privada.12
Ferramentas vindas de três direções
As oficinas islâmicas montaram um conjunto de ferramentas com contribuições de todos os vizinhos. Da Índia vieram o descaroçador de rolos, o arco e a dobadoura. Segundo Mazzaoui, os artesãos islâmicos tomaram o tear horizontal elevado de pedais e a roda de fiar de artífices bizantinos e persas.1 Arnold Pacey, seguindo o historiador indiano Irfan Habib, situa a invenção da roda de fiar no Oriente Médio, provavelmente até o século XI; a mais antiga imagem nítida de uma delas está na cópia das Maqāmāt de al-Ḥarīrī ilustrada por Yaḥyā al-Wāsiṭī em Bagdá em 1237. Na própria Índia, Habib não encontrou nenhuma referência inequívoca a uma roda de fiar antes de 1350 — a roda entrou na Índia com o Sultanato de Délhi, e não saiu dela.13

A roda importava mais para o algodão do que para qualquer outra fibra. A fibra curta do algodão pode ser fiada no fuso, mas lentamente; a roda multiplicava a produção da fiandeira e produzia o fio macio e de torção frouxa que servia de trama. Quando o conjunto de ferramentas chegou à Itália, chegou completo — descaroçador, arco, roda, dobadoura e tear de pedais —, junto com os tipos de tecido para cuja fabricação haviam sido concebidos.1
A porta ocidental: Sicília, Apúlia e os portos
Os italianos encontraram o algodão primeiro nas zonas onde o domínio islâmico o havia implantado. Na Sicília, na Calábria e na Apúlia, o algodão era cultivado nos campos, e tecelões locais faziam tecidos baratos, roupas e artigos domésticos para os mercados regionais; nessa região, observa Mazzaoui, o algodão e o linho parecem ter ofuscado a lã.1 O estudo de Stephan Epstein sobre a Sicília do fim da Idade Média concluiu que suas manufaturas têxteis eram robustas o bastante para que a suposta dependência “colonial” da ilha em relação aos tecidos do norte não se sustente — lembrete de que o sul era um centro por direito próprio, e não apenas um campo a serviço do norte.14
Os portos de Gênova, Veneza e Pisa, profundamente envolvidos no comércio levantino, encontraram o algodão como mercadoria: fibra em rama, fio e tecido acabado. Em Barcelona, em Marselha e em vários portos italianos, artesãos especializaram-se em algodões grosseiros e pano de vela.1 No século XII, o algodão era mercadoria familiar nos navios do Mediterrâneo. O que ainda não acontecera era a criação de uma grande indústria capaz de transformar fibra importada em tecido para mercados distantes. Isso aconteceu na Lombardia.
O vale do Pó aprende a tecer algodão, 1100–1300
A partir do início do século XII, Mazzaoui encontra a tecelagem de algodão estabelecida ao lado da lã nas cidades do vale do Pó — Gênova, Veneza, Milão, Cremona, Piacenza, Pavia, Brescia, Monza, Bérgamo, Parma, Mântua, Verona, Pádua, Bolonha — e, no século XIII, guildas de fustagnari, os fabricantes de fustão, nos principais centros.12 A Lombardia tinha aquilo de que uma fibra importada precisava: linho para a urdidura, uma força de trabalho feminina já hábil na fiação, capital de mercadores enriquecidos com a lã, rios e passos alpinos para a distribuição, e Veneza e Gênova para o abastecimento. Mazzaoui trata as cidades algodoeiras do norte da Itália como uma única zona produtiva, marcada por estreita interdependência econômica e por forte tendência a padronizar seus produtos.2
Os novos tecidos eram islâmicos no modelo e, muitas vezes, no nome. O mais comum, o fustão, combinava urdidura de linho e trama de algodão; seu nome costuma ser associado a Fustat, embora Mazzaoui o derive do árabe fushtān. O próprio cotone vem do árabe quṭn; bambagia, do persa por via do grego; e uma série de outros nomes comerciais conservava a memória do lugar onde um tecido fora feito pela primeira vez.1 Os mercadores italianos lançaram nos mercados europeus algodões inspirados em protótipos islâmicos e, ao fazê-lo, apresentaram à maior parte da Europa latina uma fibra que seus avós só haviam conhecido como fábula.17
As cocas do algodão: Veneza e a Síria mameluca
Uma indústria que não cultivava nada da própria fibra dependia do mar. O algodão em rama era leve, volumoso e barato por saca, o oposto das especiarias sobre as quais se construíra o comércio veneziano com o Levante, e transportá-lo com lucro exigia navios, calendários e organização estatal. Eliyahu Ashtor, que reconstruiu esse comércio a partir dos arquivos venezianos e das cartas da companhia Datini de Prato, encontrou as autoridades venezianas “tomando medidas para fomentar a importação de algodão de vários países levantinos” já em 1295. O algodão já valia uma luta: em 1308, uma galé genovesa capturou navios venezianos das firmas Sanudo e Soranzo que transportavam mais de quinhentas sacas dele.1215
Os manuais mercantis do século XIV classificavam o algodão do mundo por procedência. Francesco Balducci Pegolotti, o banqueiro florentino que compilou La pratica della mercatura por volta de 1340, estabeleceu esta ordem, do melhor para o pior:16
| Posição (Pegolotti) | Procedência | Observação de Pegolotti |
|---|---|---|
| 1 | Hama (Amanno), Síria | “la miglore ragione” — a melhor qualidade |
| 2 | Alepo, Síria | como o de Hama |
| 3 | Armênia (Cilícia) | logo depois de Hama e Alepo |
| 4 | Damasco (lo Sciame), Síria | fibra mais curta |
| 5 | Acre, Síria | depois de Damasco |
| 6 | Chipre | depois de Acre |
| 7 | Latakia (la Leccia), Síria | depois de Chipre |
| 8 | Basilicata, Apúlia | depois do bom algodão de Latakia |
| 9–11 | Malta, Calábria, Sicília | as qualidades mais baixas da lista |
A tabela é um mapa da transmissão. A melhor fibra vinha do interior muçulmano da Síria; as terras latinas do sul da Itália, onde o domínio islâmico implantara o algodão três séculos antes, ficavam por último. As instruções de compra de Pegolotti — o algodão devia ser branco, cheio, livre de sementes, cascas e folhas, e seco, e o comprador devia exigir que o meio e as pontas da saca correspondessem à amostra que lhe fora mostrada — descrevem uma mercadoria a granel, comprada por saca e nunca inspecionada por inteiro.16
O comércio foi perturbado na década de 1360 pela guerra entre as potências latinas e o sultanato mameluco, incluindo o saque de Alexandria por Pedro I de Chipre em 1365; em 1367, faltou algodão em Veneza, que enviou uma coca extra a Alexandria para buscá-lo.12 Restabelecido o comércio, Veneza organizou uma linha dedicada. Todos os anos, no fim de janeiro ou no início de fevereiro, um comboio de cocas partia de Veneza para recolher o algodão comprado na Síria, e no fim de julho seguia-se um comboio menor; na década de 1390, os dois somavam pelo menos dez navios.12
Os números de Ashtor para as cargas mostram quanto o comércio cresceu:1215
- Década de 1380: 5.000 sacas eram uma carga excepcionalmente grande para um único comboio; 3.000 faziam uma carga fraca.
- Fim do século XIV: cerca de 8.000 sacas por ano, em doze ou mais cocas que levavam de 500 a 600 sacas cada uma.
- 1386 e 1394: quase 10.000 sacas.
- 1400: quase 12.000 sacas.
Uma saca continha cerca de 144 quilos. Ashtor estimou a compra anual normal em uns 5.500 qinṭārs do norte da Síria, no valor de talvez 140.000 dinares — e parte dela vinha de Chipre, a única procedência sob domínio latino bem colocada na lista de Pegolotti.12 O ano-âncora deste registro, 1400, é o ano em que as cocas do algodão mais transportaram.
O que mudou e o que foi substituído
Um tecido para todos
A seda chegara à Itália como luxo para elites que já compravam tecidos de luxo. O algodão chegou pelo caminho inverso. A conclusão central de Mazzaoui é que a indústria algodoeira italiana esteve voltada desde o início para o consumo de massa: seu êxito dependia de criar demanda por uma nova classe de tecido acessível entre pessoas que nunca o haviam vestido.1 Seu artigo de 1972 descreve as cidades algodoeiras do norte da Itália como produtoras de tecidos baratos para consumo popular.2
A gama era ampla. As oficinas italianas teciam algodões puros e mesclas com urdiduras de lã, seda, linho e cânhamo; véus transparentes, fustões felpados em cores lisas, listrados, xadrezes e canelados; bocaxim pesado, lona e pano de vela; colchas acolchoadas.1 O algodão exigia menos etapas de processamento que a lã, e os grandes centros produziam em volumes que a manufatura laneira não conseguia igualar: Veneza, mais de 60.000 peças de fustão por ano no fim do século XIV; Cremona, mais de 60.000 rolos no início do século XV, dos quais uns 40.000 iam só para Veneza.1
A indústria também deu à Europa uma de suas primeiras marcas de mercado de massa. Como os tecidos eram padronizados pelo comprimento, pelo peso e pela contagem de fios, os mercadores podiam encomendá-los sem vê-los em toda a Europa; a qualidade de uma marca era garantida por marcas mercantis registradas e por selos das guildas.1 Um comprador em Viena ou em Bruges que nunca estivera em Milão sabia o que significava uma marca milanesa — e é exatamente por isso, como mostra a seção sobre o custo, que valia a pena falsificá-la.
A máquina lombarda
O que tornava nova a indústria lombarda não era o tear, mas a organização em torno dele. O trabalho era dividido por toda uma região:1
- Abastecimento: algodão em rama comprado em Veneza ou em Gênova, classificado por procedência e nunca misturado entre qualidades.
- Batedura: artesãos urbanos, os battitori, abriam o algodão em rama com o arco.
- Fiação e urdimento: confiados a camponesas dos distritos linheiros em torno de Milão, Novara, Pavia e Cremona, sob a supervisão de comerciantes atacadistas de fio, os filaroli ou telaroli, que trabalhavam por comissão ou por conta própria. As mulheres fiavam a trama de algodão e preparavam os fios de urdidura de linho, os cavezzi, nos comprimentos, pesos e densidades prescritos pela guilda.
- Tecelagem, tingimento e prensagem: nas cidades, a cargo dos mestres da guilda do fustão, financiados por meio de sociedades com membros mercadores.
- Branqueamento: na região dos lagos, por empreiteiros que empregavam uma mão de obra sazonal, em grande parte feminina.
A padronização alcançava as ferramentas. Quando artesãos lombardos migraram para implantar a tecelagem de algodão no Vêneto, na Romanha, na Toscana, na Úmbria, nas Marcas e no Lácio, os novos centros alinharam suas medidas, seus pentes e liços ao padrão lombardo, de modo que uma urdidura preparada numa aldeia lombarda pudesse ser tecida num tear da Itália central.117 Encontram-se trabalhadores do fustão organizados em guildas menores ou vinculados às guildas da lã de Florença, Arezzo e Siena a Perugia, Assis, Ancona e Roma.17 As chamadas toalhas de Perugia dos séculos XV e XVI, com suas faixas de padronagem azul, estão entre os vestígios mais conhecidos dessa difusão úmbria.

O que o algodão deslocou
A nova fibra não aboliu a lã nem o linho. Tomou uma parte de cada um e mudou a função de cada um.
| Antes do algodão | Depois da indústria do fustão |
|---|---|
| Linho para camisas, lençóis, toalhas, roupas de baixo | Linho cada vez mais vendido como urdidura do fustão; algodão e tecidos mistos ocupam a faixa mais barata do mercado de linho |
| Lãs leves para o vestuário externo comum | Fustões, felpados e tingidos, concorrem com as lãs leves em preço e durabilidade |
| Enchimento acolchoado de armadura feito de bambagia em rama | O algodão torna-se tecido, e não apenas enchimento |
| Pano de vela de cânhamo | Pano de vela de algodão e de algodão com cânhamo para galés e cocas |
| Fiação do linho como ofício doméstico | Fiação para intermediários mercantis, segundo especificações da guilda, para mercados distantes |
A última linha dessa tabela é a mudança mais profunda. A fiação fizera parte da economia doméstica camponesa; sob a indústria do fustão, tornou-se trabalho assalariado, feito em casa, mas para um mercador, segundo uma especificação fixada numa cidade que a fiandeira talvez nunca visitasse.1 No sul da Europa, o algodão e o linho, juntos, passaram a rivalizar com a lã no vestuário cotidiano, e a gama de tecidos baratos, duráveis e variados da indústria italiana mudou para sempre o que os europeus esperavam vestir e quanto esperavam pagar por isso.1
A origem islâmica não sobreviveu na memória. Em dois séculos, o fustão era um tecido europeu, feito em Milão, Cremona e Ulm. Ashtor encontrou os venezianos vendendo fustão da indústria do norte da Itália no Levante mameluco no início do século XV, ao lado de sarjas inglesas e irlandesas, aos estratos médios e baixos de suas cidades.12
Além dos Alpes: Ulm, Augsburgo e os Fugger
A transmissão não parou na Lombardia. Nas décadas de 1350 e 1360, a guerra entre Veneza e Luís, o Grande, rei da Hungria — na qual o imperador Carlos IV e as principais cidades do sul da Alemanha, Nuremberg, Augsburgo e Regensburg, tomaram o partido da Hungria —, e a guerra de Carlos IV contra Bernabò Visconti de Milão afastaram os mercadores alemães do fustão lombardo. Eles passaram a fabricar o seu. Ashtor data a onda de fundações de cerca de 1365: a tecelagem de fustão aparece em Viena em 1369, em Augsburgo em 1372, em Nördlingen em 1373 e em Landshut em 1375. O algodão em rama era comprado, como os italianos compravam o deles, em Veneza.1218
Wolfgang von Stromer, cujo estudo de 1978 sobre a fundação da indústria algodoeira da Europa central a apresenta como um ato de política econômica do fim da Idade Média, mostrou que a indústria suábia nasceu dos distritos linheiros do alto Danúbio — Ulm, Augsburgo, Memmingen — exatamente como a indústria lombarda nascera do linho da Lombardia.18 Seus tecidos eram vendidos sob quatro marcas comuns, o boi, o leão, a uva e a roda, em toda a Europa central e setentrional.18
Um dos imigrantes que chegaram a Augsburgo em 1367 foi um mestre tecelão, Hans Fugger. A história da própria firma familiar registra que ele não se sentava ao tear: adiantava algodão e linho a tecelões a crédito e recebia em troca o fustão deles, que revendia com lucro.19 Duas gerações depois, seu neto Jakob Fugger era o mercador-banqueiro mais rico da Europa, e a fortuna que começara distribuindo algodão sírio a tecelões suábios emprestava dinheiro a imperadores.
A Síria torna-se fornecedora
Na ponta oriental do sistema, o algodão transformou a terra. Ashtor constatou que as plantações de algodão no Egito e na Síria voltaram a se expandir no fim do século XIV e no início do século XV, e que na Palestina o aumento “deve ter sido particularmente espetacular”: os viajantes ocidentais por volta de 1300 e Ibn Faḍl Allāh al-ʿUmarī por volta de 1345 não mencionam algodão ali, mas um autor árabe da década de 1360 detém-se no plantio de algodão no distrito de Acre, e os cadastros otomanos feitos depois de 1516 mostram o algodão como cultura importante em torno de Acre, Nazaré, Safed e Jafa.12 Grande parte dessa safra não ia para os teares sírios. “Embora a Síria e a Palestina tivessem suas próprias manufaturas de algodão”, escreveu Ashtor, “parece que a maior parte das safras de algodão era exportada para a Europa.”12
O estudo de Jong-Kuk Nam sobre o comércio de algodão no Mediterrâneo do fim da Idade Média, centrado nos mercadores de Veneza, Gênova, Barcelona e Florença, acompanha toda a cadeia do consumo de volta ao abastecimento — as regiões produtoras, o transporte marítimo e o aprovisionamento dos centros manufatureiros — e descreve a mesma estrutura: um comércio marítimo de fibra em rama organizado por mercadores latinos para cidades manufatureiras latinas.20
Uma cronologia da transmissão:
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| primeira metade do 6º milênio a.C. | Fios de algodão numa conta de cobre em Mehrgarh, no Baluchistão |
| século V a.C. | Heródoto descreve a “lã” indiana que cresce em árvores |
| c. 700–1100 | O algodão torna-se cultura de massa em todo o mundo islâmico, do Irã a al-Andalus |
| 1237 | Mais antiga ilustração nítida de uma roda de fiar, Bagdá |
| início do século XII | Tecelagem de algodão estabelecida nas cidades do vale do Pó |
| 1295 | Veneza adota medidas para fomentar a importação de algodão do Levante |
| c. 1340 | Pegolotti classifica o algodão de Hama como o melhor do Mediterrâneo |
| c. 1365–1375 | Tecelagem de fustão fundada em cidades do sul da Alemanha, com algodão veneziano |
| década de 1370 | Estabelecido o comboio veneziano semestral de algodão para a Síria mameluca |
| 1400 | As cocas venezianas do algodão trazem quase 12.000 sacas da Síria |
| início do século XV | O “colapso” da produção industrial levantina segundo Ashtor |
Qual foi o custo
Nenhum exército levou o algodão à Itália. A transmissão foi comercial, voluntária e, em seus próprios termos, generosa: deu aos europeus comuns um tecido barato, lavável e durável que nunca haviam tido. A conta foi econômica, e foi paga nas duas pontas do comércio e ao longo do caminho. É menor do que as contas de muitos registros do atlas, e deve ser apresentada em seu verdadeiro tamanho.
Os teares do Levante: declínio ou desindustrialização?
A acusação mais pesada é também a mais debatida. Ashtor sustentou que, no início do século XV, a economia industrial do Egito e da Síria entrou em colapso. “No início do século XV, ocorreu uma grande mudança nas estruturas econômicas do Oriente Próximo: houve um declínio acentuado da produção industrial”, escreveu. “Talvez não fosse exagero falar de um colapso.”12 As causas que apontava eram várias: custos de mão de obra que subiram depois que a Peste Negra e as epidemias seguintes esvaziaram as cidades do Levante; corantes e outros insumos que precisavam ser importados da Europa a alto custo; a interferência estatal e a pesada tributação sob o regime mameluco; e a venda das próprias matérias-primas do Levante — o algodão em primeiro lugar — às indústrias europeias em vez de às suas.1221
A tese é contestada há quarenta anos. Maya Shatzmiller qualificou a suposta conexão entre a ascensão europeia e o declínio islâmico de “um vínculo mal interpretado”, observando que as importações de manufaturas europeias conviveram com a continuidade das exportações levantinas.22 Francisco Apellániz leu a economia mameluca tardia como uma transformação bem-sucedida rumo a um sistema dirigido pelo Estado, e não como um colapso. Georg Christ, ao rever o debate em 2016, concluiu que os críticos não haviam desmontado as evidências de Ashtor, mas que a palavra dele estava errada: “Embora as teses de Ashtor sejam factualmente sólidas, a noção de declínio é enganosa.” Christ propõe, em seu lugar, desindustrialização — o Egito e a Síria cedendo partes da manufatura a um sócio menor, Veneza e seu hinterland, que assumiu a produção de alguns bens e o fornecimento de outros.21

Seja qual for a palavra escolhida, a forma da troca no caso do algodão não está em disputa. Em 1400, Veneza levava quase 12.000 sacas de algodão em rama sírio por ano, enquanto o fustão da indústria do norte da Itália era vendido no Levante.1221 O próprio exame de Christ das listas de carga venezianas de 1419 encontra fustão da Alta Alemanha e algodão italiano entre as mercadorias descarregadas em Alexandria, e algodão em rama entre as mercadorias carregadas ali.21 O padrão — fibra saindo, tecido acabado entrando — foi o que mais tarde definiu a economia algodoeira global.
As fiandeiras do campo
O sistema lombardo assentava no trabalho de mulheres que raramente nomeava. A fiação e a preparação das urdiduras eram confiadas a camponesas das aldeias linheiras, pagas por meio de comerciantes de fio que se interpunham entre elas e os mestres da guilda na cidade; o branqueamento nos lagos era trabalho sazonal, em grande parte feminino.1 As guildas legislavam sobre essas mulheres constantemente — a contagem de seu fio, o comprimento e o peso de suas urdiduras — e as invocavam quando convinha à guilda.
Em 1448, durante a efêmera República Ambrosiana, a guilda do fustão de Milão denunciou a exportação não autorizada de fio de algodão e de linho e de fios de urdidura para Cremona e Florença como um dano às “inúmeras pessoas pobres” que viviam da indústria milanesa. A resposta da república foi um regime de licenças imposto por multas: cinco florins por jogo de fios de urdidura e vinte soldos por libra de fio levados para fora do ducado sem licença, e cinquenta ducados de ouro por fardo de qualquer fustão transportado sem marcas e selos de inspeção.1 As “pessoas pobres” em cujo nome se baixou o decreto eram aquelas cujo fio ele agora mantinha cativo dentro do ducado, para ser vendido somente onde a guilda permitisse.
Essa tensão atravessou toda a história da indústria. Quando a tecelagem de algodão se espalhou pelos burgos e aldeias lombardos, a guilda milanesa lutou para manter na cidade a batedura, o acabamento e a selagem final dos tecidos, e os trabalhadores rurais reagiram; o campo acabou vencendo, e no fim do século XVI grande parte da indústria se transferira para cidades como Busto Arsizio e Gallarate.1 Cada vitória de um grupo de trabalhadores era a perda do sustento de outro.
Guerra comercial, embargo e falsificação
O algodão era estratégico, e disputava-se:
- 1308: uma galé genovesa apreendeu navios venezianos que transportavam mais de quinhentas sacas de algodão.12
- 1338–1347: os fabricantes de fustão de Milão protestaram contra a alta dos preços do tecido cru e a especulação com o algodão em rama; em 1347, meses antes de a peste chegar à Lombardia, a guilda limitou as compras semanais de algodão de seus membros e restringiu cada mestre a quinze teares e cada novo ingressante a quatro ou cinco.231
- 1367: escassez de algodão em Veneza, à medida que a nova indústria alemã disputava com a italiana o abastecimento veneziano; o Senado enviou uma coca extra a Alexandria.12
- 1373: os funcionários do Fondaco dei Tedeschi em Veneza queixaram-se de que mercadores alemães que compravam algodão do Levante faziam imitações baratas dos fustões italianos com cópias falsificadas das marcas italianas, e proibiram-nos de exportar algodão batido e fiado em território veneziano.18
- 1412–1413 e 1418–1433: Sigismundo de Luxemburgo, rei da Hungria e depois imperador, impôs a Veneza o que Stromer chamou de “bloqueio continental” e tentou desviar o algodão do Levante para a indústria alemã pelos portos do mar Negro.24
Os números venezianos registrados pelo doge Tommaso Mocenigo em 1421 mostram o que estava em jogo: o comércio de algodão com a Lombardia valia 280.000 ducados por ano, dos quais só o fio de algodão fiado respondia por 30.000.25
As cidades que a indústria deixou para trás
A indústria do fustão mudou-se, e cada mudança deixou um naufrágio para trás. Uma das primeiras vítimas foi a indústria algodoeira de Barcelona, que trabalhava o algodão desde antes do surto lombardo. Espremida entre as importações italianas e alemãs, ela desmoronou: em 1441, o conselho da cidade registrou que restavam apenas seis a dez oficinas das mais de trezentas que haviam funcionado no auge da guilda. Um subsídio para 1.000 peças por ano foi reduzido a 900 em 1443 e depois abandonado, e o ofício encolheu até a fabricação de pano de vela para a frota.261
As cidades italianas vieram em seguida. A tabela mostra a dimensão da queda:
| Centro | Auge | Depois |
|---|---|---|
| Barcelona | mais de 300 oficinas de algodão | 6–10 oficinas (1441) |
| Veneza | mais de 60.000 peças por ano (fim do séc. XIV) | 170 teares, c. 5.100 peças (1599) |
| Cremona | mais de 60.000 rolos por ano, 40.000 para Veneza (início do séc. XV) | 138 firmas (1627), 60 (1631), 41 (1648); 8.000 peças para exportação, cerca de 300 trabalhadores (1761) |
Fontes: Carrère e Mazzaoui para Barcelona; Mazzaoui para Veneza e Cremona.26117
O trabalho não desapareceu; foi para o campo e para centros mais baratos no Piemonte, na Ligúria e na Suábia, onde os salários eram mais baixos e os controles das guildas, mais frouxos. Quem pagou foram os artesãos urbanos das cidades que ele deixou para trás, e os mestres da guilda de Cremona que em 1648 se declararam “pobres e miseráveis” demais para pagar sua parte do tributo.1
Até a indústria alemã pagou quando a linha de abastecimento se rompeu. No início da década de 1570, quando a conquista otomana de Chipre cortou uma de suas fontes, o conselho de Ulm suspendeu sua antiga proibição do algodão sírio fiado e do algodão brasileiro importado via Marselha.27 A segunda dessas fibras aponta para o capítulo seguinte da história do algodão.
O que a conta não inclui
A honestidade sobre o custo exige declarar seus limites. A transmissão em si nada tomou pela força. O algodão difundiu-se pelo mundo islâmico como uma cultura que os agricultores escolheram e um tecido que os consumidores desejavam, e chegou à Itália pelo comércio com parceiros que vendiam de bom grado e eram pagos por isso. As dificuldades industriais do Levante tiveram muitas causas, entre elas a peste e a política fiscal mameluca, e a demanda europeia por algodão em rama foi apenas uma delas.21 A Sicília e o sul da Itália, que cultivavam as qualidades mais baixas da lista de Pegolotti, mantiveram indústrias têxteis próprias.14
Este registro tampouco carrega a conta, muito mais pesada, da história posterior do algodão. Giorgio Riello chama o período de cerca de 1000 a 1500 de “a primeira revolução do algodão”, um sistema disperso e policêntrico com a Índia em seu cerne.7 O sistema que o substituiu depois de 1500 — a manufatura europeia alimentada por algodão de plantation cultivado por africanos escravizados nas Américas, e as indústrias indianas de tear manual minadas pelas fábricas britânicas — foi construído sobre uma violência de outra ordem, que Sven Beckert chama de “capitalismo de guerra”.28 Essa conta pertence a outros registros. O que a transmissão medieval forneceu foi o molde: manufatura no centro, fibra dos campos de outros, e uma indústria que seguia adiante sempre que outra cidade conseguia fazer o mesmo tecido mais barato.
What followed
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-5500Na primeira metade do sexto milênio a.C., fios de algodão são sepultados dentro de uma conta de cobre num túmulo em Mehrgarh, no Baluchistão — o algodão mais antigo conhecido no subcontinente indiano, preservado pela corrosão do metal.
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-430Heródoto descreve a Índia como a terra onde uma lã mais fina que a das ovelhas cresce em árvores silvestres e veste os indianos. Durante mil e quinhentos anos, a Europa latina conhece o algodão sobretudo como maravilha e como artigo importado.
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900Ao longo dos séculos IX e X, o algodão torna-se uma cultura de verão em massa no mundo islâmico. No Irã, segundo a leitura de Richard Bulliet, um surto algodoeiro faz da região a mais rica do califado; o algodão vira tecido de uso cotidiano do Khorasan a al-Andalus.
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1237Em Bagdá, Yaḥyā al-Wāsiṭī pinta uma roda de fiar numa cópia das *Maqāmāt* de al-Ḥarīrī — a mais antiga imagem nítida da ferramenta que os fiandeiros de algodão da Itália herdarão, ao lado do descaroçador de rolos e do arco da Índia.
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1130A partir do início do século XII, as cidades do vale do Pó — Milão, Cremona, Pavia, Piacenza, Veneza, Gênova e outras — tecem algodão ao lado da lã. O fustão, com urdidura de linho e trama de algodão segundo o modelo dos tecidos islâmicos, torna-se o primeiro tecido de algodão de mercado de massa da Europa latina.
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1295Veneza adota medidas para fomentar a importação de algodão do Levante. Em 1308, uma galé genovesa apreende navios venezianos que transportavam mais de quinhentas sacas de algodão: a fibra em rama passou a valer uma luta.
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1340O manual mercantil de Francesco Balducci Pegolotti classifica o algodão de Hama, na Síria, como o melhor do Mediterrâneo, e o da Sicília, da Calábria e de Malta como o pior — um mapa de um abastecimento que vai do Levante muçulmano às cidades manufatureiras latinas.
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1347Meses antes de a peste chegar à Lombardia, a guilda do fustão de Milão limita as compras semanais de algodão de seus membros e restringe cada mestre a quinze teares, atribuindo seus custos à especulação com o algodão em rama.
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1367Afastadas do fustão lombardo pela guerra, cidades do sul da Alemanha fundam uma indústria própria com algodão veneziano — Viena em 1369, Augsburgo em 1372, Nördlingen em 1373. Em 1367, o mestre tecelão Hans Fugger muda-se para Augsburgo e começa a adiantar algodão a tecelões a crédito.
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1400O comboio semestral de cocas algodoeiras de Veneza, que navega para a Síria mameluca desde a década de 1370, traz para casa quase 12.000 sacas de algodão em rama, o auge do comércio. Ashtor constata que a maior parte da safra de algodão da Síria e da Palestina passa então a ser exportada para a Europa.
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1412Sigismundo de Luxemburgo impõe um embargo a Veneza (1412–1413, renovado em 1418–1433) e tenta desviar o algodão do Levante para a indústria alemã pelos portos do mar Negro — o algodão tornou-se instrumento de guerra comercial continental.
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1441O conselho de Barcelona registra que restam apenas seis a dez oficinas de algodão das mais de trezentas do auge da guilda, esmagadas entre as importações italianas e alemãs. O ofício fica reduzido ao pano de vela para a frota.
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1448A guilda do fustão de Milão, falando em nome das “inúmeras pessoas pobres” da indústria, obtém um regime de licenças que multa a exportação não autorizada de fio e de fios de urdidura — o trabalho das fiandeiras das aldeias fica retido no ducado por força de lei.
Where this lives today
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