O Japão aprendeu a se escrever gastando os caracteres chineses (c. 900)
Dois silabários sem inventor, sem data de invenção e sem decreto — um desgastado pela mão cursiva, outro recortado das margens dos sutras budistas —, que deram à corte de Heian o *Conto de Genji* e um muro atravessando a sua própria alfabetização.
O Japão escrevia havia quatro séculos antes dos kana, e escrevia em chinês, uma língua que ninguém falava ali. Os silabários não foram projetados: foram gastos — o hiragana, a partir de caracteres cursivos traçados depressa demais; o katakana, recortado das margens dos sutras que os monges glosavam. Em 905 a corte assinou em kana uma antologia imperial. Nunca deixou de escrever suas leis em chinês.
Uma corte que sabia escrever e não sabia se escrever
Por volta do ano 800, os japoneses escreviam havia quatro séculos. É o dado que o relato popular dos kana não para de perder, e dele depende todo o resto. O arquipélago não era analfabeto antes dos silabários. Era extremamente letrado — em chinês.1
O Estado do ritsuryō, que transferiu sua capital para Heian-kyō em 794, funcionava à base de documentos. Tinha um código penal e administrativo decalcado do estatuto Tang, um Ministério do Cerimonial, governadores provinciais que protocolavam registros fiscais, uma universidade que ensinava os clássicos chineses aos filhos dos funcionários e um estabelecimento budista com um cânone de milhares de rolos. Tudo isso era redigido em chinês literário, por japoneses, para outros japoneses, numa língua que nenhum deles falava.2 Os documentos em madeira — os mokkan —, recuperados às dezenas de milhares nos sítios do período Nara, mostram a mesma competência bem abaixo do nível da corte: contagens, etiquetas, requisições, folhas de exercício em que um escriba copiou quarenta vezes um caractere até acertá-lo.3
O problema, portanto, nunca foi que o Japão não soubesse escrever. Era mais estreito e mais incômodo: o japonês não é o chinês, e uma escrita concebida para o chinês não lhe serve.
Cabe precisar quanto custava adquirir essa alfabetização, pois isso determina quem a tinha. O estudante da universidade estatal, o Daigakuryō, trabalhava os clássicos chineses sob uma tradição de leitura transmitida oralmente do mestre ao discípulo; o currículo pressupunha anos, e as vagas eram reservadas por posto. Abaixo desse nível, os escribas dos ministérios e das províncias aprendiam copiando, e os mokkan preservam suas folhas de treino. De um jeito ou de outro, o preço de entrada era o mesmo: vários anos de instrução continuada numa língua estrangeira, ao alcance de homens vinculados a uma instituição. No Japão de Heian, a alfabetização não era uma habilidade que alguém adquirisse. Era uma posição que alguém ocupava.122
Duas línguas que não se encaixam
O chinês clássico é analítico e praticamente sem flexão. A ordem das palavras faz o trabalho gramatical; um caractere é uma palavra. O japonês é aglutinante. Constrói sentido empilhando sufixos sobre radicais — tempo, negação, causação, cortesia, evidencialidade — e marca o papel de cada substantivo com uma partícula que o segue. Uma frase japonesa é sobretudo gramática. Uma frase chinesa é sobretudo léxico.
Escrever japonês com caracteres chineses implica, portanto, resolver um problema que o chinês jamais teve de resolver: como escrever as desinências. Não existe caractere para o sufixo de passado -ki, porque o chinês não o tem. Não existe um para a partícula de tópico wa. Os japoneses haviam herdado um sistema de escrita capaz de registrar todos os substantivos de sua língua e quase nada do tecido conjuntivo entre eles.1
Resolveram como sempre resolveu quem se viu nessa situação: desprendendo os caracteres de seu significado para empregá-los pelo som. Um caractere como 安, an, «paz», podia servir para escrever a sílaba a — não porque o escriba quisesse dizer paz, mas porque o caractere soava aproximadamente certo. A erudição moderna chama essa prática de man'yōgana, pelo nome da antologia em que ela atinge seu pleno desenvolvimento.4
A solução do Man'yōshū e o que custava usá-la
O Man'yōshū, compilado em etapas e sem nenhum poema datável depois de 759, é o grande monumento da escrita fonográfica em japonês e a melhor demonstração de por que um silabário acabaria tendo de surgir.4 Ao longo de seus vinte livros, emprega cerca de novecentos e setenta caracteres chineses distintos apenas por seu valor sonoro — muitas vezes vários caracteres diferentes para a mesma sílaba, escolhidos pelo aspecto na página, pelo significado que contrabandeiam, pela alusão ou por nenhuma razão recuperável.7
Veja-se o que isso exige de um leitor. Ao abrir um poema, ele precisa decidir, caractere a caractere, se o grafo diante dele é:
- um caractere chinês lido pelo significado, com uma palavra japonesa suprida em seu lugar (leitura kun);
- um caractere chinês lido por seu valor sino-japonês dentro de um composto;
- um caractere chinês valendo puramente por uma sílaba japonesa, descartado o sentido;
- um caractere metido num jogo visual ou charadístico, como escrever a sequência ni-ku-ku com o grafo de «oitenta e um», já que oitenta e um é nove vezes nove e nove se diz ku.
Os quatro casos ocorrem, às vezes no mesmo verso. O Man'yōshū contém poemas que ninguém jamais leu a contento geral; a abertura do poema 9, a crux chamada Makukamu, atrai leituras há mil anos e continua sem nenhuma consensual.47
Veja-se agora o que isso exige de quem escreve. Para escrever a mora ka sozinha, um escriba podia traçar 加 (cinco traços), 迦 (nove), 賀 (doze) ou 甲 (cinco). Escrever foneticamente um waka de trinta e uma sílabas podia facilmente exigir duzentas pinceladas. Não é um sistema que se use para rabiscar um bilhete.
Convém manter à vista a advertência de David Lurie. A sequência dos manuais — caracteres chineses, depois man'yōgana, depois sōgana cursivos, depois hiragana — lê-se como uma escada de eficiência crescente galgada por uma nação que encontra sua voz. Não foi nada disso. O Japão antigo sustentou várias alfabetizações ao mesmo tempo, empregadas para fins distintos por grupos distintos, que se sobrepuseram e competiram por séculos em vez de se sucederem.1 Komatsu Hideo formula o mesmo argumento do lado japonês e o leva mais longe: a genealogia arrumadinha que vai do man'yōgana ao hiragana é uma reconstrução moderna imposta a dados que não sustentam nenhuma linha única de descendência.19
O que o século VIII ouvia
O estado «anterior» possuía ainda uma coisa que o «posterior» não teve, e é o item mais silencioso do passivo deste registro.
As grafias man'yōgana do século VIII não são arbitrárias na escolha entre os caracteres disponíveis para uma sílaba. Em cerca de treze sílabas do japonês antigo — ki, hi, mi, ke, he, me, ko, so, to, no, mo, yo, ro e suas contrapartes sonoras —, os escribas repartem os caracteres disponíveis em dois conjuntos constantes e jamais os misturam. Ishizuka Tatsumaro, discípulo do filólogo Motoori Norinaga, notou o padrão no fim do século XVIII; ele foi redescoberto e sistematizado no XX e é conhecido como distinção kō-otsu.27
A distinção é real. O japonês do século VIII tinha contrastes vocálicos que o do X já não tinha, e quem o escrevia os ouvia e os anotava. No século IX os contrastes desmoronam; no X sumiram da língua e, o que é decisivo, sumiram da escrita, porque um silabário de um signo por mora não tem onde alojá-los.2 Os kana são um instrumento melhor do que o man'yōgana em todos os aspectos práticos e pior neste: já não conseguem escrever uma distinção que seu antecessor escrevia.
A transmissão: desgaste, glosa e uma corte que para de importar
Aqui não há momento fundador, e a ausência é o ponto. Os kana não têm inventor, nem data de invenção, nem edito de promulgação, nem volume explicativo. Postos ao lado do caso coreano três séculos depois — um rei com nome, um ano documentado, um livro que explica a forma de cada letra —, a escrita japonesa é órfã. Não foi projetada. Foi gasta.
As embaixadas cessam
O quadro político mudou primeiro. O Japão enviava embaixadas oficiais à corte Tang desde 630 — os kentōshi, missões de centenas de homens que cruzavam o mar da China Oriental em naus que muitas vezes não chegavam, levando estudantes e monges que permaneciam anos e voltavam com manuscritos, relíquias, instrumentos e vocabulário. Kūkai e Saichō, fundadores entre ambos das escolas Shingon e Tendai, viajaram na embaixada de 804.18
Uma vigésima missão estava prevista para 894. Sugawara no Michizane — erudito, poeta, o mais consumado estilista chinês de sua geração e o homem designado para chefiá-la — aconselhou o imperador Uda a cancelá-la, alegando a desordem do fim da Tang e o risco da travessia. Uda cancelou. Nenhuma embaixada oficial voltou a zarpar, e a própria Tang ruiu em 907.18
Isso não pôs fim ao contato japonês com a China; mercadores e monges continuaram a cruzar, e os livros continuaram a chegar. Mas pôs fim à época em que a política cultural da corte consistia em importar com calendário de Estado. O que o século IX fez foi digerir o que já tinha. Os kana emergem exatamente nessa janela.
Gastar os caracteres
Caracteres chineses traçados depressa perdem traços. Não é um fenômeno japonês: é a razão de ser da mão sōsho, dita «de erva», na China, e os escribas japoneses a haviam herdado junto com todo o resto. O que aconteceu no Japão é que as formas cursivas dos caracteres empregados fonograficamente continuaram a se erodir para além do ponto em que ainda eram reconhecíveis como os caracteres de que vinham — e então pararam, porque uma marca que perdeu toda a sua redundância não pode perder mais nada e continuar legível.
O resultado é um conjunto de grafos cuja ascendência se vê assim que apontada e não se vê de outro modo:
| Caractere de origem | Som | Resultado cursivo (hiragana) | Resultado abreviado (katakana) |
|---|---|---|---|
| 安 an, «paz» | a | あ | — |
| 阿 a | a | — | ア (só o elemento esquerdo) |
| 以 i, «por meio de» | i | い | — |
| 伊 i | i | — | イ (só o elemento esquerdo) |
| 宇 u, «beiral» | u | う | ウ (só o elemento superior) |
| 加 ka, «acrescentar» | ka | か | カ (só o elemento esquerdo) |
| 幾 ki, «quantos» | ki | き | — |
| 呂 ro | ro | ろ | ロ (só o elemento superior) |
| 奈 na | na | な | ナ (só o elemento superior) |
| 留 ru | ru | る | ル (só o elemento inferior) |
As duas colunas da direita procedem de duas operações diferentes, e este é o fato estrutural mais importante da escrita japonesa. O hiragana é o caractere inteiro, ligado e desgastado. O katakana é um fragmento do caractere, recortado e conservado. Não são dois estilos de uma mesma escrita. Vêm de práticas distintas, feitas por gente distinta, por razões distintas.310
O lado do hiragana é anônimo. Ninguém registra tê-lo feito. O que sobrevive é o produto: cerâmica escavada em novembro de 2011 no sítio da residência quiotense de Fujiwara no Yoshimi (813-867), anunciada pelo Instituto Municipal de Pesquisa Arqueológica de Quioto em 28 de novembro de 2012, com hiragana cursivo ligado em linhas contínuas e com alusões literárias. Nishiyama Ryōhei, da Universidade de Quioto, que examinou os cacos, chamou o achado de precioso justamente por causa dessas linhas ininterruptas: não é experimentação, é fluência.12 As peças datam de meados do século IX e recuam cerca de cinquenta anos a atestação do kana cursivo maduro, situando-o em vida de um ministro em exercício.
Esse detalhe merece frase própria. O hiragana fluente mais antigo que temos foi descartado no recinto de um dos homens mais poderosos do país, na geração anterior ao Kokin wakashū. Quaisquer que tenham sido as associações posteriores da escrita, ela estava em uso no topo da ordem política desde o começo.
Ler em voz alta: o katakana saído das margens
O katakana vem da direção oposta: não de escrever japonês, mas de ler chinês.
Um monge japonês diante de um sutra em chinês literário não o lia em chinês. Lia-o como japonês, reordenando as palavras conforme avançava e suprindo as partículas e desinências verbais que o chinês não escreve — a prática chamada kundoku, «leitura por glosa». John Whitman mostrou que não se trata de uma excentricidade japonesa, e sim de uma técnica leste-asiática geral, atestada na Coreia e nas esferas quitã e tangute.10 Para exercê-la com segurança sobre um texto difícil, e para ensiná-la, o leitor precisava inscrever sua análise na página: marcas indicando para qual caractere saltar em seguida, pontos dispostos em posições fixas ao redor de um caractere para sinalizar qual partícula o seguia (o sistema okototen) e pequenos sinais fonéticos para as próprias desinências.911
Esses sinais tinham de ser pequenos, rápidos e inconfundíveis contra as colunas do texto principal. Os caracteres man'yōgana inteiros não eram nada disso. Os glosadores, então, aparam-nos — não por abrasão cursiva, mas por amputação, guardando um elemento identificável do caractere e descartando o resto. 伊 guarda seu radical esquerdo e vira イ. 呂 guarda sua caixa superior e vira ロ. 八 permanece como está, em ハ. A angulosidade do katakana, que parece decisão de projeto, é consequência do comportamento do pincel numa calha de dois milímetros.
O testemunho substancial mais antigo é o Tōdaiji fujumonkō, rascunho de sermões budistas composto no Tōdaiji entre cerca de 796 e 830, cujo esquema okototen e cujo vocabulário o ligam à escola Hossō.89 Em julho de 2003 uma equipe de pesquisa de Nara relatou marcas semelhantes a イ e リ, gravadas com estilete de bambu afiado numa cópia do período Nara do Kegon-kyō guardada no Tōdaiji — inscrições sem tinta, que recuariam a prática para o século VIII.3
O estudo de Tsukishima Hiroshi sobre o kanbun kundoku de Heian estabeleceu o ponto que governa tudo o mais: a tradição de glosa desenvolveu convenções, léxico e gramática próprios, distintos do japonês que qualquer pessoa falava, e transmitiu-se dentro de instituições — linhagens de templos, casas eruditas — que tinham todos os motivos para mantê-la estável.11 O katakana nasceu, pois, institucional, masculino, clerical e preso ao chinês. Nunca precisou lutar por legitimidade, porque nunca foi apresentado como rival de nada.
Pôr as letras em ordem
Um conjunto de signos ainda não é uma escrita. Passa a ser quando todos concordam sobre quais são os signos e — para ensinar, indexar, recitar — sobre a ordem em que vêm. O Japão produziu duas respostas a essa pergunta, ambas saídas da erudição budista, e continua usando as duas.
A primeira é o gojūon, os «cinquenta sons»: uma grade de cinco vogais de largura e nove ou dez séries consonantais de altura, na ordem a-i-u-e-o e k-s-t-n-h-m-y-r-w. Essa sequência não é arbitrária nem é chinesa. É a ordem sânscrita, classificada pelo ponto de articulação da consoante — velares, depois sibilantes, depois dentais, depois nasais, e assim por diante —, chegada ao Japão pelo shittan, o estudo da escrita siddham em que se registravam os mantras do budismo esotérico. Kūkai trouxe materiais siddham de Chang'an em 806.183 A tabela mais antiga que sobrevive nessa disposição figura no Kujakukyō ongi, comentário fonético do Sutra do Pavão, datado de cerca de 1004 a 1028.24 Os escolares japoneses ainda aprendem seu silabário numa ordem que gramáticos indianos estabeleceram para o sânscrito e que monges japoneses importaram para salmodiá-lo corretamente.
A segunda é o iroha, poema que emprega cada uma das sílabas da língua exatamente uma vez — um pangrama perfeito e, de quebra, uma declaração budista sobre a impermanência. A tradição o atribui a Kūkai; a atribuição é impossível, já que a língua do poema pertence a uma fase do japonês posterior à dele. Aparece pela primeira vez, escrito em man'yōgana, no Konkōmyō saishōōkyō ongi de 1079, guia de leitura do Sutra da Luz Dourada.253
Ambos os ordenamentos são, portanto, artefatos da leitura das escrituras budistas. O silabário que se recorda como a escrita nativa, feminina e literária recebeu sua ordem alfabética da fonologia sânscrita e sua mnemônica de um comentário de sutra — e nenhum desses fatos jamais foi segredo. Simplesmente não fazem parte da história que se conta.
As testemunhas datadas
A transmissão não tem data única, mas tem uma sequência de superfícies onde pode ser flagrada:
| Data | Testemunha | O que mostra |
|---|---|---|
| 712 | Kojiki | Ō no Yasumaro expõe o problema sem rodeios: o japonês não se escreve só em chinês, e escrevê-lo fonograficamente é insuportavelmente longo |
| após 759 | Man'yōshū | A escrita fonográfica em plena extensão — cerca de 970 caracteres em uso sonoro, com as distinções kō-otsu intactas |
| c. 796-830 | Tōdaiji fujumonkō | A mais antiga glosa substancial em katakana, com okototen |
| c. 850-867 | Cacos do sítio de Fujiwara no Yoshimi, Quioto | Hiragana cursivo fluente com alusão literária, escavado em 2011, anunciado em 2012 |
| 894 | Cancelamento dos kentōshi | Fim da importação continental com calendário de Estado |
| 905 | Kokin wakashū | Primeira encomenda imperial escrita em kana; prefácio em kana de Tsurayuki ao lado do prefácio em chinês de Yoshimochi |
| 935 | Tosa nikki | Primeira prosa literária sustentada em kana, escrita por um homem em voz de mulher |
| c. 1000 | Makura no sōshi | A prosa cortesã como instrumento de julgamento e espírito |
| c. 1000-1012 | Genji monogatari | O longo romance vernáculo |
| c. 1008-1010 | Murasaki Shikibu nikki | O arranjo descrito por dentro, por alguém que ele constrange |
O que mudou e o que foi substituído
905: o Estado assina em kana
O Kokin wakashū foi encomendado pelo imperador Daigo e apresentado em 905, a primeira de vinte e uma antologias de poesia japonesa ordenadas pela corte.13 Seu alcance para a escrita é institucional mais do que literário: é o momento em que a corte apõe seu selo a um documento redigido em kana. Poemas em japonês sempre houve; o que não havia existido era um texto oficial, canônico, encomendado pelo imperador, na escrita vernácula.
A antologia traz dois prefácios, e o par resume todo o argumento. Ki no Yoshimochi escreveu um em chinês literário — o prefácio mana, «de caracteres verdadeiros». Ki no Tsurayuki escreveu o outro em kana. O de Tsurayuki abre assim:
A poesia japonesa tem por semente o coração humano e floresce numa miríade de folhas de palavras.13
É a primeira peça sustentada de crítica literária em japonês, e já se disse dessa passagem que é o texto de prosa profana mais comentado da tradição.23 Mas note-se o que significa a presença de dois prefácios. A corte não decidiu que a antologia seria em japonês. Decidiu que a antologia seria em japonês e também devidamente apresentada em chinês. O prefácio chinês não era uma cortesia. Era a versão que tornava o livro oficial.
935: Tsurayuki finge ser mulher
Trinta anos depois, de volta de seu mandato como governador da província de Tosa, o mesmo Ki no Tsurayuki escreveu em kana um diário de viagem de cinquenta e cinco dias. Abriu-o anunciando que diários são escritos por homens, e que ele — escrevendo como mulher — pretendia mesmo assim tentar um.14
O Tosa nikki é o texto fundador da prosa literária japonesa e começa com um disfarce. O disfarce denuncia a regra que ele contorna: nikki designava o registro datado, oficial, em língua chinesa, que um funcionário homem mantinha dos assuntos da corte, e o homem que quisesse escrever outra coisa — algo com sentimento, na própria língua, na própria escrita — tinha de sair do próprio sexo para fazê-lo. Tsurayuki era o poeta mais distinto de sua geração e um alto funcionário. Podia escrever qualquer coisa. Escreveu isto, nessa voz, porque a alternativa não existia no registro que ele queria.
O que se segue nos setenta e cinco anos seguintes é uma das concentrações de realização literária mais densas de qualquer língua. O Taketori monogatari, o Ise monogatari, o Kagerō nikki, o Livro do travesseiro de Sei Shōnagon, o Conto de Genji de Murasaki Shikibu — um corpo de ficção em prosa e escrita pessoal em língua vulgar que, naquela data, não tinha equivalente em parte alguma do mundo, e escrito em boa medida por mulheres.23
O segundo cômodo
É tentador, e falso, descrever isso como uma substituição do chinês pelos kana. Nada foi substituído. O que o século X construiu foi uma divisão de trabalho, e ela durou novecentos anos.
O que permaneceu em chinês literário:
- Os códigos jurídicos e toda a documentação administrativa e fiscal
- As histórias oficiais, até o Nihon sandai jitsuroku de 901
- A totalidade do cânone budista e praticamente todo o comentário doutrinário
- A correspondência diplomática
- O currículo da universidade estatal e a erudição a ele ligada
- Os diários oficiais datados dos cortesãos homens — o Midō kanpakuki de Fujiwara no Michinaga, por exemplo, redigido nos mesmos anos que o Genji
- A medicina, a ciência calendárica, a adivinhação
O que passou para os kana:
- A poesia waka e as antologias imperiais
- A ficção em prosa — os monogatari
- Os diários e memórias pessoais, inclusive os de homens quando não eram oficiais
- A correspondência privada
- Os textos devocionais e populares dirigidos a leitores sem chinês
O arranjo não foi imposto por ninguém. Nenhum edito atribuía o chinês ao direito e o japonês à poesia; nenhuma repartição policiava a fronteira. Ele se manteve por causa do que cada escrita servia e de quem era treinado nela, mecanismo mais durável que uma regra. Fujiwara no Michinaga, regente de fato a partir de 995 e o homem mais poderoso do Japão, mantinha seu diário oficial — o Midō kanpakuki, do qual sobrevivem porções de seu próprio punho — em chinês literário, nos mesmos anos em que as mulheres da casa de sua filha produziam o Genji. Ele não obedecia a uma proibição. Escrevia o tipo de documento que escrevia.23
O estudo regional de Peter Kornicki formula a comparação com nitidez: toda cultura letrada da esfera sinográfica — Coreia, Vietnã, os Estados quitã e tangute — construiu alguma versão desse arranjo, e em cada caso a escrita vernácula ocupou o espaço que a chinesa recusava preencher, em vez de desalojá-la.18 A versão japonesa só foi incomum pela rapidez e pela qualidade com que o lado vernáculo foi mobiliado.
A letra plural
Mais uma coisa mudou e, como depois foi desfeita, passa facilmente despercebida. Os kana que os séculos X e XI usaram não eram um conjunto fechado de umas quarenta e tantas figuras. Eram um conjunto aberto de várias centenas.
Como cada grafo descendia de um caractere chinês inteiro, e como para a maioria das sílabas havia mais de um caractere disponível, o escriba herdava uma escolha: a mora ka podia ser escrita a partir de 加, ou de 可, ou de 閑, cada um desgastado até uma forma diferente. Todas eram corretas. Uma mão treinada transitava entre elas dentro de uma mesma linha, escolhendo pela forma do traço anterior, pelo corrimento da coluna, pelo peso de tinta que restava no pincel. Os grandes manuscritos decorados — o Kokin wakashū Sekido-bon, o Sanjūrokunin kashū reunido no Nishi Honganji por volta de 1112 — são belos de um modo sem equivalente europeu precisamente por isso: a escrita não é a transcrição do poema, é uma execução dele, espalhada sobre papel tingido e salpicado de ouro, em colunas que se rompem e retomam.2223
Em outras palavras, o juízo caligráfico estava embutido na alfabetização comum, em vez de reservado a especialistas. Escrever em kana era tomar várias dezenas de decisões estéticas por linha. Não é pouca coisa ter tido isso, e não é pouca coisa tê-lo perdido; a perda ocorre em 1900 e pertence à seção do custo, abaixo.
A escrita mista e a longa carreira do katakana
A terceira coisa a surgir, e a que de fato venceu, não foi nenhum dos silabários isoladamente. O kanji-kana majiribun — caracteres chineses para as palavras plenas, kana para a gramática — é a forma que o japonês moderno ainda assume, e aparece cedo. O manuscrito Suzuka-bon do Konjaku monogatarishū, guardado na Universidade de Quioto e datado do século XII, é sua grande testemunha precoce: uma vasta coleção de mais de mil narrativas vindas da Índia, da China e do Japão, escrita em caracteres com katakana fazendo o trabalho flexional.20

Note-se qual dos silabários cumpre essa função. Como o katakana nascera aparato erudito para ler chinês, não carregava nenhuma das associações do hiragana com o sentimento privado e era, portanto, aquele que podia ser misturado a um texto sério sem lhe rebaixar o registro. Essa herança foi longe. Quando o Estado Meiji começou a imprimir estatutos, decretos, manuais militares, telegramas e formulários oficiais no fim do século XIX, imprimiu-os em caracteres e katakana. O Rescrito Imperial sobre a Educação de 1890 está em caracteres e katakana. O direito japonês foi escrito assim até as reformas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.3
A glosa popular — hiragana para as palavras japonesas, katakana para as estrangeiras — descreve, portanto, um arranjo com pouco mais de oitenta anos. Durante seu primeiro milênio, o katakana foi a escrita do Estado, e o hiragana a de tudo aquilo que não interessava ao Estado.
Qual foi o custo
Ninguém morreu pelos kana. Não há aqui conquista, nem extração, nem população reprimida, nem biblioteca incendiada. A conta própria da transmissão é pequena, e o que se deve fazer honestamente com uma conta pequena é discriminá-la com exatidão em vez de inflá-la.
O muro dentro da corte
O custo mais nítido é o que a corte de Heian infligiu a si mesma, e sua melhor testemunha é a escritora que mais tinha a perder.
Murasaki Shikibu, filha do funcionário provincial e sinólogo Fujiwara no Tametoki, aprendera chinês literário na infância ouvindo as lições do irmão e ultrapassando-o. Serviu na casa da imperatriz Shōshi a partir de cerca de 1006. Em seu diário, escrito por volta de 1008-1010, registra que uma dama de companhia, Saemon no Naishi, passara a chamá-la de Nihongi no mitsubone — «Nossa Senhora das Crônicas» — depois que o imperador, ao ouvir a leitura de capítulos do Genji, comentou que sua autora devia ter lido o Nihon shoki. O apelido não era elogio. Marcava-a como mulher exibindo um saber que não lhe cabia exibir.15
Sua resposta, nas próprias palavras dela, é que desde então deixou de escrever sequer o caractere 一 — «um», um único traço horizontal — onde alguém pudesse ver. Descreve-se evitando as inscrições dos biombos.15 Em outro ponto, anota que vinha lendo poesia chinesa com a imperatriz em segredo, em momentos avulsos em que não havia ninguém por perto, e que julgara melhor não dizer nada a ninguém.15
Isto não é metáfora de um custo. É um custo: uma contração concreta, datada e autoinfligida, imposta por uma norma que a ordem de duas escritas tornou disponível. O arranjo não criou a exclusão das mulheres da vida pública, mais antiga e mais ampla. O que fez foi dar a essa exclusão uma notação: um modo de marcar, na forma visível de um texto, de que lado do muro estava quem o escrevia.
Quanto disso é fato de Heian e quanto é moderno
Aqui o registro precisa de cautela, porque a versão dessa história que a maioria dos leitores encontrou é em boa medida uma invenção moderna, e repeti-la sem crítica seria uma falha por si só.
O relato corrente diz: o kana era onnade, «mão de mulher», a escrita nativa feminina, oposta ao otokode, «mão de homem», masculina e estrangeira; as mulheres eram barradas do chinês; e a glória da literatura de Heian é a glória de uma feminilidade nativa reprimida encontrando sua voz. O estudo de Tomiko Yoda rastreia esse relato desde a filologia nativista do século XVIII até os departamentos de literatura nacional da universidade japonesa moderna, e mostra o quanto ele trabalha a serviço de um argumento do século XX sobre identidade nacional em vez de descrever a prática do século X.16 A afirmação de que as mulheres de Heian eram proibidas de saber chinês não resiste ao contato com os textos: o Livro do travesseiro de Sei Shōnagon exibe saber chinês o tempo todo e é recompensado por isso dentro do próprio livro, e os especialistas do período documentaram trato feminino com o chinês em quantidade suficiente para tornar insustentável uma proibição taxativa.17
A versão defensável é mais estreita e, se tanto, mais incômoda. A restrição não recaía sobre a competência; recaía sobre a exibição. Uma mulher podia ler chinês. Não podia ser vista lendo. O diário de Murasaki é prova exatamente dessa distinção — ela não descreve um muro que a mantivesse do lado de fora, descreve uma encenação que precisa sustentar — e é a encenação, não a proibição, que a escrita tornou legível.
Os homens, por sua vez, escreviam kana constantemente, de Tsurayuki a Michinaga, e os cacos da residência de Yoshimi mostram hiragana fluente dentro da casa de um ministro já nos anos 860. A ordem de duas escritas foi questão de gênero literário e de ocasião muito antes de ser questão de sexo.161
Uma fonologia que já não podia ser escrita
O segundo item é o colapso kō-otsu descrito acima, e deve ser enunciado sem melodrama nem desdém. Quem escrevia no século VIII distinguia duas séries em cerca de treze sílabas e anotava a distinção com constância; quem escrevia nos séculos IX e X já não o fazia, e os kana não oferecem meio algum de fazê-lo.27 A distinção estava desaparecendo da fala na mesma janela, de modo que a escrita não a matou. Mas o resultado é que o registro fonológico do japonês antigo só existe no sistema que os kana substituíram, e que um leitor japonês que hoje se aproxime do Man'yōshū lê uma língua cujo sistema sonoro sua própria escrita não sabe representar.
1900: o regulamento que matou as variantes
O último item não é obra da corte de Heian, e o registro deve dizê-lo com clareza. Mas pertence à mesma conta, porque o que ele destruiu era aquilo de que os kana tinham sido feitos.
Ao longo de toda a sua história, os kana foram plurais. Nunca houve um hiragana por mora. Quem escrevesse no século X, no XVI ou no XIX dispunha de várias formas aceitas para a maioria das sílabas, descendentes de caracteres de origem distintos, e escolhia entre elas pelo ritmo, pelo aspecto da linha, pela ligação com o grafo anterior e o seguinte. É dessa pluralidade que vem a beleza do Kokin wakashū Sekido-bon e do Sanjūrokunin kashū do Nishi Honganji.
O regulamento de aplicação da Terceira Ordenança da Escola Elementar, baixado pelo Ministério da Educação em 1900, fixou uma forma de hiragana por mora para o ensino primário.21 Todo o resto passou a ser hentaigana, «kana variante» — categoria que não precisou existir até o momento em que a norma existiu. As variantes não saíram de uso por decisão de quem escrevia. Saíram das escolas e, em uma geração, do público leitor, e o resultado prático é que a maioria dos japoneses alfabetizados de hoje não sabe ler um documento manuscrito anterior ao tempo de seus bisavós.322 Várias centenas de formas de letra com mil anos de uso contínuo foram retiradas da memória ativa de uma cultura por um único regulamento administrativo sobre a escola primária.
A conta
Posta de modo simples, a fatura da transmissão diz o seguinte:
- Zero mortos, zero conquista, zero extração. Os kana foram feitos por escribas que escreviam depressa. Ninguém foi deslocado, taxado ou morto por eles.
- Uma notação para uma exclusão já existente. A ordem de duas escritas deu à corte um modo visível de marcar de que posição se escrevia — documentado no disfarce de Tsurayuki em 935 e na autocensura de Murasaki por volta de 1008.
- Um registro fonológico tornado inescrevível. As distinções kō-otsu que o século VIII anotava não podem ser escritas na escrita que o sucedeu.
- Nove séculos de autoridade repartida. O direito, a doutrina, a história e a erudição permaneceram numa língua que ninguém falava até o movimento de vernacularização Meiji, com tudo o que isso implica sobre quem podia deles participar.
- A padronização de 1900, que encerrou mil anos de pluralidade gráfica e separou o leitor comum do passado manuscrito.
Do outro lado: um sistema de escrita em uso contínuo há mil e cem anos; o Kokin wakashū, o Tosa nikki, o Livro do travesseiro e o Conto de Genji; e a demonstração — rara o bastante para ser enunciada — de que uma cultura pode tomar uma escrita construída para uma língua em nada semelhante à sua e, sem projetista, sem decreto e sem plano, gastá-la até que lhe sirva.
Vale dizer com clareza por que o saldo fica onde fica. A maioria dos registros do atlas sobre sistemas de escrita envolve um doador e um receptor ligados por alguma relação política, e a conta costuma ser escrita no espaço entre eles. Aqui não existe esse espaço. A Tang não enviou os kana; a Tang não sabia que os kana existiam; quando o hiragana já era fluente, a Tang havia caído. O que o Japão fez com os caracteres chineses, fez a vários milhares de quilômetros e, depois de 894, sem canal diplomático. Não havia de quem extrair nem a quem resistir.
A consequência é que os custos deste registro são todos internos — coisas que a corte de Heian e seus sucessores fizeram a si mesmos, e na maior parte sem perceber. Isso os torna fáceis de subcontar, porque não há vítima com nome como a que uma conquista fornece. A resposta do atlas é contar o que pode ser datado: um disfarce em 935, uma mulher decidindo por volta de 1008 não traçar um único traço horizontal, uma distinção vocálica que deixa de ser escrevível entre o século VIII e o X, e um regulamento ministerial em 1900. Quatro itens datados, nenhum deles uma morte, e juntos eles enunciam com justiça o que custa uma escrita quando ela quase nada custa.
What followed
-
712O Kojiki é apresentado à corte em 712. Em seu prefácio, Ō no Yasumaro expõe o problema que os kana acabarão resolvendo: escrever japonês inteiramente com caracteres lidos pelo significado perde o som; escrevê-lo inteiramente com caracteres lidos pelo som torna o texto insuportavelmente longo. Ele transige, e diz isso.
-
759O Man'yōshū é compilado em etapas, e seu poema datável mais tardio é de 759. Cerca de novecentos e setenta caracteres chineses são ali empregados apenas pelo som, e as distinções vocálicas kō-otsu do japonês antigo são anotadas com constância pela última vez na história da língua.
-
813O Tōdaiji fujumonkō é redigido no Tōdaiji entre cerca de 796 e 830 — o mais antigo corpo substancial de glosas em katakana, com um esquema de pontos okototen que o liga à escola Hossō. O katakana começa como aparato para ler chinês em voz alta em japonês, não como escrita para escrever japonês.
-
894Sugawara no Michizane aconselha o imperador Uda a cancelar, em 894, a vigésima embaixada à Tang, alegando a desordem na China e o perigo da travessia. Nenhuma embaixada oficial volta a zarpar. A corte deixa de importar cultura continental com calendário de Estado e passa a metabolizar o que já possui.
-
860Cerâmica proveniente da residência quiotense do ministro Fujiwara no Yoshimi (813-867), escavada em novembro de 2011 e anunciada pelo Instituto Municipal de Pesquisa Arqueológica de Quioto em 28 de novembro de 2012, traz hiragana cursivo fluente com alusões literárias — recuando em cerca de cinquenta anos o kana cursivo maduro e situando-o dentro da casa de um ministro em exercício.
-
905O Kokin wakashū é apresentado ao imperador Daigo em 905, primeira antologia de poesia japonesa encomendada pela corte e primeiro documento oficial em kana. Traz dois prefácios: o de Ki no Tsurayuki em kana e o de Ki no Yoshimochi em chinês literário. É o chinês que torna o livro oficial.
-
935Ki no Tsurayuki escreve o Tosa nikki em 935, primeira prosa literária sustentada em kana — e o abre declarando que diários são escritos por homens e que ele tentará um como mulher. O texto fundador da prosa vernácula japonesa começa com um disfarce.
-
1008Entre cerca de 1000 e 1012, Murasaki Shikibu escreve o Conto de Genji, e por volta de 1008-1010 registra em seu diário que, depois de apelidada «Nossa Senhora das Crônicas» por seu saber chinês, deixou de escrever sequer o caractere 一 onde alguém pudesse ver.
-
1150O manuscrito Suzuka-bon do Konjaku monogatarishū, copiado no século XII e hoje na Universidade de Quioto, preserva mais de mil narrativas em escrita mista de caracteres e katakana — a forma que o japonês escrito moderno ainda assume e a ancestral daquela em que o Estado Meiji imprimiria suas leis.
-
1900O regulamento de aplicação da Terceira Ordenança da Escola Elementar, baixado pelo Ministério da Educação em 1900, fixa um hiragana por mora para o ensino primário. Várias centenas de formas variantes com mil anos de uso contínuo tornam-se hentaigana, saem das escolas e, em uma geração, da leitura comum — separando a maioria dos leitores japoneses do passado manuscrito.
Where this lives today
References
- Lurie, David B. Realms of Literacy: Early Japan and the History of Writing. Cambridge, MA: Harvard University Asia Center, 2011. en
- Frellesvig, Bjarke. A History of the Japanese Language. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. en
- Seeley, Christopher. A History of Writing in Japan. Brill's Japanese Studies Library 3. Leiden: E. J. Brill, 1991; reprinted Honolulu: University of Hawai'i Press, 2000. en
- 万葉集 (Man'yōshū), compiled in stages, no poem datable after 759. Genryaku kōhon manuscript, 11th century, Tokyo National Museum. ja primary
- 古事記 (Kojiki), presented to the court in 712, with the preface of Ō no Yasumaro. ja primary
- 犬飼隆 (Inukai Takashi). 『上代文字言語の研究』. 東京: 笠間書院, 1992; 増補版 2005. ja
- Miyake, Marc Hideo. Old Japanese: A Phonetic Reconstruction. London: RoutledgeCurzon, 2003. en
- 東大寺諷誦文稿 (Tōdaiji fujumonkō), composed c. 796–830. Tōdaiji, Nara. ja primary
- Alberizzi, Valerio Luigi. “An Introduction to Kunten Glossed Texts and Their Study in Japan.” Dossiers d'HEL 7 (2014): 21–30. Société d'Histoire et d'Épistémologie des Sciences du Langage. en
- Whitman, John. “The Ubiquity of the Gloss.” Scripta 3 (2011): 95–121. en
- 築島裕 (Tsukishima Hiroshi). 『平安時代の漢文訓読語につきての研究』. 東京: 東京大学出版会, 1963. ja
- 京都市埋蔵文化財研究所 (Kyoto City Archaeological Research Institute), announcement of 28 November 2012 on ninth-century hiragana-inscribed earthenware excavated in November 2011 from the Fujiwara no Yoshimi residence site, Nakagyō-ku, Kyoto. Comment by Nishiyama Ryōhei, Kyoto University. ja primary
- 古今和歌集 (Kokin wakashū), presented 905, with the kana preface of Ki no Tsurayuki and the mana preface of Ki no Yoshimochi. Translated by Laurel Rasplica Rodd with Mary Catherine Henkenius as Kokinshū: A Collection of Poems Ancient and Modern. Princeton: Princeton University Press, 1984. ja primary
- 紀貫之 (Ki no Tsurayuki). 土佐日記 (Tosa nikki), 935. Textual witnesses include Fujiwara no Teika's 13th-century copy and Fujiwara no Tameie's copy of 1236. ja primary
- 紫式部 (Murasaki Shikibu). 紫式部日記 (Murasaki Shikibu nikki), c. 1008–1010. Translated by Richard Bowring as Murasaki Shikibu: Her Diary and Poetic Memoirs. Princeton: Princeton University Press, 1982. ja primary
- Yoda, Tomiko. Gender and National Literature: Heian Texts in the Constructions of Japanese Modernity. Durham, NC: Duke University Press, 2004. en
- Mostow, Joshua S. “Mother Tongue and Father Script: The Relationship of Sei Shōnagon and Murasaki Shikibu to Their Fathers and Chinese Letters.” In The Father-Daughter Plot: Japanese Literary Women and the Law of the Father, edited by Rebecca L. Copeland and Esperanza Ramirez-Christensen. Honolulu: University of Hawai'i Press, 2001. en
- Kornicki, Peter Francis. Languages, Scripts, and Chinese Texts in East Asia. Oxford: Oxford University Press, 2018. en
- 小松英雄 (Komatsu Hideo). 『日本語書記史原論』. 東京: 笠間書院, 1998; 補訂版 2000. ja
- 今昔物語集 (Konjaku monogatarishū), Suzuka-bon manuscript, 12th century. Kyoto University Library. Facsimile in 『日本古典文学大系』 vol. 25. 東京: 岩波書店, 1962. ja primary
- 小学校令施行規則 (Enforcement regulations for the Third Elementary School Order), Ministry of Education, 1900, fixing one hiragana form per mora for elementary instruction. ja primary
- Kornicki, Peter F. The Book in Japan: A Cultural History from the Beginnings to the Nineteenth Century. Handbook of Oriental Studies. Leiden: Brill, 1998. en
- Shirane, Haruo, Tomi Suzuki, and David Lurie, eds. The Cambridge History of Japanese Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2016. en
- 孔雀経音義 (Kujakukyō ongi), phonetic commentary on the Mahāmāyūrī sutra, c. 1004–1028 — the earliest surviving syllabary table in gojūon order. ja primary
- 金光明最勝王経音義 (Konkōmyō saishōōkyō ongi), 1079 — the first appearance of the iroha pangram, written in man'yōgana in seven lines. ja primary