O que os otomanos deram aos Bálcãs, e o que levaram (1385-1648)
O século XIX chamou aquilo de jugo turco e o século XX de ordem plural e tolerante; o arquivo otomano sustenta pedaços de ambos os relatos e nenhum deles por inteiro. Entre 1385 e 1648 o Estado otomano impôs ao camponês balcânico uma carga fiscal mais leve e muito mais previsível do que a do seu senhor sérvio ou bizantino, deu uma cidade aos refugiados sefarditas e fez da confissão a categoria mestra da personalidade jurídica durante quatrocentos anos. Pagou essa ordem com crianças, recolhidas por registro nas aldeias cristãs, convertidas, rebatizadas e jamais devolvidas.
Em 28 de fevereiro de 1395, em Tessalônica, o metropolita Isidoro Glabás pregou diante de uma congregação a quem acabavam de tomar os filhos e perguntou o que sofre um homem que vê o filho “levado pelas mãos de estrangeiros, de súbito e à força”. É o mais antigo testemunho cristão datável do devşirme, a leva de meninos cristãos que forneceu ao Império Otomano a sua infantaria e, por século e meio, a maioria dos seus grão-vizires. Este é o registro de toda a ordem a que essa leva pertencia: um regime de conquista que cadastrou cada aldeia tomada, pôs teto ao que o camponês devia, deu-lhe um juiz que não era o seu senhor, protegeu os judeus que a Europa cristã expulsava — e retirou dos Bálcãs cerca de duzentos mil filhos ao longo de dois séculos e meio, sem devolver um único.
Antes: uma península de Estados em desmoronamento
Quando Stefan Dušan morreu em 20 de dezembro de 1355, aos quarenta e sete anos, havia nove anos que se intitulava imperador dos sérvios e dos gregos, e o seu Estado ia do Danúbio ao golfo de Corinto. Vinte anos depois havia deixado de existir. O filho Uroš ficou com o título e nada mais; os grandes senhores repartiram o império e brigaram entre si pelos pedaços — os irmãos Mrnjavčević na Macedônia, os Balšić na Zeta, Lazar Hrebeljanović no vale do Morava 22. O Império Búlgaro se cindira na mesma década em Tarnovo sob Ivan Šišman, Vidin sob Ivan Sracimir e o despotado da Dobruja, no mar Negro. Bizâncio era uma capital, uma faixa da Trácia, um despotado na Moreia e algumas ilhas; desde o acordo de João V em 1373 pagava tributo ao sultão otomano e lhe mandava tropas 25. No Adriático os venezianos detinham os portos. Na Bósnia, Tvrtko I coroou-se rei em 1377 sobre um reino cuja Igreja Roma tinha por herética e Constantinopla não levava em conta de modo algum.
Foi isso que o avanço otomano encontrou nas décadas de 1370 e 1380: nem uma civilização nem uma nação, mas uma zona de entidades sucessoras que haviam passado duas gerações destruindo umas às outras, onde as unidades de lealdade eram um senhor, um vale e uma igreja, e onde ninguém vivo tinha qualquer uso para a palavra “Bálcãs” — termo que só adquiriria o sentido atual no século XIX, e o adquiriria como insulto 21.
O que um camponês realmente devia
O camponês balcânico anterior à conquista não era livre, e as obrigações que carregava não estavam escritas em lugar algum que ele pudesse consultar. Na Sérvia, o código de Dušan de 1349 e 1354 prendia o meropah — o cultivador dependente — à sua terra, fixava dois dias semanais de trabalho para o senhor mais um dia de ceifa e um de vinha, e dispunha que o camponês fugido fosse perseguido, devolvido e tivesse as orelhas rasgadas e o rosto marcado a ferro 22. Na Macedônia bizantina o pároico detinha a sua parcela de um mosteiro ou de um titular de pronoia, e as cartas do monte Atos registram os seus encargos numa linguagem consuetudinária elástica exatamente na direção que convinha ao titular. As obrigações eram hereditárias, sem teto, e quem as fazia cumprir era o próprio homem que as cobrava.
Acima disso estendia-se uma aristocracia guerreira cujas pretensões sobre a terra estavam se tornando permanentes. A baština sérvia era propriedade hereditária; a pronoia bizantina, na origem uma concessão vitalícia e revogável de rendas, fora tornada hereditária no século XIV, ou seja, o governo imperial perdera a capacidade de retomá-la 1. A consequência estrutural é a que importa aqui: por volta de 1370 os Estados da península balcânica já não podiam contar o que possuíam, nem reaver o que haviam concedido, nem levantar exércitos senão pedindo-os a senhores que eram agora proprietários e não oficiais.
Cidades, igrejas e os judeus que já estavam ali
As cidades balcânicas do século XIV eram pequenas, muradas e comercialmente dependentes de gente de fora: mercadores ragusanos nas vilas mineiras sérvias, venezianos e genoveses nos portos, mineiros saxões em Novo Brdo e Srebrenica, de onde vinha a prata. Tessalônica, segunda cidade do mundo bizantino, tinha talvez de 25.000 a 40.000 habitantes e vivera de 1342 a 1350 sob a comuna dos zelotas, uma revolta dos pobres urbanos que expulsou a aristocracia e foi sufocada com mortes.
As comunidades judaicas eram antigas e de língua grega: as congregações romaniotas de Tessalônica, Ioánina, Ohrid, Kastoriá e da própria Constantinopla, cuja liturgia era bizantina, cujo vernáculo era grego escrito em caracteres hebraicos e cuja posição jurídica sob domínio cristão vinha se estreitando havia um século. O direito bizantino lhes vedava o cargo público e a posse de escravos cristãos, o que numa economia agrária escravista equivalia a lhes vedar a agricultura; os bairros venezianos e genoveses impunham as suas próprias restrições; e as obrigações de distintivo do quarto concílio de Latrão haviam sido importadas para as partes da península sob domínio latino. É a população que mais frequentemente falta no retrato daquilo a que os otomanos chegaram, e é a população cuja situação mudou de forma mais nítida e mais mensurável.
O ponto deste trecho não é que os Bálcãs pré-otomanos fossem miseráveis. É que estavam sem administração. Ninguém em 1370 saberia dizer quantos domicílios havia entre o Danúbio e o Egeu, o que produziam ou o que deviam — e todos os que tinham alguma pretensão sobre eles a iam inventando no caminho.
A transmissão: como uma razia virou um registro
Os otomanos entraram na Europa como auxiliares. Süleyman, filho de Orhan, tomou Galípoli em 1354 depois que um terremoto derrubou as suas muralhas, e os senhores de fronteira que o seguiram eram saqueadores que operavam por butim e escravos, não administradores. O que transformou a razia em Estado se deu ao longo dos sessenta anos seguintes, e se deu na Trácia: Edirne caiu por volta de 1369 e foi capital otomana por oitenta e quatro anos, os senhores sérvios foram quebrados no Maritsa, perto de Chernomen, em 26 de setembro de 1371, Sófia caiu em 1385, a coalizão sérvia foi destruída e tanto o sultão Murade I quanto o príncipe Lazar morreram em Kosovo Polje em 15 de junho de 1389, e Tarnovo, a capital búlgara, foi tomada de assalto em julho de 1393 22.
Atrás da razia veio a papelada. É essa a transmissão.
O tahrir: governar por cadastro
O instrumento foi o tahrir defteri, o registro cadastral. Funcionários otomanos entravam num distrito recém-conquistado, percorriam-no e anotavam cada aldeia, cada chefe de domicílio pelo nome, cada homem adulto solteiro, cada viúva, cada moinho, cada vinha, cada obrigação por domicílio e a renda anual estimada de cada um — e depois destinavam essa renda, em montantes precisos, a indivíduos nomeados 1. Os cadastros eram refeitos a cada vinte ou trinta anos. Sobrevivem aos milhares em Istambul.
A destinação da renda era o timar: um cavaleiro recebia o produto fiscal de uma aldeia ou de parte dela em troca de comparecer em campanha com um número determinado de homens armados. Não era dono da terra. Não podia vendê-la, nem legá-la, nem subdividi-la. A posse do camponês — o çift, em princípio a área que uma junta de bois podia lavrar — era dele para cultivar e transmitir ao filho enquanto a cultivasse, e o sipahi não podia despejá-lo dela. Halil İnalcık chamou esse arranjo de sistema çift-hane e sustentou que não era invenção otomana, mas uma síntese: categorias fiscais bizantinas, prática seljúcida e direito agrário islâmico reunidos numa única unidade de conta na qual “a exploração familiar camponesa” era o objeto que o Estado tributava e, portanto, o objeto que o Estado protegia 12.
O que o camponês pagava, e o que aquilo substituía
O arranjo fiscal otomano na Rumélia tinha esta feição:
| Encargo | Quem pagava | Base | O que deslocou |
|---|---|---|---|
| cizye / haraç | homens adultos não muçulmanos | capitação, graduada em três faixas conforme a riqueza | nada — era novo, e comprava a isenção do serviço militar |
| ispençe | chefes de domicílio não muçulmanos | 20 a 25 akçes por ano no século XV, em lugar da prestação de trabalho | o zeugaratikion bizantino; os dois dias semanais do código de Dušan |
| resm-i çift | chefes de domicílio muçulmanos | 22 akçes por ano, o equivalente muçulmano do ispençe | — |
| öşür | todos os cultivadores | dízimo sobre a colheita, convencionalmente de um oitavo a um décimo, localmente até um quarto | a parte do senhor, até então sem teto |
| avarız | todos os domicílios | leva extraordinária de guerra, ocasional antes de 1600, anual depois | — |
A comparação com o que veio antes é o fato mais incômodo deste dossiê e precisa ser enunciada em toda a sua força. Uma capitação registrada e uma comutação em dinheiro da prestação de trabalho, assentadas num cadastro que se podia mostrar a um juiz e impostas por um cavaleiro que detinha a sua renda à vontade do sultão, constituíam uma carga mais leve e imensamente mais previsível do que as exigências sem limite de um proprietário sérvio ou bizantino que não prestava contas a ninguém 2. Os camponeses da Rumélia do século XV tinham acesso a um tribunal de cádi que não era o tribunal do seu senhor, e os registros de queixas preservados mostram que o usavam. Isso não é uma desculpa para a conquista otomana. É a razão pela qual a conquista otomana pegou.
A previsibilidade teve prazo de validade, e convém nomear o mecanismo que lhe pôs fim. O sistema fiscal otomano era denominado em akçes, moeda de prata miúda cujo peso o tesouro controlava; a história monetária de Şevket Pamuk rastreia as suas desvalorizações, a mais brusca das quais veio em 1585-1586, quando o teor de prata foi cortado em cerca de quarenta e quatro por cento de uma só vez 24. Encargos fixos em dinheiro, como o ispençe, perderam valor; o Estado respondeu tornando anual a leva de guerra avarız e arrendando os impostos a contratantes que compravam o direito de arrecadar e lucravam com tudo o que conseguissem extrair além disso. Em meados do século XVII o arrendatário de rendas havia substituído o timar cadastrado em boa parte da Rumélia, e a carga do camponês já não tinha teto algum que se pudesse apresentar a um tribunal. O campo balcânico que se levantou nos séculos XVIII e XIX levantava-se contra aquele sistema, não contra o descrito acima — distinção que as histórias nacionais têm todos os motivos para borrar.
Os sipahis cristãos da Albânia, 1431
O Estado otomano tampouco desapossou de imediato a classe que derrotara. O registro cadastral do sanjaco de Arvanid — a Albânia —, levantado em 835 da hégira (1431-1432) e publicado por İnalcık em 1954, enumera pelo nome os detentores de timar da província 11. Uma parcela considerável deles é cristã: homens chamados Yorgi, Dimitri e Pavlo detendo destinações de renda exatamente nas mesmas condições que os seus colegas muçulmanos, vários deles filhos de senhores cujos pais haviam combatido os otomanos uma geração antes. O rebelde albanês Skanderbeg — Gjergj Kastrioti — era ele próprio filho de um vassalo otomano com timar, criado na corte otomana, que desertou em 1443 e sustentou Krujë contra dois sultões por vinte e cinco anos.
Heath Lowry construiu a versão mais sólida do argumento que essa evidência sustenta: a entidade otomana inicial se expandiu menos por extermínio do que por istimâlet — a acomodação, a compra deliberada das elites locais com um lugar na ordem nova 19. O argumento acerta quanto ao mecanismo e é regularmente exagerado quanto à experiência vivida. A acomodação é o que o registro consigna porque o registro consigna os acomodados. Os homens que recusaram estão num outro tipo de documento.
O devşirme: o Estado leva crianças
O segundo mecanismo não tem precedente na região nem paralelo simples em parte alguma.
De poucos em poucos anos — o intervalo era irregular, às vezes três anos, às vezes sete — o governo otomano mandava um oficial munido de mandado às aldeias cristãs da Rumélia e, mais tarde, da Anatólia, acompanhado de um escrivão e de um cádi local que servia de testemunha. O padre da aldeia apresentava o registro batismal. Os meninos eram enfileirados. O oficial escolhia, em princípio um para cada quarenta domicílios, e lançava cada escolhido em duas vias de um registro: nome, nome do pai, aldeia, idade, estatura, tez, sinais particulares, de modo que não pudesse ser substituído no caminho 8. Os escolhidos seguiam em comboios para Edirne ou Istambul, eram circuncidados, convertidos, dotados de nomes muçulmanos e distribuídos.
O termo otomano é devşirme, de devşirmek, “recolher, reunir”. A expressão “imposto de sangue” — kan vergisi — não é um termo otomano e aparece nas historiografias nacionais balcânicas dos séculos XIX e XX mais do que nas fontes do XV; vale a pena usar a palavra otomana precisamente porque o eufemismo e o contraeufemismo cumprem ambos uma função 4.

A monografia de Basilike Papoulia de 1963, ainda o tratamento mais completo da origem e do caráter jurídico da instituição, opunha-se à justificativa que os próprios juristas otomanos davam — a de que a leva era uma extensão lícita do pençik, o quinto sultânico sobre os cativos de guerra — alegando que os meninos não eram cativos de guerra, e sim filhos de súditos protegidos, cuja condição no direito islâmico consistia precisamente em que não podiam ser escravizados 4. A instituição era, na leitura dela, uma irregularidade jurídica prolongada que a própria jurisprudência do império nunca absorveu com conforto. Vasilis Demetriades, trabalhando pelo lado otomano, sustentou que a leva nasceu antes da prática de fronteira nas marcas trácias e só depois ganhou a roupagem legal 7. O debate segue vivo e este dossiê não fingirá o contrário; aquilo em que os dois lados concordam é que a prática já existia na década de 1390.
Em que se convertia um menino recolhido
Os meninos eram triados. A grande maioria — os acemi oğlan, os “meninos estrangeiros” — era colocada por alguns anos com famílias camponesas turcas da Anatólia para aprender a língua e a religião, depois inscrita no corpo de noviços e em seguida na infantaria janízara: um exército profissional permanente, assalariado, aquartelado e celibatário, numa época em que nenhum Estado europeu dispunha de coisa semelhante. Os registros de soldo dos janízaros do século XVII, guardados no arquivo do Topkapı, enumeram-nos por soldo, companhia e nome.

Uma minoria — os mais capazes, os de melhor aparência, aqueles que o oficial triador marcava — entrava, em vez disso, nas escolas de palácio de Galatasaray, de Edirne e do próprio Topkapı, onde lhes ensinavam turco otomano, árabe, persa, caligrafia, equitação, tiro com arco e uma arte ou ofício, e de onde saíam para o serviço doméstico e provincial do sultão. Eram kul: escravos do sultão em direito, sem propriedade hereditária nem linhagem reconhecida, inteiramente dependentes do seu favor e inteiramente descartáveis por ele 20. Também dirigiam o império.
| Grão-vizir | Origem | Recolhido | Cargo | Fim |
|---|---|---|---|---|
| Mahmud Paxá Angelović | família nobre bizantino-sérvia, região de Novo Brdo | c. 1427 | 1456-1466, 1472-1474 | executado em 1474 |
| Rüstem Paxá | croata ou bósnio, região de Skradin | c. 1510 | 1544-1553, 1555-1561 | morreu no cargo em 1561 |
| Sokollu Mehmed Paxá | Sokolovići, perto de Rudo, Bósnia | c. 1516 | 1565-1579 | assassinado em 11 de outubro de 1579 |
| Koca Sinan Paxá | albanês, Topojan | c. 1520 | cinco mandatos, 1580-1596 | morreu no cargo em 1596 |
Sokollu Mehmed Paxá é o caso que contém o argumento inteiro. Arrancado ainda menino de uma aldeia bósnia, educado no palácio, casado com uma neta de sultão, grão-vizir por catorze anos e governante efetivo do império na maior parte deles, usou a sua posição em 1557 para obter um decreto que restaurava o patriarcado sérvio autocéfalo de Peć, abolido em 1463, e ali instalou o seu próprio parente Makarije como primeiro patriarca 2223. Um menino arrancado à força de uma aldeia ortodoxa cresceu para refundar, por fiat imperial, a Igreja ortodoxa do país de onde o haviam levado. Foi apunhalado até a morte no seu próprio palácio em outubro de 1579.
O que mudou, e o que foi substituído
A confissão torna-se personalidade jurídica
Em 6 de janeiro de 1454, cinco meses depois de os seus soldados tomarem Constantinopla, Meemede II entronizou o monge Genádio Escolário como patriarca ecumênico e lhe entregou um berat — patente escrita de ofício — que definia os seus direitos e deveres 13. Genádio era uma escolha pouco promissora para um sultão que buscasse acomodação com o Ocidente e muito arguta para um sultão que não a buscava: dirigia o partido antiunionista e era o eclesiástico que com mais ferocidade se opusera à união com Roma acertada em Florença em 1439.
O que o berat fez foi transformar um bispo em funcionário. O patriarca passou a responder pelos impostos da população ortodoxa, pela sua disciplina interna, pelo seu direito matrimonial e sucessório e pelo seu bom comportamento, e passou a ser removível pelo sultão caso falhasse em qualquer desses pontos. Pagou pela nomeação. Os seus sucessores pagaram mais: o peşkeş, pagamento de acesso ao tesouro imperial, tornou-se encargo permanente que o patriarcado financiava vendendo bispados, e a cadeira mudou de mãos numa frequência que nada tinha a ver com teologia — entre a entronização de Genádio em 1454 e 1662 a cadeira trocou de titular umas sessenta vezes, e só Cirilo Lucaris a ocupou em seis ocasiões distintas, deposto e reposto conforme o dinheiro se movia 13.
Algo semelhante, de modo menos arrumado, sucedeu às demais comunidades confessionais. A palavra que depois se grudou ao arranjo é millet, e aqui é preciso cautela, porque o asseado diagrama administrativo da maioria dos manuais — três ou quatro nações com carta, cada uma com um chefe, cada uma com autonomia definida, estabelecidas por Meemede II em 1453 — não é o que as fontes do século XV mostram. O ensaio de Benjamin Braude de 1982, a peça de pesquisa mais consequente que existe sobre o assunto, demonstrou que as cartas não existem, que a palavra millet não é usada nesse sentido em documentos otomanos senão muito mais tarde, e que o sistema asseado é uma construção do século XIX projetada para trás sobre a conquista 3. A conclusão de Braude é seca: o que os otomanos ergueram no século XV foi “uma série de arranjos ad hoc”, improvisados localmente e de maneira distinta para cada comunidade, e codificados em sistema apenas a partir das reformas da década de 1830.
Isso importa editorialmente, não por pedantismo. Os arranjos ad hoc fizeram quase tudo o que se credita ao sistema mítico. Simplesmente não eram um projeto, e ninguém em 1454 administrava uma política de tolerância. Administrava-se uma base tributável.
Salônica, e a cidade que as expulsões construíram
A demonstração mais clara do que aquele arranjo tornou possível cabe numa cidade.
Tessalônica caiu diante de Murade II em 29 de março de 1430, depois que os venezianos que a haviam comprado ao seu déspota bizantino não conseguiram sustentá-la; a cidade foi saqueada e boa parte da sua população escravizada 14. Foi uma vila diminuída por sessenta anos. Então, em 1492, Fernando e Isabel expulsaram os judeus de Castela e Aragão, e o governo de Bayezid II os deixou entrar — não por sentimento, mas por política, porque o império queria artesãos urbanos, capital e o comércio têxtil ibérico, e porque uma população que não tem para onde ir é uma população confiável. Os refugiados sefarditas foram para Istambul, Edirne, Sarajevo, Safed e sobretudo para Salônica.
Segundo o registro fiscal otomano de 1519, a cidade abrigava cerca de 3.143 domicílios judaicos e uns 930 homens judeus solteiros — uma população judaica de aproximadamente 15.700 pessoas, mais da metade do total urbano 14. Salônica tornou-se, e assim permaneceu por quatro séculos, a única cidade de algum porte na Europa com maioria judaica. As suas congregações levavam o nome dos lugares de onde haviam fugido — Catalan, Aragón, Castilla, Mallorca, Lisboa, Sicilia, Provincia — e conservaram esses nomes por quatrocentos anos. A sua gente falava judeu-espanhol. Os seus prelos imprimiam livros hebraicos desde 1512. O seu pano de lã vestia o corpo dos janízaros, e a comunidade quitava parte da sua obrigação fiscal em peças desse tecido.

O relato que Mark Mazower fez da cidade coloca a questão sem abrandar nenhuma das duas pontas: o Estado otomano ofereceu a essas comunidades não igualdade, mas um lugar, e o lugar era real, duradouro e preferível à alternativa que a Europa cristã oferecia, que era a fogueira.
A conversão: a aritmética da capitação
O islã se difundiu pelos Bálcãs de modo desigual, lento e por linhas que não foram primordialmente militares. Não houve conversão forçada geral; houve um incentivo financeiro permanente, uma escada de carreira fechada e séculos de tempo.
O incentivo era a cizye, que o convertido deixava de pagar. Como a capitação era fixada por faixas mas pesava muito mais sobre a renda de um domicílio pobre do que sobre a de um rico, o incentivo era mais forte exatamente onde menos se tinha. Leonard Kukić e Yasin Arslantaş testaram isso em 2026 contra os registros fiscais otomanos da Bósnia, aldeia por aldeia, de 1468 e 1604 — os dois cadastros que emolduram a conversão da província — e constataram que as localidades com menor renda por domicílio haviam se convertido em proporção significativamente maior 17. A Bósnia, de solos magros e rendimentos pobres, converteu-se mais a fundo do que qualquer outro lugar da Europa otomana; a Albânia veio em seguida; as planícies férteis da Bulgária e da Sérvia, em geral, não.
A conversão foi também um processo narrado, negociado e disputado, e não um interruptor. O estudo de Tijana Krstić sobre os relatos de conversão do início da era moderna mostra convertidos produzindo versões da própria mudança que discutiam com a polêmica cristã, bebiam de idiomas sufis e messiânicos e eram moldadas pelo próprio projeto otomano do século XVI de definir a ortodoxia sunita contra os safávidas 15. O trabalho de Anton Minkov sobre as petições kisve bahası — os requerimentos que os convertidos apresentavam para obter um auxílio em dinheiro e um traje, dos quais sobrevivem milhares de 1670-1730 — mostra a sua textura material: quem se convertia, com que idade, a partir de que ofício e com que expectativa em relação ao Estado 16.
O que foi deslocado
O arranjo otomano suprimiu ou esvaziou um conjunto de instituições, e convém enumerá-las em vez de aludir a elas:
- As monarquias balcânicas independentes. O despotado sérvio extinguiu-se em 1459; o reino da Bósnia, em 1463, com a execução do rei Stefan Tomašević em Jajce; Bizâncio, em 1453, e a Moreia em 1460; a resistência albanesa, com a queda de Shkodër em 1479.
- A nobreza autóctone, enquanto classe. Os que aceitaram timares foram absorvidos e, ao longo de duas ou três gerações, convertidos; os que não, foram desapossados ou mortos. Por volta de 1550 não havia aristocracia cristã na Europa otomana.
- As Igrejas autocéfalas. O patriarcado búlgaro de Tarnovo foi suprimido depois de 1393 e o seu território posto sob Constantinopla; o patriarcado sérvio de Peć foi abolido em 1463, restaurado em 1557 por intermédio de Sokollu Mehmed Paxá e abolido de novo em 1766. A helenização eclesiástica das Igrejas eslavas é um processo real e documentado, e foi conduzida pela hierarquia grega sob licença otomana, razão pela qual o nacionalismo búlgaro do século XIX combateu o patriarcado antes de combater o sultão.
- O comércio latino urbano. As colônias mercantis ragusanas e venezianas sobreviveram, mas sob capitulação, em condições fixadas noutro lugar.
- Os vernáculos escritos das chancelarias eslavas, que perderam as suas cortes e se retraíram ao uso monástico e litúrgico.
O que custou, e quem pagou
Os três registros
Este assunto é disputado por cinco historiografias nacionais e cada número nele carrega uma bandeira. A disciplina aqui aplicada é a mesma que se aplicou à conquista mongol do Irã: manter visivelmente separados três registros de prova.
- Documental. Contagens extraídas de registros otomanos: 2.604 meninos recolhidos em todo o império em 1603-1604; 530 deles da região de Bursa em seis meses; uma idade média de 16,5 anos naquela leva, com 42 por cento de dezoito anos ou mais 9. 3.143 domicílios judaicos em Salônica em 1519 14. São contagens administrativas e valem o que valia a administração que as fez, que era muito.
- Estimativa. O total frequentemente citado de cerca de 200.000 meninos ao longo da vida da instituição é uma extrapolação a partir de intervalos e proporções, não uma contagem, e números de até 300.000 circulam sobre a mesma base. Deve sempre ser enunciado como aquilo que é.
- Retórica. Os números de vítimas e raptos das literaturas nacionais dos séculos XIX e XX — os que tornam a leva anual, universal e total — são reivindicações políticas; e é igualmente, em sentido inverso, a apologética do século XX que apresenta a leva como uma oportunidade pela qual as famílias competiam.
A própria conquista
A conquista otomana dos Bálcãs matou gente, escravizou gente e destruiu cidades, e o relato administrativo não cancela isso. Tessalônica foi saqueada em 1430. Constantinopla o foi por três dias a partir de 29 de maio de 1453, e boa parte da população sobrevivente foi escravizada. Novo Brdo, a grande vila da prata sérvia, rendeu-se em junho de 1455, e o que ali aconteceu é descrito por um homem que estava dentro:
“Empurraram-nos a todos para fora, para um campo, e, tendo separado as mulheres para um lado e os homens para o outro, tomaram 320 meninos e 700 mulheres, e ao resto deixaram voltar para a cidade.” — Konstantin Mihailović, levado de Novo Brdo com cerca de vinte anos e inscrito como janízaro, escrevendo uns quarenta anos depois 12.
Mihailović serviu nas campanhas do sultão de 1456 a 1463, foi feito prisioneiro na Bósnia e acabou na Polônia escrevendo, num vernáculo eslavo, o mais antigo testemunho interno sobre o corpo dos janízaros feito por um dos seus. É a testemunha mais valiosa deste dossiê precisamente porque não é nem uma vítima que depõe nem um apologista: descreve o corpo com admiração profissional e descreve o próprio rapto sem uma única palavra de gratidão.
As crianças
Este é o centro do custo, e a formulação contemporânea mais completa é um sermão.
Em 28 de fevereiro de 1395 — domingo do Filho Pródigo — Isidoro Glabás, metropolita de Tessalônica, pregou diante de uma congregação a quem acabavam de levar crianças. A sua homilia é o mais antigo testemunho cristão datável da leva e o documento que recuou o início estabelecido da instituição de 1438 para a década de 1390 56. Speros Vryonis, que a identificou e traduziu em 1956, observou que “o sermão de Glabás recua assim a data de instituição do devşirme de 1438 para pelo menos o ano de 1395” 5.
Isidoro não discute direito. Discute um pai:
“Que não sofreria um homem se visse um filho, que gerou e criou […] levado pelas mãos de estrangeiros, de súbito e à força, e forçado a passar-se a costumes alheios e a tornar-se vaso de trajo bárbaro, de fala, de impiedade e de outras contaminações, tudo num instante?” 6
E vem depois a imagem que faz a homilia merecer ser citada seiscentos anos mais tarde — o pai como um corpo cortado em dois, uma parte levada, a outra ainda de pé na igreja:
“se um homem se encontrasse como que cortado em duas partes; e se visse a secção desmembrada do seu corpo, o seu filho, tornada substância de baixeza e não empregada para nenhum bom fim; e visse a secção restante, isto é, ele próprio, não apenas inútil mas morta e cheia de lamento e de agonia? […] Chorará por si mesmo por ter sido privado do bordão da sua velhice? Porque a luz dos seus olhos pereceu?” 6
A instituição que ele descrevia funcionou por cerca de dois séculos e meio depois daquele sermão. As levas se espaçaram a partir da década de 1590, à medida que o recrutamento janízaro se abria a voluntários muçulmanos e o corpo se tornava hereditário na prática; as últimas levas regulares de vulto pertencem às décadas de 1630 e 1640, com casos isolados até o século XVIII.
A contabilidade honesta desse custo precisa incluir quatro coisas que as polêmicas dos dois lados deixam de fora.
- As isenções eram reais e estão documentadas. Filhos únicos, meninos casados, meninos de Istambul, aprendizes de artesão em certos períodos, judeus, armênios em certos períodos e — com uma exceção permanente — muçulmanos não estavam sujeitos. As isenções significam que a leva não era um terror universal; significam também que ela recaía com mais dureza sobre as aldeias com menos capacidade de resistir.
- A exceção era a Bósnia. Meninos muçulmanos da Bósnia, registrados em documentos otomanos como Poturoğulları, eram recolhidos — único caso em que muçulmanos foram tomados — com base no que o próprio código do corpo janízaro enunciava no século XVII: que os bósnios se haviam convertido em massa na conquista e haviam pedido a Meemede II para serem incluídos 10. O reexame desse texto por Aşkın Koyuncu trata a história do requerimento com a desconfiança devida e ao mesmo tempo confirma a prática. Qualquer que seja a sua origem, é prova de que no século XVI a leva se tornara, para algumas famílias, uma carreira e não uma catástrofe.
- As levas anatólias. O registro estudado por Gülay Yılmaz mostra que 530 dos 2.604 meninos tomados em 1603-1604 vinham da região de Bursa 9. O devşirme nunca foi exclusivamente balcânico, e a versão de “somente meninos balcânicos” é falsa.
- Eles não voltavam. À margem das carreiras individuais, a leva era uma subtração permanente. O menino era convertido, rebatizado e legalmente propriedade do sultão. Sokollu Mehmed Paxá, no auge do seu poder, pôde restaurar um patriarcado para o país de onde vinha; não pôde voltar a ele.
Sürgün
Ao lado da leva corria uma segunda forma de deslocamento forçado, menos espetacular e muito mais ampla: o sürgün, a transferência compulsória como instrumento de governo. Os estudos de Ömer Lütfi Barkan das décadas de 1940 e 1950 o estabeleceram como técnica administrativa rotineira e não como episódio — populações deslocadas para povoar distritos de fronteira esvaziados, para quebrar o poder local de uma elite conquistada ou para encher uma cidade 18. Depois de 1453 Meemede II repovoou Constantinopla por ordem, transferindo domicílios muçulmanos, cristãos e judaicos de todo o império para uma capital que a sua própria conquista havia esvaziado, com cotas atribuídas aos governadores provinciais 1.
O sürgün não era um massacre e não deve ser narrado como tal. Era a relocação obrigatória de domicílios por ordem administrativa, aplicada durante séculos, e é o tipo de custo que não deixa mártires e por isso não deixa memória.
Voltar atrás era crime capital
A saída era juridicamente de mão única. A conversão ao islã era irreversível: a apostasia do islã era punida com a morte, e a pena era aplicada. As Igrejas ortodoxas acumularam, do século XV ao XIX, um corpus de neomártires — homens e mulheres executados por voltarem ao cristianismo ou por renegarem publicamente um islã adotado sob pressão, em criança ou em estado de embriaguez. O monge atonita Nicodemo reuniu as suas vidas no Novo Martirológio em 1799, no momento exato em que o movimento nacional grego se formava e tinha uso para elas.
O corpus neomartirial é hagiografia e deve ser lido como tal: foi composto para edificar, os seus números são inverificáveis, e os monges colivadas do século XVIII que o reuniram travavam uma campanha deliberada para endurecer uma população que julgavam à deriva. Várias dessas vidas descrevem homens convertidos em criança pela leva, ou em adulto sob pressão, que foram buscar a execução renegando publicamente o islã numa praça de mercado — forma de testemunho que as autoridades otomanas costumavam tentar não fornecer, oferecendo ao acusado repetidas chances de se retratar antes de executar a sentença.
Ainda assim, é um registro de uma assimetria precisa, imposta e letal. A conversão para dentro do islã era estimulada, subsidiada com um traje e uma quantia em dinheiro, e consignada com satisfação; a conversão para fora dele foi crime capital por quatrocentos anos. A arquitetura confessional do império tinha uma porta que se abria num só sentido, e os neomártires são os que tentaram atravessá-la de volta.
O livro-razão
O custo mais fundo do arranjo otomano nos Bálcãs é o mais difícil de datar, porque é uma categoria e não um acontecimento.
Durante quatro séculos o Estado otomano administrou o sudeste da Europa pela confissão. Tributou pela confissão, julgou pela confissão, recrutou pela confissão e consignou cada domicílio num registro que dizia a que confissão pertencia. Não criou a diversidade religiosa da região — ela o antecede de longe —, mas fez da confissão o fato mestre da personalidade jurídica e escreveu o resultado, exaustivamente, durante quatrocentos anos.
Quando os movimentos nacionais chegaram no século XIX, herdaram esse livro-razão e o usaram como mapa étnico. As categorias do censo otomano viraram base de reivindicações territoriais; a briga do exarcado búlgaro com o patriarcado em 1870 foi uma briga sobre quais aldeias contavam como qual nação, travada através da maquinaria do millet; e a Convenção de 1923 sobre a Troca de Populações Gregas e Turcas separou cerca de 1,2 milhão de cristãos ortodoxos da Anatólia e cerca de 400.000 muçulmanos da Grécia com base na religião e não na língua, porque a religião era a categoria que os arquivos continham. Os judeus de Salônica — admitidos quando a Europa cristã os expulsava e a maior comunidade da cidade por quatrocentos anos — foram deportados para Auschwitz em 1943, cerca de 46.000 deles, por uma ocupação alemã que encontrou a comunidade já enumerada.
Essa última sequência não é um crime otomano e este dossiê não afirma que seja. É a observação de que uma categoria administrativa, mantida por tempo suficiente e consignada com cuidado suficiente, torna-se um fato sobre o qual Estados posteriores podem agir — e de que os homens que desenharam a categoria na década de 1450 estavam resolvendo um problema de imposto.
O acerto de contas
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1354 | Os otomanos tomam Galípoli; a cabeça de ponte europeia |
| c. 1369 | Edirne torna-se capital otomana |
| 26 set. 1371 | Batalha do Maritsa (Chernomen); destruídos os senhores sérvios da Macedônia |
| 1385 | Cai Sófia |
| 15 jun. 1389 | Kosovo Polje; morrem tanto Murade I quanto o príncipe Lazar |
| jul. 1393 | Tarnovo tomada de assalto; suprimido o patriarcado búlgaro |
| 28 fev. 1395 | Isidoro Glabás prega em Tessalônica sobre o rapto das crianças |
| 29 mar. 1430 | Tessalônica cai diante de Murade II e é saqueada |
| 1431-1432 | O registro do sanjaco de Arvanid consigna pelo nome detentores de timar cristãos |
| 29 mai. 1453 | Cai Constantinopla |
| 6 jan. 1454 | Genádio Escolário entronizado patriarca sob berat sultânico |
| jun. 1455 | Tomada Novo Brdo; Konstantin Mihailović entre os recolhidos |
| 1459 | Fim do despotado sérvio |
| 1463 | Conquista da Bósnia; execução de Stefan Tomašević |
| 1492 | Expulsão sefardita da Espanha; Bayezid II admite os refugiados |
| 1519 | Registro fiscal de Salônica: 3.143 domicílios judaicos, maioria da cidade |
| 1557 | Restaurado o patriarcado sérvio de Peć por Sokollu Mehmed Paxá |
| 11 out. 1579 | Assassinato de Sokollu Mehmed Paxá |
| 1603-1604 | Registro imperial do devşirme: 2.604 meninos |
| c. 1648 | A leva regular cessa na prática |
O que os Bálcãs receberam foi um Estado de um tipo que a região não tivera: solvente, cadastrado, judicialmente acessível, capaz de tributar sem arruinar e, por dois séculos, a maior potência militar da Europa. O que os Bálcãs pagaram foi uma conquista, uma aristocracia, um conjunto de Igrejas independentes, a subtração permanente de algo da ordem de duzentas mil crianças, séculos de porta confessional de mão única e um livro-razão que sobreviveu ao império que o mantinha.
As duas metades são verdadeiras ao mesmo tempo. O “jugo turco” do século XIX não é descrição adequada dos dois primeiros séculos de domínio otomano, e Maria Todorova mostrou em detalhe que trabalho político essa fórmula foi inventada para fazer e ainda faz 21. Mas a correção não é que o império fosse benigno. A correção é que a sua crueldade foi precisa, juridicamente documentada, dirigida contra crianças e administrada por um escrivão.
What followed
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1431O cadastro otomano (tahrir defteri) consignou pelo nome cada domicílio, campo, moinho e vinha da Rumélia conquistada e destinou a sua renda a um cavaleiro nomeado que não podia tornar a posse hereditária — o primeiro registro fiscal completo que a península balcânica já tivera.
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1450A capitação cizye sobre os homens adultos não muçulmanos tornou-se a maior fonte de receita do orçamento otomano, com a Rumélia fornecendo a esmagadora maioria dela: os Bálcãs financiavam o império.
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1450O ispençe, pagamento fixo de 20 a 25 akçes, substituiu a prestação de trabalho sem limite que os senhores sérvios e bizantinos extraíam, e deu ao camponês uma carga que se podia mostrar a um tribunal.
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1431O registro do sanjaco de Arvanid, levantado em 1431-1432, consignou pelo nome detentores de timar cristãos ao lado de muçulmanos, mostrando que o Estado otomano inicial comprou a elite derrotada em vez de destruí-la em bloco.
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1395O devşirme recolhia meninos cristãos numa proporção nominal de um para cada quarenta domicílios, lançando cada um num registro com nome, aldeia, idade, estatura e sinais particulares, para que não pudesse ser substituído a caminho de Edirne.
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1395Isidoro Glabás pregou contra a leva em Tessalônica em 28 de fevereiro de 1395, deixando o mais antigo testemunho cristão datável do devşirme e recuando o seu início documentado de 1438 para a década de 1390.
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1565Meninos recolhidos e educados nas escolas de palácio forneceram ao Império Otomano a maioria dos seus grão-vizires por cerca de século e meio, entre eles Mahmud Paxá Angelović, Rüstem Paxá, Sokollu Mehmed Paxá e Koca Sinan Paxá.
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1557Sokollu Mehmed Paxá, arrancado de uma aldeia bósnia por volta de 1516, usou o grão-vizirato em 1557 para restaurar o patriarcado sérvio de Peć e instalar o seu próprio parente Makarije como patriarca.
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1454Meemede II entronizou Genádio Escolário como patriarca ecumênico em 6 de janeiro de 1454 sob berat sultânico, convertendo o chefe da Igreja ortodoxa em oficial fiscal e disciplinar do Estado otomano.
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1519O governo de Bayezid II admitiu os judeus expulsos de Castela e Aragão em 1492, e segundo o registro fiscal de 1519 Salônica abrigava 3.143 domicílios judaicos — a maioria da cidade, e a maior comunidade judaica do mundo.
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1550As congregações sefarditas de Salônica conservaram por quatrocentos anos os nomes dos lugares ibéricos de onde haviam fugido — Catalan, Aragón, Castilla, Mallorca, Lisboa, Sicilia — e falaram judeu-espanhol até 1943.
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1512A tipografia hebraica começou em Salônica em 1512, fazendo da cidade um dos principais centros de edição judaica do mundo mediterrâneo.
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1604A Bósnia converteu-se ao islã mais a fundo do que qualquer outro lugar da Europa otomana, e a análise de 2026 dos registros fiscais de 1468 e 1604 feita por Kukić e Arslantaş constatou que as aldeias mais pobres se convertiam em proporções significativamente maiores: a capitação regressiva como motor de conversão.
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1550Os meninos muçulmanos da Bósnia, registrados como Poturoğulları, foram a única exceção documentada à regra que isentava os muçulmanos da leva, indício de que no século XVI o devşirme se tornara uma via de carreira para algumas famílias.
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1453O sürgün, transferência obrigatória de domicílios por ordem administrativa, tornou-se instrumento rotineiro da política de povoamento otomana, empregado do modo mais visível para repovoar Constantinopla depois de 1453 mediante cotas atribuídas aos governadores provinciais.
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1455Novo Brdo rendeu-se em junho de 1455 e dela foram levados 320 meninos e 700 mulheres numa única manhã, segundo o testemunho de Konstantin Mihailović, que estava entre eles e escreveu depois o mais antigo testemunho interno sobre o corpo dos janízaros.
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1463As monarquias balcânicas independentes foram extintas em sequência: Bizâncio em 1453, o despotado sérvio em 1459, a Moreia em 1460, o reino da Bósnia em 1463 com a execução de Stefan Tomašević, e a resistência albanesa com a queda de Shkodër em 1479.
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1766As Igrejas eslavas autocéfalas foram suprimidas — Tarnovo depois de 1393, Peć em 1463 e de novo em 1766 — e as suas sés postas sob uma hierarquia grega que operava com licença otomana, razão pela qual o nacionalismo búlgaro do século XIX combateu o patriarcado antes de combater o sultão.
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1700A apostasia do islã era punida com a morte, e as Igrejas ortodoxas acumularam um corpus de neomártires do século XV ao XIX: a arquitetura confessional tinha uma porta que se abria num só sentido.
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1870A prática otomana de consignar cada domicílio por confissão produziu um livro-razão administrativo de quatro séculos que os movimentos nacionais do século XIX herdaram e usaram como mapa étnico de territórios disputados.
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1923A Convenção de 1923 sobre a Troca de Populações Gregas e Turcas separou cerca de 1,2 milhão de cristãos ortodoxos da Anatólia e cerca de 400.000 muçulmanos da Grécia por religião e não por língua, porque a religião era a categoria que os arquivos otomanos continham.
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1943A comunidade judaica de Salônica, admitida em 1492 e a maior da cidade por quatro séculos, foi deportada para Auschwitz em 1943 — cerca de 46.000 pessoas — por uma ocupação que encontrou a comunidade já enumerada.
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