Nenhuma conquista levou o chá à estepe. A conta chegou quando Estados chineses fizeram de um hábito escolhido um instrumento: a ruína dos cultivadores de chá de Sichuan sob a Agência do Chá e dos Cavalos dos Song, depois de 1074; tábuas de contrassenha com a inscrição “os que faltarem à palavra serão decapitados”; um genro do imperador executado por contrabando em 1397; carregadores levando fardos de 144 kg até Dartsedo; e, mil anos depois, a fluorose esquelética em cerca de um terço dos adultos tibetanos que bebem o grosseiro chá em tijolo fornecido por esse comércio.
CONNECTIONS · 713–1735 · CUISINE · From Tang Chinese → Pastores da Ásia Interior

O chá já havia chegado à estepe em 781 — e se tornou o preço que a China cobrava por um cavalo

Monges chan levaram o chá ao norte da China nos anos 710; em uma geração, enviados uigures conduziam cavalos à corte para comprá-lo, e um rei tibetano mostrava a um enviado Tang seis chás chineses que já possuía. Três dinastias transformaram depois um hábito querido em alavanca de controle da fronteira.

Por volta de 781, um enviado Tang ferveu chá no acampamento tibetano e viu seis chás chineses que o rei já possuía. Em 1074, os Song trocavam chá de Sichuan por cavalos tibetanos — uma bebida querida convertida em alavanca de controle.

Pintura da dinastia Song sobre seda castanha: à esquerda, um criado sentado mói chá num pequeno moinho e outro prepara tigelas numa mesa, ao lado de uma chaleira sobre um fogareiro; à direita, três homens, um deles um monge de cabeça raspada, escrevem sentados a uma mesa comprida.
*Moendo chá*, rolo vertical sobre seda atribuído ao pintor Liu Songnian, dos Song do Sul. Embaixo, à esquerda, um criado gira um moinho manual para reduzir a pó o chá prensado; um segundo está de pé diante de uma mesa com as tigelas de chá e um jarro de água, ao lado de uma chaleira que esquenta num braseiro. À direita, letrados e um monge se reúnem em torno de uma mesa de escrita. Este é o lado chinês da transmissão: a bebida tal como a elite Song a preparava, nas mesmas décadas em que o Estado Song comprava chá de Sichuan para trocá-lo por cavalos tibetanos. Museu do Palácio Nacional, Taipé.
Liu Songnian. Grinding Tea (撵茶图), hanging scroll, ink and colour on silk, Southern Song dynasty. National Palace Museum, Taipei. Public domain via Wikimedia Commons. · Public domain

Antes: uma dieta de carne, leite e grão tostado

Em meados do século VIII, os povos que pastoreavam iaques no planalto tibetano e cavalos, ovelhas e camelos na estepe mongol não bebiam chá. Sua dieta se construía com o que os animais lhes davam. Carne, fresca e seca. Leite em todos os estados a que se podia levá-lo: fresco, azedo, fermentado, batido em manteiga, prensado e seco em queijo duro o bastante para ser carregado durante semanas. No planalto, a cevada tostada e moída na farinha que os tibetanos chamam de tsampa, comida amassada com líquido dentro da tigela. Na estepe, o painço, onde se conseguia obtê-lo por troca, e pouca coisa mais que brotasse da terra.123 O canato uigur, que havia tomado a estepe mongol em 744, e o império tibetano do btsan po eram as duas grandes potências das margens ocidental e setentrional do mundo chinês. Ambas eram potências equestres. Ambas alimentavam seus exércitos e rebanhos a partir da mesma economia pastoril, e nenhuma delas produzia nada que se pudesse ferver para obter a bebida que então, justamente então, virava febre nas cidades chinesas a leste.45

Essa economia não era deficiente, e o registro começa por dizê-lo. Uma dieta de carne, gordura láctea e grão tostado é capaz de sustentar uma população ao longo de invernos a quatro mil metros de altitude e de uma temporada de campanha na estepe; foi o que fez por mais de mil anos antes da chegada do chá. O que lhe faltava era variedade de matéria vegetal. Verduras frescas eram raras no planalto e mais raras ainda na estepe, e a única cultura cultivada, a cevada, era comida tostada. A tese chinesa posterior de que, sem chá, os povos pastoris adoeciam — premissa de toda uma política de fronteira — descreve uma lacuna com a qual a cozinha pastoril convivera durante séculos, e não uma fome que ela deixara de perceber; a literatura nutricional moderna explica por que o chá, uma vez adotado, a preencheu tão bem.16

O que havia na cozinha pastoril

As economias pastoris do planalto e da estepe variavam conforme a altitude e o animal, mas os elementos que se repetem nas fontes são poucos e estáveis:

  • Carne de ovelha, cabra, iaque e gado bovino, comida fresca na época do abate e seca ou congelada no restante do ano.
  • Leite e seus derivados: leite fresco, leite azedo e iogurte, leite de égua fermentado na estepe, manteiga batida do leite de iaque e de vaca no planalto, e queijo seco.
  • Grão tostado: cevada no planalto, comida como tsampa; painço e aveia na estepe, obtidos em grande parte por troca com vizinhos agricultores.2
  • Sal, recolhido nas bacias lacustres do planalto e da estepe e transportado como mercadoria.2
  • Quase nenhuma verdura cultivada, e nenhuma bebida quente de infusão comparável ao chá.

As fontes chinesas que descrevem essa dieta o fazem de fora e com um propósito, e devem ser lidas como tal. O Ming shi explica toda a política do chá na fronteira numa única frase que começa pela cozinha pastoril: “Os Fan apreciam o leite e o queijo” (番人嗜乳酪).1 Trata-se da premissa de um argumento sobre controle, e o registro voltará a ela. Mas a premissa em si é exata. O mundo receptor era um mundo de laticínios.

O que o chá havia sido na China antes de viajar

Do lado chinês, o chá não era antigo como hábito de massa. Bebia-se havia séculos no sul, em Sichuan e ao longo do Yangzi, como remédio, estimulante monástico e bebida regional. O norte da China, onde ficavam as capitais, só o adotou no século VIII. Feng Yan, funcionário Tang que escrevia nas últimas décadas daquele século, é explícito: “Os do sul gostavam de bebê-lo; os do norte, a princípio, não bebiam muito” (南人好飲之,北人初不多飲).4

A bebida Tang não era a folha em infusão dos séculos posteriores. As folhas eram cozidas no vapor, socadas e prensadas em bolos; o bolo era tostado, reduzido a pó num moinho de metal ou de pedra, e o pó fervido num caldeirão, muitas vezes com sal. O Clássico do chá (Chajing), de Lu Yu, concluído entre os anos 760 e 780, codificou o método e os utensílios, e Feng Yan atribui aos escritos de Lu Yu o mérito de ter transformado a bebida em moda: “e assim o caminho do chá se difundiu amplamente; entre príncipes, duques e funcionários da corte, não havia quem não o bebesse” (於是茶道大行,王公朝士無不飲者).47 Foi essa a bebida que atravessou a fronteira: prensada, portátil, fervida e salgada — uma forma que convinha muito mais ao caldeirão de um pastor do que conviria o bule de um letrado de épocas posteriores.7

Uma calha de metal longa e estreita sobre uma base com pés, decorada com motivos gravados e dourados de nuvens e animais, com um disco de moagem em forma de roda e seu cabo apoiados dentro dela, fotografada contra um fundo cinza-escuro.
Moedor de chá em prata dourada, pertencente ao serviço de chá imperial enterrado na cripta do templo de Famen, em Shaanxi, no reinado do imperador Tang Xizong (r. 873–888). O chá Tang era prensado em bolos, tostado, reduzido a pó num moinho como este e fervido — a forma portátil e fervida da bebida que atravessou a fronteira. Museu do Templo de Famen.
Xoesan. Tea grinder (茶碾子) from the Famen Temple crypt tea set, Tang dynasty, 9th century. Famen Temple Museum, Shaanxi. CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons. · CC BY-SA 4.0

A transmissão: monges, enviados e uma tenda no acampamento tibetano

Os monges chan e a moda de Kaiyuan, 713–741

O caminho pelo qual o chá chegou à fronteira passou primeiro pelo próprio norte da China, e seu vetor foi budista. Feng Yan nomeia o momento e o homem. Na era Kaiyuan (713–741), um mestre chan chamado Xiangmo, que ensinava no mosteiro de Lingyan, no monte Tai, em Shandong, permitiu que seus discípulos bebessem chá, porque a prática chan exigia deles que não dormissem nem comessem à noite. Os discípulos levavam chá consigo e o ferviam onde quer que fossem; outros os imitaram, “e daí se tornou costume”.4

A passagem reconstitui então a difusão com uma precisão incomum para a época:

起自鄒、齊、滄、棣,漸至京邑。城市多開店舖,煎茶賣之,不問道俗,投錢取飲。其茶自江、淮而來,舟車相繼,所在山積,色類甚多。

“Começou em Zou, Qi, Cang e Di, e pouco a pouco chegou à capital. Nas cidades abriram-se muitas lojas, que ferviam chá e o vendiam; monge ou leigo, cada um depositava suas moedas e tomava uma bebida. O chá vinha das regiões do Jiang e do Huai, barco após carroça, empilhado como montanhas por onde chegava, em grande variedade de cores e tipos.”4

A história do chá na China escrita por James Benn faz da ligação budista um dado estrutural, e não anedótico: os monges bebiam chá havia muito tempo no sul, mas foram os monásticos chan itinerantes do século VIII, junto com a codificação de Lu Yu, que transformaram o chá numa cultura partilhada em todo o império e o levaram para além dele.7 A fronteira conheceu o chá por meio de uma China que só aprendera a bebê-lo uma geração antes.

“Começou nas terras centrais e fluiu para além dos passos”

As frases seguintes de Feng Yan são a mais antiga afirmação, em qualquer língua, de que o chá havia chegado aos povos pastoris, e a mais antiga prova da troca que definiria os mil anos seguintes:

始自中地,流於塞外。往年回鶻入朝,大驅名馬市茶而歸,亦足怪焉。

“Começou nas terras centrais e fluiu para além dos passos. Em anos passados, quando os uigures vinham à corte, conduziam grandes manadas de cavalos finos para comprar chá e voltavam para casa — também isso é notável.”4

Três coisas importam nessa passagem. Primeiro, a direção: Feng Yan entendia que o chá se movera para fora, do interior chinês para a estepe, o que o restante das provas confirma. Segundo, o meio: cavalos. Os uigures, aliados indispensáveis e malquistos da dinastia Tang depois de terem ajudado a sufocar a rebelião de An Lushan (755–763), já vendiam cavalos à corte em grande número; o chá juntou-se à seda entre as coisas que esses cavalos compravam. Terceiro, o tom de Feng Yan. Ele achou aquilo estranho — 亦足怪焉. Um funcionário chinês dos anos 780 ou 790 ainda não imaginava que uma bebida pudesse ser uma mercadoria estratégica. Em trezentos anos, seus sucessores mal imaginariam outra coisa. O “em anos passados” (往年) de Feng Yan não tem data, e nenhuma outra fonte Tang fixa a primeira compra de chá pelos uigures; o registro usa a passagem pelo que ela estabelece, a saber, que no último quarto do século VIII o comércio estava consolidado o bastante para ser lembrado.4

Chang Lu na tenda do btsan po, c. 781

A prova tibetana vem de uma única anedota, que se tornou célebre justamente por ser tão exata. O Suplemento à história do Estado dos Tang (Tang guoshi bu), de Li Zhao, compilado no início do século IX, a registra:

常魯公使西蕃,烹茶帳中,贊普問曰:「此為何物?」魯公曰:「滌煩療渴,所謂茶也。」贊普曰:「我此亦有。」遂命出之,以指曰:「此壽州者,此舒州者,此顧渚者,此蘄門者,此昌明者,此湖者。」

“Quando o senhor Chang Lu foi como enviado aos Fan do Oeste, ferveu chá em sua tenda. O btsan po perguntou: ‘O que é isto?’ Chang Lu disse: ‘Lava a aflição e cura a sede; chama-se chá.’ O btsan po disse: ‘Nós também temos isso aqui.’ Mandou trazê-lo e apontou: ‘Este é de Shouzhou, este de Shuzhou, este de Guzhu, este de Qimen, este de Changming, e este de Hu.’”8

A Antiga história dos Tang (Jiu Tang shu) data a embaixada. Chang Lu era o assistente administrativo (判官) do enviado Cui Hanheng, e a história registra o regresso de ambos da corte tibetana no segundo ano da era Jianzhong, 781; Chang Lu participou depois do pacto de Qingshui entre os Tang e o Tibete, em 783.5 A embaixada ocorreu, portanto, por volta de 780–781.

O que a anedota mostra não é o que muitas vezes se diz que ela mostra. O btsan po não estava sendo apresentado ao chá. Ele já o possuía — seis variedades identificadas por nome, de seis distritos produtores diferentes da bacia do Yangzi e de Sichuan, reconhecidas pela origem como numa adega de conhecedor. O chá chegara à corte tibetana como artigo de luxo, quase certamente pelos mesmos canais de tributo, presente e comércio por onde passava a seda. É prova de posse pela elite no topo do Estado tibetano. Não é prova de que os tibetanos comuns bebessem chá em 781, e nenhuma fonte Tang diz que bebiam.85

Vestígios anteriores: Gurgyam e a tradição tibetana

Duas outras linhas de evidência recuam a presença do chá no planalto, e ambas exigem cuidado.

A primeira é arqueológica. Em 2016, uma equipe liderada por Lu Houyuan relatou vestígios biomoleculares de chá — cafeína, teanina e fitólitos característicos — em material do cemitério de Gurgyam, em Ngari, no extremo oeste do Tibete, datado de cerca de 1.800 anos antes do presente. A conclusão da equipe se enuncia nas próprias palavras dos autores: “As mais antigas provas físicas de chá, tanto da região de Chang’an como da de Ngari, sugerem que um ramo da Rota da Seda através do planalto tibetano já estava estabelecido entre os séculos II e III d.C.”9 Trata-se de um único estudo, e o que ele mostra é presença: o chá, provavelmente como luxo, chegando a um sepultamento de alto status do outro lado do planalto por volta de 200 d.C. Nada diz sobre consumo cotidiano.

A segunda é a tradição histórica tibetana. O rGya bod yig tshang, crônica tibetana compilada em 1434, situa o primeiro consumo de chá na corte tibetana no reinado do btsan po ’Dus srong (r. c. 676–704), numa história em que um rei enfermo é curado por folhas que um pássaro lhe traz. Yang Fuquan, que a cita, resume o ponto assim: “No reinado do rei tibetano Chidusongzan (676–704), a aristocracia tibetana começou a beber chá e a usar a tigela de chá.”10 Uma narrativa de origem do século XV é prova de como os tibetanos passaram depois a entender a chegada do chá — como dádiva régia e remédio —, e não um registro do século VII. Lida junto com a anedota de Chang Lu, aponta na mesma direção: o chá entrou no planalto pelo topo, como coisa preciosa, antes de se tornar o pão de cada dia de quem quer que fosse.

O que mudou e o que foi substituído

Do luxo à necessidade

Entre o século VIII e o XI, o chá deixou de ser uma curiosidade no mundo pastoril e se tornou um gênero de primeira necessidade. As fontes não permitem datar a transição com precisão, e o registro não finge o contrário. Nos anos 1070, porém, um comandante Song da fronteira podia relatar, como coisa sabida, que os povos do noroeste queriam chá acima de tudo: “Os ocidentais começaram a trazer bons cavalos à fronteira; tudo o que desejam é chá” (西人頗以善馬至邊,所嗜唯茶).1112 Yang Fuquan descreve o período Song como aquele em que “a demanda por chá teria aumentado gradualmente, à medida que o chá se tornava uma bebida importante no cotidiano dos tibetanos”.10

O que os povos pastoris fizeram dele foi obra sua. Não adotaram a bebida dos letrados chineses, com sua estética da tigela de chá e da espuma batida. Tomaram o chá prensado mais grosseiro e barato — folhas velhas e talos comprimidos em tijolos — e o ferveram dentro da cozinha dos laticínios. O missionário lazarista francês Évariste Huc, que atravessou território mongol em 1844–1846, deixou a descrição mais exata do método da estepe:

“Quand les Tartares veulent faire le thé, ils cassent un morceau de leur brique, le pulvérisent, et le font bouillir dans leur marmite, jusqu'à ce que l'eau devienne rougeâtre. Ils y jettent alors une poignée de sel, et l'ébullition recommence. Dès que le liquide est presque noir, on ajoute plein une écuelle de lait.”

“Quando os tártaros querem fazer chá, quebram um pedaço do tijolo, reduzem-no a pó e o fervem na panela até que a água fique avermelhada. Jogam então um punhado de sal, e a fervura recomeça. Assim que o líquido está quase preto, acrescenta-se uma tigela cheia de leite.”2

No planalto, o mesmo chá em tijolo era fervido, coado e batido com manteiga e sal num alto cilindro de madeira para fazer a bebida que os tibetanos chamam de po cha — chá com manteiga —, que se bebia puro ou se derramava sobre a tsampa na tigela. Quando o chá com manteiga surgiu nessa forma não é algo estabelecido por nenhuma fonte que este registro tenha localizado, e o registro não o data.

Uma vitrine de museu: uma batedeira de madeira alta e cilíndrica, com cintas de latão e êmbolo, encostada a uma parede, ao lado de um grande caldeirão de cobre; em volta, prateleiras com potes de cerâmica, batedeiras menores e tigelas de madeira.
Objetos domésticos tibetanos expostos no Field Museum, em Chicago: ao centro, uma batedeira alta de madeira cintada de latão, do tipo usado para misturar o chá em tijolo fervido com manteiga e sal e obter o *po cha*, ao lado de um grande caldeirão de cobre, batedeiras menores e tigelas de madeira. Uma fotografia na parede, ao fundo, mostra duas mulheres junto a uma batedeira.
Ancheta Wis. Tibetan kitchen items including a butter-tea churn, photographed 2005. Field Museum, Chicago. CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons. · CC BY-SA 3.0

A lógica nutricional é real, e convém enunciá-la com clareza, porque a seção sobre o custo depende de não exagerar o argumento contrário. Um estudo de 2022 com 5.014 adultos tibetanos em Lhasa constatou que o consumo médio e elevado de chá com manteiga estava associado a uma probabilidade menor de síndrome metabólica, e seus autores descrevem a bebida como aquela que “satisfaz perfeitamente as elevadas necessidades energéticas do corpo humano em grandes altitudes, como item básico da culinária tibetana”.6 O hábito foi adotado de bom grado, era amado e atendia a necessidades. Foi exatamente isso que o tornou valioso para os Estados que controlavam seu abastecimento.

O que o chá deslocou e o que acrescentou

As mudanças na cozinha e na economia receptoras podem ser expostas diretamente:

  1. Um novo item básico diário. O chá, fervido com leite, manteiga e sal, tornou-se o líquido de base do dia pastoril — bebido muitas vezes ao dia e, no planalto, o meio no qual se comia a tsampa. Um levantamento feito em Daofu nos anos 1990 registrou adultos tibetanos bebendo cerca de três litros de chá em tijolo com leite por dia.3
  2. Uma dependência de importação. Pela primeira vez, a cozinha pastoril repousava sobre um alimento que não podia produzir. O chá só crescia no sul e no sudoeste da China.
  3. O deslocamento dos líquidos simples. O chá substituiu a água e o leite puro como bebida do dia a dia; o provérbio registrado em Daofu — “os tibetanos preferem ficar três dias sem comida a um dia sem chá” — descreve o resultado.3
  4. Uma nova unidade de valor. O chá prensado em tijolo, uniforme, durável e desejado por todos, tornou-se moeda na estepe (ver adiante).
  5. Uma nova geografia de fronteira. Mercados de cavalos, depósitos de chá e postos alfandegários — Qinzhou, Hezhou, Taozhou, Xining, Ya’an, Dartsedo, Kalgan, Kiakhta — tornaram-se as dobradiças da relação entre o mundo pastoril e o Estado chinês.1111013

O Estado aprende o que a estepe quer: os impostos Tang, anos 780–793

O Estado Tang percebeu o chá como receita antes de percebê-lo como alavanca. O tratado sobre a economia da Antiga história dos Tang registra que, na era Jianzhong, o vice-diretor das Receitas Públicas, Zhao Zan, propôs tributar “o bambu, a madeira, o chá e a laca”, e afirma sem rodeios: “A tributação do chá começou aqui” (茶之有稅,肇於此矣). O texto situa a proposta no quarto ano, 783.14 Dez anos depois, no primeiro mês do nono ano de Zhenyuan (793), o comissário do sal e do ferro Zhang Pang instituiu um imposto regular de um décimo sobre o chá, que rendia 400.000 enfiadas de moedas por ano.14 O chá ganhara peso suficiente na economia chinesa para valer a pena tributá-lo exatamente nas décadas em que os uigures o compravam com cavalos e o btsan po o colecionava por distrito. O passo seguinte — usar a demanda da fronteira por chá como instrumento — seria dado pelos Song.

A Agência do Chá e dos Cavalos dos Song, 1074

A dinastia Song era um império pobre em cavalos cercado de vizinhos ricos em cavalos. Os Liao, dos khitan, ocupavam as pastagens do nordeste; os Xi Xia, dos tangut, dominavam o corredor do noroeste; depois de 1127, os Jin, dos jurchen, controlavam todo o norte da China. O estudo de Paul J. Smith sobre o período, Taxing Heaven's Storehouse (1991), constrói-se sobre a consequência: um Estado que não conseguia criar cavalos de cavalaria tinha de comprá-los, e o único fornecedor confiável que lhe restava eram as tribos tibetanas da fronteira de Gansu–Qinghai, que queriam chá.12

Em 1074, sob as Novas Políticas de Wang Anshi, a corte enviou Li Qi, funcionário da Comissão de Finanças, “a Shu para planejar a compra de chá, a fim de trocá-lo por cavalos em Qin-Feng e Xi-He” (遣三司幹當公事李杞入蜀經畫買茶,於秦鳳、熙河博馬).11 Dessa missão nasceu a Agência do Mercado de Chá de Sichuan, mais tarde Agência do Chá e dos Cavalos: um monopólio estatal que comprava o chá de Sichuan, levava-o para o norte e o trocava por cavalos numa cadeia de mercados de fronteira. O Song shi registra que a cota nos oito mercados de Sichuan e Shaanxi era de pouco mais de 9.000 cavalos por ano, elevada para 12.994 a partir da era Chunxi (1174–1189) — e acrescenta que “depois disso, as compras jamais a alcançaram” (自後所市未嘗及焉).11 O estudo de Huang Chunyan sobre a legislação Song do chá trata o regime do chá de Sichuan como um sistema distinto dentro do Estado fiscal Song, com lógica própria de compra, transporte e troca.15

O argumento de Smith, exposto adiante na seção sobre o custo, é que a agência funcionou — por algum tempo — e que seu êxito foi justamente o problema.

O sistema Ming: taxas, tábuas e um genro

Os Ming herdaram a lógica Song e a tornaram explícita. O tratado do Ming shi sobre as leis do chá abre seu relato do comércio de fronteira com a justificativa por inteiro:

番人嗜乳酪,不得茶,則困以病。故唐、宋以來,行以茶易馬法,用制羌、戎,而明制尤密。

“Os Fan apreciam o leite e o queijo; sem chá, adoecem. Por isso, desde os Tang e os Song, pratica-se o método de trocar chá por cavalos, como meio de controlar os Qiang e os Rong; e o sistema Ming foi especialmente rigoroso.”1

A expressão frequentemente citada na escrita chinesa moderna como lema dessa política, yi cha yu fan (以茶馭番, “controlar os Fan com o chá”), é um rótulo historiográfico moderno; a formulação clássica é o 用制羌、戎 do Ming shi, “como meio de controlar os Qiang e os Rong”.1 A substância é a mesma.

O imperador Hongwu (r. 1368–1398) fixou as taxas: por um cavalo de primeira qualidade, 120 jin de chá; por um cavalo de qualidade média, 70 jin; por um potro, 50 jin.1 Em seguida, vinculou as tribos ao sistema com tábuas de ouro — 41 placas douradas com a inscrição “Decreto Imperial” no alto, “Devido à requisição” à esquerda e “Os que faltarem à palavra serão decapitados” (不信者斬) à direita. As tribos recebiam as metades inferiores; as metades superiores ficavam no palácio, e a cada três anos um funcionário partia para fazê-las coincidir. As tábuas atribuíam cotas:1

Grupo de fronteira (segundo o Ming shi, 80) Tábuas Cavalos devidos
Taozhou: os 火把藏思囊日 e tribos aparentadas 4 3.050
Hezhou: Guarda de Bili, 29 tribos dos Fan do Oeste 21 7.705
Xining: Guardas de Quxian, Aduan, Handong e Anding; tribos Bawa, Shenzhong e Shenzang 16 3.050
Total 41 13.805

Liping Wang e Geng Tian, no estudo recente mais detalhado sobre a obtenção de cavalos pelos Ming, descrevem o efeito: “As tribos tibetanas admitidas a trocar cavalos por chá recebiam placas de ouro como licenças de comércio. … O chá tornou-se a única moeda legítima para pagar os cavalos das tribos tibetanas. A corte contava receber aproximadamente 13.800 cavalos por ano dos tibetanos.”16 Seu apêndice, extraído do Ming shilu, registra o que de fato se trocou numa série de anos:16

Ano Cavalos recebidos Chá pago
1380 2.050 58.892 jin (e 98 cabeças de gado)
1392 10.340 (Hezhou) c. 300.000 jin
1435 c. 13.000 (Xining, Hezhou, Taozhou) c. 1.097.000 jin
1490 4.000 c. 400.000 jin
1508 c. 9.000 c. 782.000 jin

O sistema Ming era também deliberadamente seletivo. Wang e Tian observam que a corte “reservou a troca de chá por cavalos exclusivamente aos tibetanos, embora os mongóis ansiassem pelo chá”, e leem a escolha em chave estratégica: “Sem dúvida, os políticos Ming esperavam usar o comércio de chá e cavalos para cortar uma possível ligação entre mongóis e tibetanos.”16 O chá não era apenas o preço dos cavalos. Era uma cunha entre os dois povos pastoris cuja aliança os Ming mais temiam. O artigo clássico de Morris Rossabi, de 1970, sobre o comércio Ming de chá e cavalos estabeleceu os contornos desse sistema meio século antes, e o trabalho de Wang e Tian se apoia nele.17 As tábuas caíram em desuso sob o imperador Yongle e foram reemitidas em 1435.1 Em 1503, Yang Yiqing propôs reativar um sistema abastecido por mercadores, estimando que 500.000–600.000 jin de chá por ano comprariam 10.000 cavalos; o imperador aprovou.1

O declínio sob os Qing e a economia do chá em tijolo

Os Qing, dinastia vinda ela própria de além da Grande Muralha e que logo passou a controlar diretamente as pastagens mongóis, precisavam menos da troca. O Qing shi gao registra as taxas iniciais — doze bi (篦, um pacote padronizado) de chá por um cavalo de primeira, nove por um médio, sete por um inferior —, depois a abolição do censor do chá e dos cavalos em 1668 e, em 1735, a linha “de novo suspendeu a troca de cavalos de Gansu” (復停甘肅中馬).18 O estudo de Lai Hui-min, de 2024, sobre as licenças de chá de Gansu reconstitui a sequência em detalhe: o comércio restabelecido em 1645, suspenso em 1674, quando as novas pastagens estatais da Mongólia Interior já podiam abastecer o exército, encerrado de novo em 1735 e convertido em 1736 numa contribuição em prata, o que, em suas palavras, “significava que o comércio de chá e cavalos havia sido abandonado” (意謂茶馬貿易已停廢).19 Lai sublinha que o chá oficial conservou uma função política muito tempo depois: presentes aos lamas de Xining e aos príncipes mongóis de Qinghai, socorro a mongóis deslocados, comércio com os zungares depois da trégua de 1739.19

O fim da troca oficial de cavalos não foi o fim do domínio do chá sobre a economia pastoril. Foi o início da segunda vida do chá como mercadoria livre e como moeda. Yang Fuquan registra que só em 1661 cerca de 30.000 dan — cerca de 1.500.000 kg — de chá de Yunnan foram enviados ao Tibete, e que a corte destinava 5.000 jin por ano ao dalai-lama e 2.500 ao panchen-lama.10 Na estepe, Huc encontrou o chá em tijolo funcionando francamente como moeda. Em Grande Kuren (Urga, a atual Ulan Bator):

“Dans les opérations commerciales, les paiements s'effectuent toujours avec des thés en brique. Qu'on vende un cheval, un chameau, une maison, ou des marchandises de quelque nature que ce soit, la convention du prix se fait en thés. Cinq thés représentent une valeur d'une once d'argent.”

“Nas operações comerciais, os pagamentos se fazem sempre em chá em tijolo. Quer se venda um cavalo, um camelo, uma casa ou mercadorias de qualquer natureza, o preço se ajusta em chás. Cinco chás representam o valor de uma onça de prata.”2

Em Kiakhta, na fronteira russa, Huc observou que as mercadorias russas “são ordinariamente pagas com chá em tijolo”.2 O estudo de Michal Wanner sobre o comércio de Kiakhta mostra que o chá já representava 30 % das exportações chinesas por esse posto de fronteira no último quarto do século XVIII — “apesar do preço, o chá era muito procurado” — e que o volume se multiplicou mais de catorze vezes entre a primeira década do século XIX e os anos 1880; as caravanas de camelos de Kalgan a Urga e a Kiakhta o levavam através da mesma estepe na qual os uigures haviam primeiro conduzido cavalos para comprá-lo.13

Década Chá chinês via Kiakhta (milhares de puds)
1801–1810 75
1821–1830 143
1841–1850 294
1861–1870 405
1881–1890 1.077

O termo com que todo esse mundo é hoje comercializado — a “Estrada do Chá e dos Cavalos”, chama gudao (茶马古道) — é ele próprio uma cunhagem moderna. Song Shilei o fez remontar a Mu Jihong e colegas por volta de 1990, sobrepondo à troca histórica de chá por cavalos um enquadramento patrimonial e turístico.20 Yang Fuquan o emprega para a rota Sichuan–Lhasa, “com cerca de 2.350 quilômetros de extensão e cinquenta e seis etapas de viagem”, que parte de Ya’an e passa por Luding, Kangding (Dartsedo), Batang e Chamdo.10

Qual foi o custo

A transmissão não foi uma conquista e não matou ninguém no ato do empréstimo. A conta veio depois, e veio do momento em que um Estado chinês compreendeu que uma bebida escolhida pelos povos pastoris podia ser convertida em alavanca. Foi paga em quatro lugares: nos chazais de Sichuan, nas costas dos carregadores que levavam os tijolos, nos locais de execução onde morriam os contrabandistas e — mil anos depois — nos ossos das pessoas que o bebem.

A ruína dos cultivadores de Sichuan

Taxing Heaven's Storehouse, de Paul Smith, é o estudo do que a Agência do Chá e dos Cavalos dos Song fez à região que cultivava o chá. Antes de 1074, o chá era em Sichuan uma atividade próspera de pequenos proprietários. A agência, criada para comprar esse chá para o comércio de cavalos, era altamente autônoma e, de início, notavelmente bem-sucedida: obtinha os cavalos e dava lucro. Mas seus funcionários eram recompensados pela receita e punidos pelos déficits, e a agência os transformou, no relato de Smith, em empresários respaldados pelo poder coercitivo do Estado. Transformou também a elite de Sichuan, até então conhecida por resistir à capital, em servidores imperiais ávidos por tributar a própria região.12

Depois da conquista do norte da China pelos jurchen, em 1127, os mercados mudaram, e a agência não. Suas exigências continuaram enquanto seu suprimento de cavalos encolhia. Segundo a análise de Smith, ela acabou por arruinar os cultivadores de chá de que dependia, não cumpriu suas cotas de cavalos e passou a operar com déficit — a “destruição da indústria do chá de Sichuan” de seu subtítulo. A própria admissão do Song shi de que as compras posteriores “jamais alcançaram” a cota de 12.994 cavalos é o registro oficial desse fracasso.1112 O custo para os cultivadores, na leitura de Smith, foi pago em vendas forçadas a preços fixos, na perda de um mercado livre para sua colheita e no longo declínio de uma economia regional que fora uma das mais mercantilizadas do império.

Os carregadores da estrada de Ya’an

O chá que chegava de Sichuan ao Tibete não viajava em caravana na primeira etapa. Seguia nas costas de homens, da região produtora em torno de Ya’an, pelos passos de montanha, até Dartsedo (Kangding), onde era reembalado para iaques e mulas. No verão de 1908, o coletor de plantas Ernest Henry Wilson fotografou dois desses carregadores perto da estrada e escreveu sob a cópia: “A carga de um homem pesa 317 lbs. avoird., a do outro 298 lbs. avoird.!! Os homens carregam este chá até Tachien-lu, percorrendo cerca de 6 milhas por dia por estradas péssimas.”21 São cerca de 144 e 135 quilos, carregados a seis milhas por dia.

Fotografia em sépia de dois homens numa trilha de montanha, cada um carregando nas costas uma pilha altíssima de tijolos de chá envoltos em bambu trançado, mais alta que o próprio homem, apoiando-se num bastão curto.
Dois carregadores levando chá em tijolo destinado ao Tibete pela estrada que atravessa o oeste de Sichuan, fotografados por Ernest Henry Wilson em julho de 1908. A legenda de Wilson registra fardos de 317 e 298 libras — cerca de 144 e 135 quilos —, carregados a cerca de seis milhas por dia até Tachien-lu (Dartsedo, Kangding), onde o chá era reembalado para iaques e mulas. Arnold Arboretum, Universidade Harvard; cópia restaurada digitalmente.
Ernest Henry Wilson (restored by ralph repo). Two men laden with tea, Sichuan, 30 July 1908. Arnold Arboretum, Harvard University. CC BY 2.0 via Wikimedia Commons. · CC BY 2.0

Os números de Wilson são um caso extremo documentado, não uma média, e devem ser lidos como tal; as cargas comuns eram mais leves. Mas a fotografia registra com honestidade a estrutura do comércio. A demanda tibetana por chá e o lucro que o Estado chinês e os mercadores obtinham ao atendê-la estavam ligados por uma rota na qual, durante séculos, o meio de transporte mais barato disponível foi um par de costas humanas. Os nomes dos carregadores não foram registrados. As cargas, sim.

Contrabandistas e a pena de morte

Um monopólio que funciona como alavanca exige que ninguém mais forneça aquilo que ele controla. Os Song e os Ming, por isso, criminalizaram o chá privado na fronteira, e os Ming aplicaram a proibição no topo da ordem social para marcar posição. Em 1397, o imperador Hongwu mandou executar o próprio genro, o comandante-consorte imperial Ouyang Lun, por contrabando de chá. O Ming shi o registra em doze caracteres: 駙馬都尉歐陽倫以私茶坐死 — “O genro imperial Ouyang Lun foi condenado à morte por chá privado.”1

A execução do genro de um imperador é lembrada porque foi excepcional. Os contrabandistas comuns que morreram sob as mesmas leis não são nomeados em parte alguma do registro que esta entrada localizou. O que as fontes deixam claro é que a política vazava. Wang e Tian observam que os melhores cavalos tinham mais probabilidade de ser encontrados nos mercados privados do que na troca oficial: o preço do Estado era baixo, e a fronteira negociava por fora dele.16 As punições foram o custo de tentar sustentar um preço que o mercado não suportava.

A dependência como política

O custo mais profundo da transmissão é aquele que o Ming shi enuncia sem constrangimento. Os Estados chineses não se limitaram a fornecer uma mercadoria que os povos pastoris desejavam; construíram uma política sobre a premissa de que os povos pastoris não podiam passar sem ela, e calibraram o abastecimento para controlá-los. Os elementos dessa política podem ser enumerados:

  • Uma justificativa declarada de dependência: “sem chá, adoecem; por isso … para controlar os Qiang e os Rong”.1
  • Um preço fixado pelo comprador: 120, 70 e 50 jin de chá por cavalo sob Hongwu; 12, 9 e 7 bi no início dos Qing.118
  • Licenças garantidas pela morte: 41 tábuas de ouro com a inscrição “os que faltarem à palavra serão decapitados”.1
  • Exclusão seletiva: chá vendido aos tibetanos e negado aos mongóis, para impedir que os dois se unissem.16
  • Pena capital para a concorrência: o chá privado como crime capital, punido até mesmo na família imperial.1

Isso não funcionou como seus idealizadores esperavam. As cotas de cavalos eram cronicamente descumpridas sob os Song e com frequência sob os Ming; o contrabando era endêmico; os povos pastoris negociavam chá por conta própria e em seus próprios termos sempre que a fronteira o permitia.1116 Mas a tentativa moldou a relação entre o Estado chinês e o planalto durante sete séculos, e pôs uma necessidade diária dos lares tibetanos e mongóis sob o controle de um governo que via nessa necessidade um instrumento de dominação.

Os ossos de quem bebe: a fluorose do chá em tijolo

A última parte da conta só foi conhecida no século XX, e recai sobre os próprios consumidores. O chá em tijolo barato enviado ao planalto era feito de folhas velhas e grosseiras e de talos — exatamente o material em que a planta do chá acumula flúor. W. S. Shu e colegas mostraram em 2003 que são as folhas velhas, e não as condições do solo, “os principais responsáveis” pelos altos teores de flúor e alumínio no chá em tijolo de Sichuan.22 Cao Jin e colegas mediram o flúor hidrossolúvel no chá em tijolo de Sichuan e de Yunnan em 533,89–617,32 mg/kg, contra 0,06 mg por litro na água potável tibetana.23

O estudo de 1996 de Cao Jin e colegas no distrito de Daofu, em Ganzi, na região tibetana oriental de Kham, expôs as consequências:3

  • Os adultos tibetanos bebiam cerca de 3.000 mL de chá em tijolo com leite por dia; as crianças de 8 a 15 anos, cerca de 1.500 mL.
  • A ingestão de flúor dos adultos era em média de 10,43 mg por pessoa por dia, contra 2,54 mg entre os moradores han do mesmo distrito.
  • 94,4 % da ingestão dos adultos vinha do chá em tijolo e da tsampa preparada com ele.
  • 51,2 % das crianças tibetanas tinham fluorose dentária, contra 11,05 % das crianças han.
  • Cerca de um terço dos tibetanos com mais de 16 anos tinha fluorose esquelética; acima dos 40 anos, a taxa era de 50 % ou mais, e na faixa de 50 a 59 anos chegava a 81,36 %.

Os autores foram diretos: “O chá em tijolo é considerado uma das necessidades da vida pelos tibetanos e por outras nacionalidades minoritárias do oeste da China”, e “a fluorose do chá em tijolo pode ser considerada um novo tipo de fluorose. Ela ocorre numa área limitada, mas até agora esse problema tem sido ignorado.”3 Um estudo de 2015 com indivíduos tibetanos, mongóis, cazaques, han e russos no noroeste da China constatou a maior prevalência de fluorose esquelética entre os tibetanos.24

A cadeia causal é longa, e cada elo está documentado. O chá chegou ao planalto como luxo. Tornou-se necessidade. Os Estados chineses construíram uma política sobre essa necessidade e a abasteceram na forma mais barata e grosseira. Os povos pastoris adotaram essa forma como sua e a beberam em grande quantidade, três litros por dia. As folhas grosseiras continham flúor. A fluorose não é um custo intencional, e ninguém sob os Song ou os Ming poderia tê-la conhecido. Mas é um custo da transmissão tal como ela de fato ocorreu, e recai sobre as mesmas pessoas cuja demanda os Estados da fronteira se puseram a explorar.

O que a conta não inclui

A honestidade sobre o custo exige enunciar seus limites. A transmissão em si foi voluntária. Nenhum exército levou o chá à estepe; os uigures conduziram cavalos para comprá-lo, e o btsan po o colecionava por distrito. O chá com manteiga e o chá com leite não são imposições, mas conquistas da cozinha pastoril — pratos criados pelos receptores a partir de um ingrediente estrangeiro, e ainda amados. O estudo de Lhasa que associou o chá com manteiga a uma menor incidência de síndrome metabólica faz parte deste registro tanto quanto o levantamento sobre a fluorose em Daofu.6 A troca de chá por cavalos também proporcionou aos povos pastoris algo que valorizavam, a um preço que muitas vezes negociavam, contornavam ou fixavam eles mesmos por meio do mercado privado. A conta recai onde os Estados chineses escolheram fazer de um hábito querido um instrumento: sobre os cultivadores de Sichuan, sobre os carregadores, sobre os contrabandistas e sobre os consumidores cujos ossos registram a qualidade do chá que lhes foi vendido.

What followed

Where this lives today

Chá tibetano com manteiga (*po cha*) Chá mongol com leite (süütei tsai) Chá com leite cazaque e quirguiz Chá em tijolo de Sichuan, Hunan e Yunnan para o comércio de fronteira A Estrada do Chá e dos Cavalos (chama gudao) como rota patrimonial Fluorose do chá em tijolo no planalto tibetano

References

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Further reading

Cite this article
OsakaWire Atlas. 2026. "Tea reached the steppe by 781 — and became China's price for a horse" [Hidden Threads record]. https://osakawire.com/pt/atlas/tea_china_to_steppe_781/