Os nórdicos chegaram à América em 1021 — e partiram com dois meninos roubados
Três salões de turfa na ponta da Terra Nova, uma década de travessias até o golfo de São Lourenço e o primeiro assassinato documentado de indígenas norte-americanos por europeus. Quase nada atravessou em qualquer das duas direções. Este é o caso de controle do atlas: como se parece uma transmissão quando a cultura receptora não a quer e os emissores não conseguem impô-la.
Em 1021 — data hoje fixada ao ano exato graças a uma tempestade solar registrada nos anéis das árvores — tripulações nórdicas vindas de uma colônia groenlandesa de cerca de quinhentas pessoas derrubavam madeira em Epaves Bay, na ponta norte da Terra Nova. Ergueram ali oito construções de turfa, reduziram o primeiro ferro da história das Américas e levaram para casa nozes-brancas colhidas no golfo de São Lourenço. Trocaram pano vermelho e laticínios por peles, e recusaram-se a trocar ferro. Mataram oito homens que dormiam sob três barcos de pele virados, perderam o chefe para a flecha que respondeu ao ataque e voltaram com duas crianças sequestradas. Depois pararam de vir. Nada do que era deles entrou no registro indígena. A história foi posta para trabalhar novecentos anos mais tarde.
A costa em que os nórdicos aportaram
No ano de 1021, três árvores foram derrubadas na ponta da grande península Norte da Terra Nova, numa enseada rasa hoje chamada Epaves Bay, por gente que empunhava lâminas de ferro 3. Não haviam chegado a uma costa vazia. Epaves Bay estava em uso havia pouco mais de cinco mil anos, e a sequência arqueológica do sítio registra ao menos cinco ocupações indígenas distintas anteriores aos nórdicos e uma posterior 4. A tradição arcaica marítima trabalhou a enseada aproximadamente entre 4000 e 1000 a.C. Seguiram-se os paleoinuítes de Groswater, por volta de 1000-500 a.C. As ocupações do Dorset médio datam de cerca de 400-750 d.C., os complexos de Cow Head e Beaches de cerca de 800-850, e a tradição de Little Passage — antepassados imediatos daqueles que os ingleses chamariam depois de beothuk — dos séculos XIII ao XV 4. Os nórdicos encaixaram-se numa lacuna dessa sequência, e a lacuna tinha cerca de século e meio.
É isso que se deve sustentar com firmeza, porque quase todo relato popular da Vinlândia inverte a ordem. Os nórdicos não foram os primeiros a alcançar a América do Norte, nem os centésimos, nem os décimos milésimos. Chegaram tarde a um continente cujo litoral setentrional estava habitado, cartografado na memória, caçado, pescado e sepultado havia milênios. O que eles foram é o primeiro povo do hemisfério oriental a chegar e deixar um relato escrito, afirmação bem mais modesta e bem mais interessante.
Quem estava na costa em 1021
Três grandes populações encontravam-se ao alcance dos desembarques nórdicos, e não formavam um único povo.
- As tradições Recent Indian (Beaches e depois Little Passage): a ilha da Terra Nova, do século VIII aproximadamente até o contato europeu. Antepassados dos beothuk. Seus depósitos no próprio L'Anse aux Meadows situam-se acima e abaixo da camada nórdica 4.
- Os antepassados dos innu: o interior e a costa do Labrador, a terra que os nórdicos chamaram de Markland.
- Os paleoinuítes do Dorset: o norte do Labrador, a ilha de Baffin e o Alto Ártico; uma população ártica genética e culturalmente distinta, sem parentesco com os povos Recent Indian, que havia deixado a ilha da Terra Nova por volta do século VIII 11.
Uma quarta população está notavelmente ausente. Os thule, antepassados dos inuítes de hoje, ainda não haviam se expandido pelo Ártico canadense até a Groenlândia; esse movimento ocorre cerca de dois séculos depois. Quem quer que os nórdicos tenham encontrado em 1021, não eram eles.
Qual das três populações as sagas chamam de skrælingar permanece genuinamente indeciso, e o atlas não fingirá o contrário. As descrições das sagas — barcos cobertos de peles e uma arma lançada de uma vara, lida em geral como funda ou como forma de balista — apontam para uma cultura material paleoinuíte. A densa ocupação Recent Indian nas imediações de L'Anse aux Meadows aponta para os antepassados dos beothuk. Annette Kolodny, que lê as travessias meridionais das sagas à luz da tradição oral wabanaki, defende os antepassados dos mi'kmaq e de outros povos do Dawnland, mais ao sul no golfo de São Lourenço 9. As três leituras são sustentadas por pesquisadores sérios. Nenhuma é segura.
Eram economias, não ausências
O hábito de descrever a América do Norte pré-contato pelo que lhe faltava é um mau hábito, e distorce este registro em particular, porque a história da Vinlândia é a de uma cultura receptora que não precisava de nada do que os emissores traziam.
Os povos da costa da Terra Nova e do Labrador mantinham no século XI economias de caça a mamíferos marinhos e ao caribu de considerável sofisticação técnica. Dispunham de barcos de pele capazes de navegar em mar aberto, de arcos, de instrumental de pedra polida e osso, de um conhecimento fino do gelo marinho, de ciclos sazonais que deslocavam a população entre as manadas de caribu do interior e as colônias costeiras de focas e aves e — no caso beothuk, documentado mais tarde — de um uso elaborado do ocre vermelho sobre corpos, ferramentas, canoas e sepulturas, que deu ao povo seu apelido inglês 10. Suas canoas de casca de bétula tinham bordas altas, próprias para as travessias costeiras. Não estavam à espera de nada.
O que não tinham era metalurgia, rebanho domesticado além do cão, agricultura de cereais, vela e escrita. Os nórdicos tinham as cinco coisas. No relato padrão de uma transmissão, essa assimetria é o motor: a parte que detém a técnica mais dura a transmite, e a cultura receptora reconstrói-se em torno do presente. Foi o que aconteceu quando o arcabuz chegou a Tanegashima e quando o alfabeto chegou ao Egeu. Não foi o que aconteceu aqui, e a razão do fracasso é a substância deste registro.
O lado demográfico da assimetria corria no sentido inverso, e corria com força. As estimativas populacionais para o nordeste pré-contato são contestadas e continuarão a sê-lo, mas as ordens de grandeza não estão em dúvida: os povos da Terra Nova, do Labrador e do golfo de São Lourenço contavam-se no século XI aos milhares ou dezenas de milhares, ao passo que os nórdicos da Groenlândia que em princípio poderiam ter seguido os navios eram cerca de quinhentos, dos quais talvez noventa jamais estiveram juntos em Epaves Bay 16. Toda transmissão deste atlas que remodelou uma cultura receptora percorreu um gradiente: de força, de número ou de desejo. Nesta costa o gradiente de força apontava para os nórdicos, o de número apontava para os nórdicos, e o do desejo — o único que sozinho poderia ter levado adiante uma transmissão — foi bloqueado pelos próprios emissores.
A palavra skræling
O nórdico antigo skrælingi, plural skrælingar, é a palavra que ambas as sagas da Vinlândia empregam para toda pessoa indígena que os nórdicos encontram, da Terra Nova ao Markland, e não é neutra. Sua derivação mais provável remete a uma raiz que significa ressecado, enrugado ou encolhido; as fontes islandesas aplicarão depois a mesma palavra aos inuítes thule encontrados na Groenlândia. Ela achata ao menos três povos sem parentesco entre si numa única categoria de desprezo, e esse achatamento é ele próprio uma prova: os nórdicos não eram suficientemente curiosos a respeito das pessoas que encontravam para distingui-las.
A Saga de Erik, o Vermelho oferece uma descrição hostil no mesmo registro. Os nórdicos veem primeiro embarcações — “nove canoas feitas de peles” de onde se brandiam “varas semelhantes a focinhos” — e depois, de perto, pessoas: “Eram homens baixos, de má aparência, com o cabelo em desordem sobre a cabeça; tinham olhos grandes e faces largas” 6. Essa é a primeira descrição física escrita de um indígena americano por um europeu. É uma caricatura redigida por alguém que, no máximo, repetia uma história de duzentos anos, e fixou um tom que perdurou.
Uma colônia de quinhentas almas manda navios para o oeste
Groenlândia: uma cultura agrícola sem floresta e sem minério
As travessias da Vinlândia não partiram da Noruega nem da Dinamarca. Partiram de uma colônia com duas gerações de existência instalada nos fiordes do sudoeste groenlandês, fundada por volta de 985 por Erik, o Vermelho, após seu banimento da Islândia, e o problema específico dessa colônia explica sozinho todas as travessias 13.
Os nórdicos da Groenlândia eram islandeses por descendência e por direito: criavam bois, ovelhas e cabras em magras pastagens de fiorde, caçavam foca e caribu e exportavam marfim de morsa. Sua população na virada do milênio era da ordem de quinhentas pessoas; no auge do século XIII, o Assentamento Oriental em torno do Eiríksfjörður e do Einarsfjörður, somado ao menor Assentamento Ocidental perto da atual Nuuk, pode ter sustentado de dois a três mil 13. Faltavam-lhes estruturalmente dois materiais que toda a sua técnica pressupunha. A Groenlândia não tem floresta digna do nome, e cada navio, cada viga de telhado e cada aduela de barril tinha de ser madeira de deriva, madeira importada ou madeira que era preciso ir buscar. A Groenlândia não tem minério de ferro acessível, e o ferro era o material que fazia de um navio nórdico um navio nórdico.
A única exportação de valor da colônia era o marfim de morsa, caçado no verão nos distantes terrenos do Norðrsetur, ao longo da costa ocidental, e embarcado para leste via Islândia e Noruega, onde pagava o ferro, o grão, os paramentos de igreja e o aparelho de navio que os groenlandeses não sabiam fabricar 13. Essa é a forma da economia: uma sociedade agrícola europeia funcionando com um subsídio de caça ártica, na ponta da mais longa cadeia de abastecimento do Atlântico Norte medieval, permanentemente a uma década ruim da insolvência. A reconstituição de Kirsten Seaver ressalta que os groenlandeses não eram gente marginal agarrada à borda do mundo: eram uma comunidade em funcionamento, construtora de igrejas, pagadora de dízimos e alfabetizada em latim, que apenas estava situada onde os dois materiais mais comuns do instrumental europeu não existiam.
Uma comunidade nessa posição tem duas opções quando precisa de madeira e ferro: comprá-los da Noruega na outra ponta do comércio de marfim, ou ir buscá-los. O Labrador fica a 700 quilômetros dos fiordes groenlandeses. A Noruega fica a 3.000.
Assim os navios foram para o oeste, e o primeiro de que há registro foi por acidente.
A recusa de Bjarni e a compra de Leif
A Saga dos Groenlandeses — a mais antiga e, para a maioria dos pesquisadores, a mais confiável das duas sagas da Vinlândia — abre a sequência com Bjarni Herjólfsson, desviado de rota na travessia da Islândia à Groenlândia e levado ao longo de três costas desconhecidas 5. Ele as descreve em ordem: uma terra plana e arborizada, depois uma segunda de caráter semelhante, depois uma terceira “alta e montanhosa, com geleiras sobre ela” 6. Bjarni não desembarca em nenhuma. Procura o pai, encontra-o em Herjólfsnes, e as sagas registram que foi censurado por sua falta de curiosidade.
Leif Eriksson comprou o navio de Bjarni e refez a rota ao contrário, e o ato de nomear é um dos mais puramente comerciais da literatura medieval. Cada terra recebe o nome daquilo que dela se pode extrair. A costa das geleiras torna-se Helluland, terra de lajes. A costa arborizada torna-se Markland, terra de florestas: “Por seus recursos esta terra será nomeada, e chamar-se-á Markland” 6. A terceira torna-se Vinlândia. Não são nomes de descobridor. São nomes de um levantamento de suprimentos.
O ano de 1021, ao ano exato
Durante quatro décadas depois que Helge Ingstad e Anne Stine Ingstad identificaram as estruturas nórdicas de L'Anse aux Meadows em 1960, a datação do sítio foi um intervalo de radiocarbono: em torno da virada do milênio, com margem de uma vida humana 78. Em 2021 isso mudou.
Margot Kuitems, Birgitta Wallace e colegas tomaram três peças de madeira trabalhada dos depósitos nórdicos — abeto, provavelmente abeto-balsâmico, e um zimbro ou tuia —, cada uma das quais “havia sido modificada por ferramentas de metal, o que se evidencia em seus cortes caracteristicamente limpos e de baixo ângulo de entrada”, o que naquela costa e naquele período significa nórdicas, pois nenhuma população indígena de lá trabalhava madeira com metal 3. Em 993 um evento de radiação cósmica, quase com certeza uma tempestade solar, elevou o radiocarbono atmosférico em cerca de nove partes por mil no mundo inteiro, deixando um pico visível nos anéis de crescimento de todos os continentes. A equipe localizou o pico de 993, contou para fora até o anel colado à casca e obteve vinte e nove. As três árvores foram derrubadas no ano de 1021.
Vale citar exatamente o resumo que o próprio artigo faz do que isso significa: “Nossa nova datação estabelece um marco para o conhecimento europeu das Américas e representa o primeiro momento conhecido em que os seres humanos circundaram o globo” 3. A segunda parte é a afirmação maior. As populações humanas haviam se espalhado da África para leste através da Eurásia e chegado às Américas pela ponte de Bering; em 1021 um ramo que ia para oeste encontrou a borda distante de outro que ia para leste, e a espécie fechou um círculo que estivera aberto por cinquenta mil anos.
Um estudo de 2019 de Paul Ledger, Linus Girdland-Flink e Véronique Forbes complica ligeira e utilmente essa limpeza. A modelagem bayesiana do radiocarbono antigo do sítio situa o início da atividade nórdica entre 910 e 1030 d.C. e seu término entre 1030 e 1145, e a equipe identificou uma camada cultural até então desconhecida, datada dos séculos XII ou XIII, contendo pólen de nogueira e de lúpulo e espécies de besouros conhecidas em contextos nórdicos da Groenlândia 4. Sua leitura é cautelosa: aponta para “atividade nórdica esporádica além do início do século XI”, e não para povoamento contínuo, e levanta a possibilidade de que L'Anse aux Meadows “pudesse ter sido uma zona de interação compartilhada” 4.
Oito edifícios, noventa pessoas, menos de uma década
O que o solo guarda não é uma colônia. É uma base.
| Elemento | Dados |
|---|---|
| Construções | Oito, em três conjuntos: três salões de habitação, quatro oficinas, uma forja |
| Técnica | Turfa sobre armação de madeira, à maneira islandesa e groenlandesa |
| Metalurgia | Redução de ferro de pântano e trabalho de forja — a primeira redução de ferro nas Américas |
| Barcos | Depressões costeiras interpretadas como abrigos de embarcação; rebites de ferro em quantidade |
| Objetos pessoais | Um alfinete anelar de bronze de tipo nórdico; um fuso de esteatita |
| Ocupação | Da ordem de sessenta a noventa pessoas no máximo |
| Duração | Menos de uma década de uso, provavelmente muito menos no cômputo |
O fuso importa mais do que seu tamanho sugere. Fiar era trabalho de mulher na sociedade nórdica, e sua presença no sítio é um dos indícios mais firmes de que as travessias da Vinlândia levavam mulheres além de tripulação — o que as sagas afirmam de forma independente ao nomear Gudrid Thorbjarnardóttir, que deu à luz na Vinlândia um filho chamado Snorri, e Freydís Eiríksdóttir 12.
Birgitta Wallace, que trabalhou no sítio para o Parks Canada ao longo de quatro décadas, estabeleceu a interpretação que se manteve: L'Anse aux Meadows foi um portal, uma base de invernada e um ponto de transbordo à entrada de uma região muito mais ampla; não a Vinlândia das sagas, mas a porta que a ela conduzia 216.
As nozes-brancas e até onde os navios desceram
O objeto mais informativo do sítio é uma noz.
Três nozes-brancas — Juglans cinerea — e um nó de nogueira-branca trabalhado foram recolhidos nos depósitos nórdicos 12. A nogueira-branca nunca cresceu na Terra Nova. Não cresce em centenas de quilômetros ao redor de L'Anse aux Meadows. Os povoamentos silvestres mais próximos ficam no nordeste do Novo Brunswick e no vale do São Lourenço, e ocupam quase exatamente a mesma área que a videira silvestre, com a qual dividem a estação de maturação. Alguém as levou para o norte.
A noz-branca faz, portanto, o que nenhuma frase de saga é capaz de fazer: prova materialmente que os nórdicos que operavam a partir de Epaves Bay alcançaram o sul do golfo de São Lourenço, grosso modo a região do Miramichi e da baía de Chaleur, onde crescem as videiras e onde estão presentes os bancos de areia, os rios e as madeiras de lei da descrição do Hóp nas sagas 12. A Vinlândia não era um lugar. Era um litoral de várias centenas de quilômetros, do qual a base terra-novense constituía a dobradiça setentrional.
A explicação que Wallace dá para o abandono desse litoral é o que se escreveu de mais lúcido sobre o episódio em termos econômicos. A Vinlândia oferecia uvas e madeira, ambas disponíveis na Europa; o que lhe “faltava” eram “os demais elementos essenciais: metais de luxo, especiarias, tecidos, armas e armaduras — e os laços familiares, políticos, religiosos e pessoais” 16. A travessia desde a Groenlândia ultrapassava 2.500 quilômetros, mais longe do que a rota até a Noruega. E a colônia groenlandesa dispunha de terra abundante e não explorada em casa e não tinha nada parecido com a população necessária para trabalhar uma segunda fronteira.
O que mudou e o que foi substituído
Aqui o registro rompe o padrão de todas as demais entradas deste atlas, e vale enunciar a ruptura sem enfeite. O que mudou na cultura receptora foi, até onde cinco décadas de escavação permitem determinar, nada.
O comércio que consta do registro
Houve comércio, e ambas as sagas o descrevem com detalhe suficiente para serem críveis.
Na Saga de Erik, o Vermelho, o grupo de Thorfinn Karlsefni no Hóp comercia com gente que chega pela água e quer uma só coisa: “esse povo, em suas compras, preferia o pano vermelho; em troca tinha peles a dar, e couros inteiramente cinzentos” 6. Os nórdicos ficaram sem tecido e passaram a cortá-lo em tiras cada vez mais estreitas; a saga anota, com o que se lê como admiração diante de um bom mercado, que “os skrælingar davam por ele tanto quanto antes, ou mais” 6. Na Saga dos Groenlandeses a moeda é o laticínio: Karlsefni “pediu às mulheres que lhes trouxessem produtos lácteos, e assim que viram os lácteos não quiseram comprar outra coisa”, e o que veio no sentido inverso foram “peles cinzentas, zibelina e peles de toda espécie” 6.
Lido com atenção, trata-se de uma transação de comércio de peles exatamente do tipo que dominaria essa mesma costa a partir do século XVI — peles para fora, tecidos e novidades para dentro —, ocorrida quinhentos anos antes, em miniatura, e durando uma única estação.
O embargo de Karlsefni
Resta ainda uma cláusula, e é a frase de maior consequência das duas sagas.
“Os skrælingar desataram então seus fardos e os ofereceram, querendo trocá-los por armas, mas Karlsefni proibiu seus homens de negociar armas com eles” 6.
Os negociantes indígenas sabiam o que queriam. Não era pano nem queijo; foi com isso que se contentaram. Queriam ferro, e a chefia nórdica compreendeu de imediato que o ferro era a única mercadoria que não podia atravessar, porque o ferro constituía a totalidade da vantagem nórdica num lugar onde estavam em inferioridade numérica. O primeiro embargo de armas da história das Américas foi decretado antes de terminar o primeiro inverno, e recaiu sobre o ferro.
Essa decisão é a dobradiça de todo o registro. Os nórdicos chegaram portando a técnica que, cinco séculos depois, reestruturaria o continente. Retiveram-na conscientemente. A transmissão fracassou em parte porque os emissores se recusaram a realizá-la — e a recusa nos diz algo que as sagas não formulam: ambas as partes compreendiam perfeitamente o que estava em jogo na troca. As pessoas da praia não se maravilhavam diante de prodígios. Avaliavam um parceiro comercial, identificavam o único item que valia a pena e o pediam. Foram recusadas, e continuaram a se recusar a se interessar pelos substitutos.
O que talvez tenha atravessado: os indícios contestados
Três conjuntos de indícios foram apresentados para sustentar que material nórdico chegou a mãos indígenas, e os três são contestados. O atlas dá a cada um sua forma mais forte e sua objeção.
- O material do Helluland. O Helluland Archaeology Project de Patricia Sutherland examinou quatro sítios Dorset — Nanook, no vale de Tanfield, ao sul da ilha de Baffin; Nunguvik, ao norte de Baffin; Avayalik, no norte do Labrador; Willows Island, na baía de Frobisher — e relatou fio fiado de estilo escandinavo, madeiras entalhadas e decoradas, pedras de amolar de tipo europeu com traços de liga de cobre e de ferro reduzido, uma pá de osso de baleia de forma nórdica groenlandesa, gravetos de contagem, pelo de rato do Velho Mundo e construções de pedra e turfa 12. Sutherland lê nisso um contato sustentado, talvez um entreposto. A objeção é seca: o Museu Real de Ontário qualifica os objetos apenas como indício “possível” de contato, e críticos concluíram que “não parece haver evidência arqueológica convincente de que o contato tenha ocorrido”. A disputa não foi resolvida e tornou-se institucionalmente amarga.
- O penny do Maine. Um penny de prata de Olaf Kyrre da Noruega, cunhado entre 1065 e 1080, recolhido em 1957 por um escavador amador no sítio Goddard, em Naskeag Point, no Maine — um assentamento indígena com ampla rede de trocas, ocupado por volta de 1180-1235. Kolbjørn Skaare, da Universidade de Oslo, identificou a moeda e a publicou em 1979 15. A moeda é indiscutivelmente autêntica. Sua procedência não é: foi retirada sem controle arqueológico por um colecionador, e a leitura de um depósito fraudulento continua viva.
- A camada de sobreposição de L'Anse aux Meadows. O depósito dos séculos XII-XIII descrito em 2019, com seus ecofatos de associação nórdica assentados num horizonte que pode ser de filiação indígena, é o mais recente e o mais cauteloso dos três. Seus próprios autores o descrevem como algo que levanta “mais perguntas do que respostas” 4.
Note-se o que não figura nesta lista: um único objeto nórdico escavado com segurança em contexto indígena intacto na Terra Nova, e uma única adoção indígena de técnica nórdica em qualquer lugar.
O que não atravessou: o registro da cultura receptora
A prova negativa é a mais sólida deste registro, e é de uma nitidez incomum.
A sequência de Little Passage na ilha da Terra Nova corre sem interrupção do século XII aproximadamente até o contato europeu do XVI, e daí aos beothuk do período histórico, e não mostra ferro algum, nenhuma forma de origem nórdica, nenhuma mudança de instrumental, nenhuma mudança no padrão de assentamento e nenhuma descontinuidade que alguém tenha conseguido atribuir aos acontecimentos de 1021 410. Nunca se identificou com segurança um empréstimo lexical nórdico no beothuk, no innu-aimun ou no mi'kmaq. Nenhuma tradição oral indígena do encontro foi recolhida que os pesquisadores aceitem como independente das sagas, embora Kolodny sustente que certas tradições wabanaki sobre estrangeiros portadores de pedra preservem algo dela 9. Em termos materiais, a passagem nórdica pela Terra Nova é quase arqueologicamente invisível do lado indígena.
Nenhuma das duas condições existia aqui. As culturas receptoras queriam ferro e o tiveram negado; não queriam pano e queijo o bastante para se reorganizarem em torno deles. E os nórdicos não podiam obrigar, porque eram sessenta ou noventa na ponta de uma linha de abastecimento de 2.500 quilômetros, e nos litorais que sondavam havia populações maiores em várias ordens de grandeza. Wallace julga que só o leste do Novo Brunswick abrigava uma população mi'kmaq densa o suficiente para oferecer “resistência formidável” a qualquer avanço nórdico 16.
O que mudou do lado nórdico
A única cultura mensuravelmente alterada pelas travessias da Vinlândia foi a que as empreendeu, e mesmo aí a mudança foi informacional, e não material.
A Vinlândia entrou no registro escrito do norte da Europa e ali ficou. Adão de Bremen, redigindo por volta de 1075 sua Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum sob a autoridade do rei Sven Estridsen da Dinamarca, dá notícia de uma ilha do oceano “chamada Winland, porque ali cresce a videira selvagem e dá o melhor vinho”, onde “as colheituras brotam em abundância sem terem sido semeadas” 18. Essa notícia, escrita apenas cinquenta anos após a derrubada das árvores de Epaves Bay, é a mais antiga referência escrita que se conserva ao continente americano vinda de alguém do hemisfério oriental. Ocupa quatro frases, e dela nada decorreu por quatrocentos anos.
O conhecimento não se tornou um projeto. Tornou-se um topônimo numa crônica e, dois séculos depois, duas sagas.
Vale ser preciso sobre por que nada se seguiu, porque as respostas habituais estão erradas. Não foi que os nórdicos esquecessem: o registro analístico de 1347 prova que não. Não foi que a rota se perdesse: o Markland ficava a uma semana dos fiordes groenlandeses. Nem foi, principalmente, que os skrælingar fossem hostis, embora a conclusão de Karlsefni assim afirme. Foi que a única sociedade que possuía ao mesmo tempo os navios e o conhecimento geográfico para agir sobre a Vinlândia contava algumas centenas de pessoas, já estava plenamente ocupada em manter dois assentamentos na Groenlândia e não tinha excedente demográfico, nem Estado, nem capital, nem instituição capaz de montar um projeto colonial. O conhecimento repousava no único lugar da Europa que não podia usá-lo. Quando a própria Groenlândia sucumbiu — o Assentamento Ocidental desaparecido em meados do século XIV, o Oriental silencioso depois da década de 1450 —, o conhecimento sucumbiu com ela, sobrevivendo apenas como literatura, na Islândia 13.
Markland: três séculos de extração discreta
Um fio prossegue, no entanto, e é o que revela em que consistia de fato a relação.
Os anais islandeses registram, sob o ano de 1347, a chegada à Islândia de um pequeno navio vindo da Groenlândia, desviado da rota de retorno, com tripulação de dezessete ou dezoito homens e um carregamento de madeira tomada no Markland 17. É uma anotação de rotina sobre uma travessia de rotina, e é exatamente por isso que importa. Trezentos e vinte e seis anos depois de 1021, groenlandeses ainda cruzavam o estreito de Davis para cortar madeira na costa do Labrador, e a coisa era banal o bastante para que o analista só a mencionasse porque o navio acabou no país errado.
Essa é, numa frase, a forma da relação nórdica com a América do Norte: nem povoamento, nem conquista, nem intercâmbio, mas uma extração de madeira pequena, persistente e não documentada, numa costa cujos habitantes não tiveram voz no assunto. O registro de 1347 é o último testemunho escrito de um europeu alcançando as Américas antes de Colombo.
Qual foi o custo
A transmissão fracassou. As mortes, não.
Oito homens sob três barcos
A Saga dos Groenlandeses situa o episódio na expedição de Thorvald Eriksson, a segunda das travessias da Vinlândia, um ou dois anos depois da de Leif. O grupo de Thorvald dobra um cabo de que ele gosta o bastante para dizer, na formulação da saga: “Aqui é belo, e aqui eu gostaria de construir minha casa.” Depois:
“Voltaram então ao navio e viram três montículos na areia, terra adentro a partir do cabo, e foram até lá para investigar e viram três barcos de pele e três homens sob cada um. Dividiram seu grupo e capturaram todos, exceto um que escapou com seu barco. Mataram os outros oito e então retornaram ao cabo” 6.
Nove homens dormiam, ou se abrigavam, sob três barcos de pele virados numa praia. Os nórdicos dividiram-se em três grupos para que os três barcos fossem tomados ao mesmo tempo, o que significa que a ação foi planejada e não fruto de pânico. Apoderaram-se dos nove. Um escapou. Mataram os oito restantes.
Nenhum motivo é fornecido — nem roubo, nem ameaça, nem provocação, nem sequer a fórmula da ofensa à honra que a narrativa das sagas islandesas costuma oferecer para tornar uma morte inteligível. Os homens são achados, tomados e mortos, e a narrativa passa ao retorno ao cabo. É o primeiro assassinato documentado de indígenas norte-americanos por europeus, e sua qualidade literária mais impressionante é que o texto não julga que ele exija explicação.
Krossanes
A represália veio no mesmo dia. Uma força numerosa de barcos de pele desceu o fiorde; os nórdicos defenderam-se atrás dos escudos fixados à borda; e Thorvald recebeu uma flecha pela fresta entre o costado do navio e o escudo.
“Recebi um ferimento sob o braço”, diz ele na saga, “e uma flecha voou entre o costado do navio e o escudo, sob meu braço, e aqui está a flecha, e esta será minha morte. Aconselho-vos agora a preparar vossa volta o quanto antes, e me levareis àquele cabo que achei mais próprio para o assentamento… Ali me sepultareis e poreis cruzes à minha cabeça e aos meus pés, e o chamareis Krossanes daqui em diante” 6.
O cabo das cruzes. O primeiro europeu a morrer no continente norte-americano é sepultado sob uma cruz cristã em terra que ele próprio escolhera, numa sequência em que a própria saga coloca essa escolha imediatamente antes da matança de oito daqueles que ali viviam. O texto dedica uma página inteira ao ritual fúnebre de um único nórdico e uma oração à morte de oito homens indígenas. Esse desequilíbrio não é comentário do atlas: é a arquitetura própria da fonte primária, e todos os relatos da Vinlândia escritos desde então a herdaram.
O Hóp e Freydís com a espada
A Saga de Erik, o Vermelho registra o segundo encontro violento, no Hóp, durante a expedição de Karlsefni, e este começa como comércio e vira.
Um touro do grupo de Karlsefni “saiu correndo do bosque e mugiu alto”, e os negociantes se dispersaram; quando voltaram, foi em número e em armas, “uma grande multidão de barcos de skrælingar, descendo sobre eles como uma correnteza”, com “fundas ou catapultas” lançando algo pesado o bastante para desmanchar uma linha encouraçada 6. Os nórdicos romperam formação e fugiram. A debandada foi detida por Freydís Eiríksdóttir, grávida e incapaz de acompanhar, que apanhou a espada de um morto, descobriu o seio e o golpeou com a lâmina de chapa: “Diante disso ficaram com medo, correram para seus barcos e fugiram” 6.
A contagem de baixas da saga é precisa e pequena: “Dois dos homens de Karlsefni tombaram, e quatro dos skrælingar” 6. E a conclusão que Karlsefni tira é o epitáfio de todo o empreendimento: que “embora a terra fosse escolhida e boa, a guerra e o terror pesariam sempre sobre eles”, e que por isso deveriam voltar para casa 6.
Resta mais uma morte a lançar, e é de nórdicos contra nórdicos. A Saga dos Groenlandeses atribui a Freydís uma expedição posterior em sociedade com dois irmãos islandeses, Helgi e Finnbogi, que terminou quando ela provocou uma desavença e mandou amarrar e matar o grupo deles: “Todos os homens foram mortos, mas as mulheres ficaram, e ninguém quis matá-las. Então Freydís disse: ‘Ponham um machado em minha mão.' Assim se fez, e ela matou ali as cinco mulheres, abatendo-as ela mesma” 6. Cinco mulheres, mortas a machado pela filha de Erik, o Vermelho, na Vinlândia. Sejam as sagas o que forem no mais, não são um relato heroico.
Dois meninos tomados no Markland
O último ato documentado das travessias da Vinlândia é um sequestro, e é o fato menos conhecido deste registro.
De volta para casa, os navios de Karlsefni aportaram no Markland — a costa do Labrador — e encontraram em terra um grupo pequeno: um homem barbado, duas mulheres, dois meninos. Os nórdicos levaram os dois meninos. Os adultos escaparam. A saga informa então, sem comentário, o que se fez com eles: “Ensinaram-lhes sua língua e os batizaram” 6. Registra seu testemunho em nórdico — que a mãe se chamava Vætilldi e o pai Uvægi, que dois reis governavam seu povo, de nomes Avaldamon e Avaldidida — e registra que os navios os levaram à Groenlândia para invernar na casa de Erik 6.
Duas crianças foram arrancadas de uma praia do Labrador por estranhos armados, transportadas para o outro lado do estreito de Davis, despojadas de sua língua e de sua religião e usadas como informantes. Isso aconteceu quatrocentos e setenta e um anos antes de Colombo embarcar cativos taínos da Hispaniola para a Espanha. Nada mais se sabe deles. As sagas não registram seus nomes originais — apenas os nomes dos pais de quem foram tirados.

A conta, feita
A prática do atlas é contar, então aqui está a conta. O custo humano documentado da transmissão da Vinlândia, segundo as duas sagas, é o seguinte:
| Episódio | Mortos | Levados |
|---|---|---|
| Krossanes, expedição de Thorvald | 8 homens indígenas | — |
| Krossanes, represália | Thorvald Eriksson | — |
| Hóp, expedição de Karlsefni | 4 indígenas, 2 nórdicos | — |
| Markland, viagem de volta | — | 2 meninos indígenas |
| Expedição de Freydís, interna | Helgi, Finnbogi e seus homens; 5 mulheres nórdicas | — |
Doze indígenas mortos e duas crianças sequestradas, contra um tributo europeu de Thorvald, dois homens no Hóp e o grupo que Freydís destruiu. Medido contra a peste antonina ou o tráfico atlântico, isso é um erro de arredondamento, e o atlas não vai inflá-lo até torná-lo o que não foi. Medido como sequência, é exato: contato, comércio, recusa da técnica decisiva, matança não provocada, represália, batalha, sequestro, retirada. Todos os elementos do padrão posterior a 1492 estão presentes em 1021, na escala de doze, porque as condições demográficas que mais tarde fariam disso uma catástrofe continental ainda não existiam.
A conta que não é dos nórdicos
Os beothuk — descendentes da gente de Little Passage cujos depósitos se situam acima e abaixo da camada nórdica de L'Anse aux Meadows — deixaram de existir como povo no século XIX. Uma contagem inglesa de 1768 estimava-os em cerca de 350, talvez metade de um número anterior; em 1811 o registro era de 72 10. Em março de 1819 um grupo de colonos capturou uma mulher chamada Demasduit no lago Red Indian e matou seu marido Nonosabasut quando ele tentou impedi-los; rebatizada Mary March e retratada em St. John's por lady Henrietta Martha Hamilton, ela morreu antes do fim do ano. Sua sobrinha Shanawdithit, a última beothuk conhecida, morreu de tuberculose em St. John's em 6 de junho de 1829 10.
Este não é o custo da transmissão nórdica, e o atlas não vai lançá-lo à conta deles. As causas foram inglesas e dos colonos da Terra Nova: a expulsão dos rios de salmão e das áreas costeiras de caça à foca de que os beothuk dependiam, a violência deliberada, a tuberculose e oitocentos anos de distância de tudo o que aconteceu em 1021. A reconstituição de Ingeborg Marshall, que continua sendo a obra de referência, é do começo ao fim uma história do século XIX 10.
A distinção precisa ser feita explicitamente, porque a alternativa — deixar que um registro nórdico absorva uma catástrofe beothuk porque ambas ocorreram na mesma ilha — é exatamente o modo de falha que este atlas existe para evitar. Os custos pertencem às transmissões que os causaram. Este não pertence a esta. É consignado aqui porque quem o pagou é o mesmo povo cujos antepassados expulsaram os nórdicos, e porque um registro que mencionasse os beothuk apenas como figurantes de uma história viking cometeria seu próprio apagamento.
A posteridade do relato
O último custo da Vinlândia é o uso que dela se fez, e esse não é de modo algum do século XI.
A partir da década de 1830 as sagas da Vinlândia foram postas a serviço, nos Estados Unidos e no Canadá, de uma carta fundadora: a prova de uma chegada primeira, branca e protestante, oponível às reivindicações católicas e italianas sobre Colombo e, mais discretamente, à anterioridade indígena por inteiro. In Search of First Contact, de Annette Kolodny, é o tratamento definitivo do que ela chama de angústia anglo-americana da descoberta — o longo esforço de encontrar nas sagas uma fundação que excluísse tanto os imigrantes quanto quem já estava aqui 9. A pedra rúnica de Kensington, a torre de Newport, o Leif Erikson Day e uma prateleira inteira de livros oitocentistas argumentando que a América não foi descoberta por Colombo pertencem a essa história.
Seu emblema é o mapa da Vinlândia. Yale o apresentou em 1965, após sete anos de estudo, como um mapa do século XV que mostrava a Vinlanda Insula a oeste da Groenlândia. Em 2021 uma equipe de Yale dirigida por Raymond Clemens, curador da Beinecke, demonstrou por fluorescência de raios X e microespectroscopia Raman que os traços e o texto do mapa foram desenhados com uma tinta contendo titânio e bário — a assinatura de um pigmento de branco de titânio fabricado pela primeira vez na década de 1920. A declaração de Clemens não tinha ressalvas: “O mapa da Vinlândia é falso. Não há aqui dúvida razoável alguma” 19. Kirsten Seaver havia estabelecido a demonstração documental da falsificação dezessete anos antes 14.
Os nórdicos não conquistaram a América do Norte. Não a colonizaram, não a converteram, não a comerciaram até a dependência, não lhe transmitiram nada. Alcançaram-na, mataram nela doze pessoas, roubaram duas crianças, cortaram sua madeira por três séculos e voltaram para casa. O dano feito em nome deles foi feito novecentos anos depois, por gente que precisava que a história significasse algo que ela não significava.
What followed
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1021L'Anse aux Meadows torna-se o único sítio nórdico autenticado das Américas: oito construções de turfa sobre armação de madeira em três conjuntos, compostos por três salões de habitação, quatro oficinas e uma forja, ocupadas por cerca de sessenta a noventa pessoas durante menos de uma década.
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1021A forja de Epaves Bay reduz ferro de pântano e o trabalha ao fogo: a primeira redução de ferro realizada nas Américas, e uma técnica que os nórdicos depois se recusarão explicitamente a negociar.
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1021Três nozes-brancas e um nó de nogueira-branca trabalhado, de uma espécie que nunca cresceu na Terra Nova, provam que tripulações nórdicas alcançaram o sul do golfo de São Lourenço — aquela costa do Novo Brunswick onde a videira silvestre e a nogueira-branca dividem a mesma área.
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1005Oito homens indígenas são mortos pelo grupo de Thorvald Eriksson no lugar que os nórdicos depois chamarão de Krossanes: o primeiro assassinato documentado de indígenas norte-americanos por europeus. Thorvald morre de um ferimento de flecha na represália.
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1010Thorfinn Karlsefni proíbe seus homens de vender armas aos negociantes indígenas que as pedem: o primeiro embargo de armas da história das Américas, e a recusa deliberada que ajuda a fazer a transmissão fracassar.
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1010Dois meninos indígenas são sequestrados na costa do Markland, levados à Groenlândia, batizados e ensinados em nórdico antigo — um sequestro que precede em quatrocentos e setenta e um anos o embarque de cativos taínos para a Espanha por Colombo.
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1075Adão de Bremen registra a Winland na *Gesta Hammaburgensis* sob a autoridade do rei dinamarquês Sven Estridsen: a mais antiga menção escrita que se conserva do continente americano vinda do hemisfério oriental, e com quatro frases de extensão.
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1347Os anais islandeses registram um navio groenlandês desviado até a Islândia quando voltava do Markland com um carregamento de madeira, prova de que os groenlandeses ainda cruzavam o estreito de Davis para cortar madeira trezentos e vinte e seis anos depois de 1021, e último registro escrito de um europeu alcançando as Américas antes de Colombo.
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1960Helge e Anne Stine Ingstad identificam as estruturas nórdicas de L'Anse aux Meadows, pondo fim a quatro séculos de especulação sobre a localização da Vinlândia; o sítio é inscrito como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1978.
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2021Kuitems e colegas fixam a derrubada de três árvores do sítio no ano exato de 1021 por meio do pico de radiação cósmica de 993 registrado nos anéis de crescimento, estabelecendo a primeira data de precisão calendárica de uma presença europeia nas Américas.
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1965Yale apresenta o mapa da Vinlândia como documento do século XV; em 2021 a fluorescência de raios X e a microespectroscopia Raman revelam que sua tinta contém titânio e bário de um pigmento fabricado pela primeira vez na década de 1920, e a biblioteca o declara falsificado.
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1829Shanawdithit, a última beothuk conhecida, morre de tuberculose em St. John's em 6 de junho de 1829 — catástrofe colonial do século XIX que o atlas consigna aqui e se recusa explicitamente a lançar à conta da transmissão nórdica.
Where this lives today
References
- Wallace, Birgitta Linderoth. Westward Vikings: The Saga of L'Anse aux Meadows. St. John's: Historic Sites Association of Newfoundland and Labrador, 2006. en
- Wallace, Birgitta. "The Norse in Newfoundland: L'Anse aux Meadows and Vinland." Newfoundland and Labrador Studies 19, no. 1 (2003): 5-43. en
- Kuitems, Margot, Birgitta L. Wallace, Charles Lindsay, Andrea Scifo, Petra Doeve, Kevin Jenkins, Susanne Lindauer, Pinar Erdil, Paul M. Ledger, Veronique Forbes, Caroline Vermeeren, Ronny Friedrich, and Michael W. Dee. "Evidence for European Presence in the Americas in ad 1021." Nature 601, no. 7893 (2022): 388-391. en
- Ledger, Paul M., Linus Girdland-Flink, and Veronique Forbes. "New Horizons at L'Anse aux Meadows." Proceedings of the National Academy of Sciences 116, no. 31 (2019): 15341-15343. en
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- Ingstad, Anne Stine, and Helge Ingstad. The Norse Discovery of America. 2 vols. Oslo: Norwegian University Press, 1985. en
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- "Beinecke Library's Vinland Map Determined to Be a Fake." Yale University Library news release, 1 September 2021, reporting the X-ray fluorescence and Raman microspectroscopy analysis led by Raymond Clemens. en