INTELLIGENCE REPORT SERIES APRIL 2026 OPEN ACCESS

SERIES: ECONOMIC INTELLIGENCE

Minerais críticos — o novo petróleo: por que a diversificação se mede em décadas

A China controla 90 % do refino de terras-raras e 96 % dos ímãs de alto desempenho. Os controles de exportação de abril de 2025 instrumentalizaram essa hegemonia. Bilhões ocidentais não conseguem comprimir quatro décadas de vantagem industrial.

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Published9 April 2026
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A China controla 90 % do refino de terras-raras e 96 % dos ímãs de alto desempenho. Os controles de exportação de abril de 2025 instrumentalizaram essa hegemonia. Bilhões ocidentais não conseguem comprimir quatro décadas de vantagem industrial.

01

A escala da dependência
Por que 90 % não é uma fatia de mercado, mas um estrangulamento

A China refina aproximadamente 90 % de todas as terras-raras processadas no planeta — uma concentração de capacidade industrial sem paralelo em qualquer outra commodity estratégica. ✓ Fato comprovado O Global Critical Minerals Outlook 2025, da Agência Internacional de Energia (AIE) [1], confirma que a China é a refinadora dominante em 19 dos 20 minerais críticos analisados, com uma participação média de cerca de 70 % entre todas as categorias — e patamar significativamente superior no caso específico das terras-raras.

Os números são contundentes. A China controla aproximadamente 60 % da mineração de terras-raras, 90 % da separação e refino e 96 % dos ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB) do planeta [3]. ✓ Fato comprovado Tais ímãs não são componentes opcionais. São o núcleo funcional de cada motor de veículo elétrico, de cada gerador de turbina eólica, de cada sistema de mísseis guiados e de cada aparelho de ressonância magnética em operação. Sem eles, a transição energética trava e as linhas ocidentais de produção de defesa ficam mudas.

A produção global de óxidos de terras-raras nas minas alcançou uma estimativa de 390.000 toneladas em 2024, segundo o U.S. Geological Survey [2]. ✓ Fato comprovado Mas a tonelagem bruta obscurece a realidade estrutural. O minério precisa ser refinado antes de se tornar industrialmente útil — e é no gargalo do refino que reside a alavancagem chinesa. Os Estados Unidos produziram 45.000 toneladas de concentrado de terras-raras em 2024, avaliadas em US$ 260 milhões [2]. Quase tudo foi embarcado para a China para processamento.

~90 %
Fatia chinesa no refino global de terras-raras
AIE, 2025 · ✓ Fato comprovado
96 %
Fatia chinesa na produção de ímãs permanentes de NdFeB
CSIS, 2025 · ✓ Fato comprovado
390.000 t
Produção global de óxidos de terras-raras (est. 2024)
USGS, 2025 · ✓ Fato comprovado
19/20
Minerais críticos em que a China lidera o refino
AIE, 2025 · ✓ Fato comprovado

A concentração se intensifica, em vez de afrouxar. A AIE registra que a participação média dos três principais países produtores de minerais energéticos-chave subiu de 73 % em 2020 para 77 % em 2024 [1]. ✓ Fato comprovado As projeções para 2035 mostram a fatia média dos três maiores fornecedores de material refinado declinando apenas marginalmente — retornando, na prática, aos níveis de concentração de 2020, em vez de se diversificar de forma significativa. A dependência estrutural não é uma anomalia. É o equilíbrio.

Isso importa porque as terras-raras não são substituíveis do mesmo modo que, digamos, o gás natural pode substituir o carvão. Não existe alternativa ao neodímio em um ímã permanente de alto desempenho. Não há substituto para a capacidade do disprósio de manter o desempenho magnético nas temperaturas do interior de um motor de veículo elétrico. Não existe atalho para os ímãs de samário-cobalto nos sistemas de guiagem de mísseis que precisam operar em temperaturas extremas [9]. Os elementos são insubstituíveis, e o processamento, monopolizado.

O gargalo do refino

A vulnerabilidade estratégica não reside em quem extrai o minério do solo — reside em quem consegue separar 17 elementos quimicamente similares uns dos outros em escala industrial e com pureza comercial. A China levou quatro décadas para dominar essa química. Nenhuma nação ocidental a replicou. O gargalo não é geológico. É químico.

Considere as implicações a jusante. Mais de 90 % de todos os veículos elétricos vendidos no mundo utilizam transmissões construídas em torno de ímãs permanentes de NdFeB [3]. Cada turbina eólica offshore emprega entre 600 quilos e duas toneladas de ímãs de terras-raras em seu gerador de acionamento direto. Cada smartphone contém pequenas quantidades de neodímio, térbio e disprósio. A economia moderna não apenas usa terras-raras — está arquitetada em torno delas. A concentração do processamento em uma única jurisdição não é uma ineficiência de mercado. É um risco sistêmico.

O Japão aprendeu isso em 2010, quando a China cortou as exportações de terras-raras durante a disputa pelas ilhas Senkaku [10]. ✓ Fato comprovado Os fabricantes japoneses — Toyota, Hitachi, TDK — correram atrás de oferta. A lição levou Tóquio a investir bilhões em reciclagem, pesquisa de substituição e estocagem estratégica. Quinze anos depois, o Japão permanece dependente do refino chinês. O choque de 2010 não resolveu a vulnerabilidade estrutural. Apenas a revelou. O choque de 2025 a revelou de novo — desta vez para um público muito maior, com consequências muito mais graves.

A AIE alerta que um choque sustentado de oferta de metais para baterias poderia elevar os preços médios globais dos pacotes em 40 a 50 % [1]. ◈ Evidências sólidas Três quartos dos minerais críticos exibiram volatilidade de preços maior do que o petróleo, e metade foi mais volátil do que o gás natural. O mundo construiu uma transição energética sob a hipótese de uma oferta de terras-raras estável e acessível. Essa hipótese sempre foi uma aposta na boa vontade chinesa — e, em abril de 2025, Pequim cobrou a aposta.

02

A arquitetura do domínio
Quatro décadas de paciência estratégica

A supremacia chinesa nas terras-raras não foi um acaso geológico. Foi uma estratégia industrial deliberada, de várias décadas, iniciada com uma única frase de Deng Xiaoping em 1992: ✓ Fato comprovado “Há petróleo no Oriente Médio e há terras-raras na China” [10].

A estratégia se desenvolveu em três fases. Em primeiro lugar, Pequim declarou as terras-raras um “recurso estratégico” em 1990, proibiu o investimento estrangeiro no setor e concedeu rebates fiscais para a exportação aos produtores domésticos [10]. Em segundo lugar, engenheiros chineses — muitos formados em universidades ocidentais — aperfeiçoaram o processo de extração por solventes para separar elementos individuais de terras-raras em escala industrial. Em terceiro lugar, a China passou a oferecer aos fabricantes globais terras-raras processadas a preços impossíveis de igualar pelos produtores ocidentais, minando sistematicamente os concorrentes até que estes desaparecessem.

A estratégia funcionou. A mina norte-americana de Mountain Pass, na Califórnia — outrora a maior fonte mundial de terras-raras —, encerrou a produção em 2002, incapaz de competir com os preços chineses ou de cumprir as crescentes exigências ambientais dos Estados Unidos [10]. ✓ Fato comprovado Em 2009, a fatia chinesa da produção global de minério de terras-raras já alcançava 98 % [10]. O monopólio não era meramente comercial — era tecnológico. As empresas chinesas haviam acumulado décadas de conhecimento proprietário em química de separação, algo inexistente em qualquer outro lugar.

1949
Descoberta de Mountain Pass — Geólogos identificam depósitos de terras-raras em Mountain Pass, Califórnia. O sítio se torna a maior mina de terras-raras do mundo por quatro décadas.
1990
Declaração de recurso estratégico — A China declara as terras-raras “recurso estratégico”, proíbe o investimento estrangeiro e concede subsídios à exportação aos produtores domésticos.
1992
A visão de Deng Xiaoping — “Há petróleo no Oriente Médio e há terras-raras na China.” Pequim inicia um investimento sistemático de escala industrial em química de separação.
2002
Fechamento de Mountain Pass — Sem condições de competir com os preços chineses nem de cumprir a regulação ambiental dos EUA, Mountain Pass encerra a produção. A expertise ocidental em processamento se atrofia.
2009
Pico do monopólio — A China atinge 98 % da produção global de minério de terras-raras. Controle quase total da mineração, do refino e da fabricação de ímãs.
2010
Crise de Senkaku — A China restringe as exportações de terras-raras ao Japão em meio à disputa pelas ilhas. As cotas de exportação caem 37 %. Os preços globais sobem 608 % em dois anos.
2014
Decisão da OMC — A OMC condena as cotas chinesas de exportação de terras-raras. Pequim suspende as cotas, mas conserva o domínio do processamento, tornando a decisão em larga medida simbólica.
2017
Mountain Pass reabre — A MP Materials adquire e reabre Mountain Pass. Mas todo o concentrado é embarcado para a China para ser processado — a dependência apenas se desloca para a etapa a jusante.
abr. 2025
Controles de exportação — Onda I — Pequim impõe controles de exportação sobre 7 elementos pesados de terras-raras em retaliação às tarifas dos EUA. Os preços europeus atingem 6 vezes os níveis domésticos chineses em questão de semanas.
out. 2025
Controles de exportação — Onda II — O Ministério do Comércio amplia as restrições a produtos adicionais de terras-raras, equipamentos e tecnologias de processamento. O gargalo do conhecimento se aperta.
fev. 2026
Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos — 54 nações comparecem à cúpula sediada pelos EUA. Washington propõe uma zona de comércio preferencial com pisos de preço — a resposta multilateral mais ambiciosa até o momento.

A crise de Senkaku, em 2010, foi a primeira instrumentalização explícita. Quando o Japão prendeu o capitão de uma embarcação pesqueira chinesa próximo das disputadas ilhas Senkaku/Diaoyu, Pequim restringiu as exportações de terras-raras ao Japão por dois meses [10]. Simultaneamente, cortou as cotas de exportação em 37 %, autorizando apenas 30.259 toneladas para o mercado externo. O resultado foi imediato e devastador: os preços globais de importação saltaram de US$ 9.461 por tonelada em 2009 para US$ 66.957 em 2011 — alta de 608 % [10]. ✓ Fato comprovado

✓ Fato comprovado O domínio chinês das terras-raras foi construído por estratégia industrial deliberada, não por acaso geológico

Desde a declaração de Deng Xiaoping em 1992, passando por quatro décadas de produção subsidiada, externalização de custos ambientais e sistemática desestabilização de concorrentes ocidentais, a China construiu um monopólio de processamento que nenhum mecanismo de mercado consegue reverter rapidamente [10]. A OMC condenou as cotas chinesas de exportação de 2010 já em 2014 — mas Pequim havia transferido a alavancagem das cotas para a capacidade de processamento, tornando a decisão sem efeito prático.

A decisão da OMC em 2014 expôs os limites da governança comercial baseada em regras diante de uma estratégia industrial estrutural. A China removeu suas cotas explícitas de exportação — e nada mudou. A alavancagem nunca havia residido, de fato, nas cotas. Estava no fato de que 90 % da capacidade mundial de refino de terras-raras se situa dentro das fronteiras chinesas, e nenhum tribunal internacional pode obrigar Pequim a compartilhar essa capacidade [12].

A arquitetura do domínio tem ainda uma dimensão menos discutida: o capital humano. As universidades chinesas formaram milhares de metalurgistas, químicos de separação e engenheiros de processo em terras-raras ao longo de quatro décadas. Essa base de conhecimento não existe no Ocidente em escala remotamente comparável. O Chatham House conclui que a tecnologia de processamento ocidental está atrasada em relação à chinesa em décadas — não em anos [12]. ◈ Evidências sólidas Construir uma mina leva de 5 a 10 anos. Construir uma indústria de refino competitiva leva uma geração.

03

A instrumentalização
Abril de 2025 e a escalada dos controles de exportação

Em 4 de abril de 2025, o Ministério do Comércio da China impôs controles de exportação a sete elementos médios e pesados de terras-raras — samário, ítrio, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio e escândio —, além de todos os compostos, metais e ímãs correlatos. ✓ Fato comprovado A medida foi uma retaliação direta contra a escalada tarifária do presidente Trump sobre produtos chineses [4].

O impacto foi imediato e severo. Conforme os volumes de exportação desabavam em abril e maio de 2025, montadoras nos Estados Unidos, na Europa e no Japão lutavam para obter ímãs permanentes [4]. Algumas viram-se obrigadas a reduzir suas taxas de utilização. Outras pararam completamente. A disrupção não foi teórica — chegou na forma de fábricas silenciadas e linhas de produção vazias.

A Ford Motor Company tornou-se a vítima mais visível. A montadora paralisou sua fábrica do Explorer SUV em Chicago por uma semana, em maio de 2025, em razão da escassez de materiais de terras-raras [5]. ✓ Fato comprovado O CEO Jim Farley revelou, em seguida, a extensão completa: a Ford havia interrompido a produção por três semanas porque não conseguia obter ímãs de alto desempenho usados em alto-falantes, motores de bancos, motores de limpadores e atuadores de portas. Não se trata de componentes de luxo — são sistemas básicos do veículo.

Paramos por três semanas porque não conseguimos obter ímãs de alta potência. A oferta é do dia para o dia. Estamos solicitando licenças uma a uma ao Ministério do Comércio da China.

— Jim Farley, CEO da Ford Motor Company, junho de 2025

A paralisação da Ford não foi um episódio isolado. Grupos setoriais alertaram que a escassez de componentes dependentes de terras-raras — sensores, alternadores, pré-tensionadores de cintos de segurança — poderia paralisar linhas inteiras de produção na General Motors, na Toyota e na Volkswagen [5]. ◈ Evidências sólidas A vulnerabilidade vai muito além dos veículos elétricos. Os ímãs de terras-raras estão embutidos nos componentes mais corriqueiros dos automóveis modernos — cada carro em uma linha de montagem ocidental depende da capacidade chinesa de processamento.

A fragmentação de preços foi igualmente dramática. Os preços europeus de terras-raras atingiram até seis vezes os preços domésticos chineses nos meses subsequentes aos controles de abril [4]. ✓ Fato comprovado Configurou-se um mercado estruturalmente bifurcado: os fabricantes chineses operavam com insumos estáveis e baratos, enquanto seus concorrentes ocidentais enfrentavam preços voláteis e inflados. A assimetria competitiva não foi incidental — era o objetivo. Mesmo após a recuperação parcial dos volumes negociados, o diferencial de preços persistiu, erodindo sistematicamente a competitividade de custo dos produtos de terras-raras fabricados fora da China.

✓ Fato comprovado Os controles de exportação chineses de abril de 2025 criaram um mercado global de terras-raras estruturalmente bifurcado

Os preços europeus chegaram a seis vezes os patamares domésticos chineses. A AIE confirma que, mesmo após a recuperação parcial do comércio, o diferencial de preços persistiu — concedendo aos fabricantes chineses uma vantagem sistemática de custo sobre os concorrentes ocidentais em todas as categorias de produtos que utilizam ímãs de terras-raras [4].

Em outubro de 2025, Pequim aprofundou a escalada. O Ministério do Comércio anunciou controles adicionais que abrangem não apenas elementos e produtos de terras-raras, mas também equipamentos e tecnologias de processamento [11]. ✓ Fato comprovado Essa segunda onda foi qualitativamente diferente. Restringir minério e ímãs limita a oferta. Restringir tecnologia e equipamentos de processamento limita a capacidade de construir uma oferta alternativa. Foi o equivalente à OPEP não apenas reduzir a produção de petróleo, mas também proibir a exportação de sondas de perfuração.

O próprio mecanismo de licenciamento tornou-se uma ferramenta de alavancagem. O CEO da Ford, Farley, revelou que os pedidos de licenças de exportação eram analisados “um a um” pelo Ministério do Comércio da China — um gargalo burocrático que conferia a Pequim controle granular sobre quais empresas receberiam o suprimento e quais ficariam de fora [5]. Não se trata de um embargo — é algo mais sofisticado. É um sistema de permissões que força os fabricantes ocidentais a uma súplica individual, criando dependência no nível da empresa, e não apenas no nível nacional.

Os efeitos em cascata alcançaram além das montadoras. A indústria de eletrônicos de consumo reportou atrasos de componentes. Fabricantes de turbinas eólicas alertaram para desvios de prazo em projetos offshore no Mar do Norte e no Báltico. Empresas de equipamentos médicos sinalizaram preocupações quanto ao suprimento de ímãs para ressonância magnética. Os controles de abril de 2025 demonstraram que a dependência de terras-raras não se restringe a um único setor — permeia toda a base industrial das economias avançadas [4]. ◈ Evidências sólidas

O preço do óxido de praseodímio-neodímio subiu de aproximadamente ¥580.000 por tonelada no final de dezembro de 2025 para ¥748.700 — alta superior a 29 % em semanas [4]. ◈ Evidências sólidas Os ganhos acumulados no ano para os principais óxidos de terras-raras superaram 40 % no final de 2025 — um dos movimentos de preços mais expressivos no historicamente estável complexo das terras-raras. Instituições projetam que o mercado de terras-raras leves manterá um “equilíbrio apertado, com viés de escassez” ao longo de 2026, com preços provavelmente entre 15 % e 30 % acima dos níveis de 2025.

O embargo tecnológico

A expansão dos controles em outubro de 2025 para incluir equipamentos e tecnologia de processamento representa uma escalada qualitativa. Pequim não restringe mais apenas o fluxo de materiais processados — restringe agora o conhecimento e o maquinário necessários para construir uma capacidade alternativa de processamento. É a diferença entre fechar a torneira e arrancar a tubulação.

04

A equação da defesa
418 quilos por caça

Cada caça F-35 Lightning II — o programa de armamento mais caro da história — exige mais de 418 quilos de materiais de terras-raras. ✓ Fato comprovado Esses elementos estão embutidos nos ímãs permanentes da aeronave, nos sistemas de radar, nos revestimentos furtivos e nas tecnologias de guiagem de mísseis [9].

A dependência da defesa é absoluta, não marginal. O F-35 depende de dois tipos principais de ímãs de terras-raras. Os ímãs de samário-cobalto (SmCo) — cerca de 23 quilos por aeronave — são usados em aplicações de alta temperatura, inclusive cones de mísseis e componentes de motor. A China produz a totalidade do suprimento global de samário [9]. ✓ Fato comprovado Os ímãs de neodímio-ferro-boro, empregados em todos os sistemas de motores e atuadores da aeronave, dependem de neodímio, praseodímio e disprósio — todos sujeitos aos controles de exportação de abril de 2025.

O Departamento de Comércio dos EUA determinou que o país é quase 100 % dependente de importações para os tipos mais importantes de ímãs de terras-raras de alta qualidade [3]. ✓ Fato comprovado Em 2022, o programa do F-35 viveu um constrangimento público quando se revelou que seu motor exigia um ímã de terras-raras produzido exclusivamente na China. O Pentágono obteve, em seguida, uma dispensa para continuar utilizando componentes de origem chinesa — uma admissão tácita de que não havia alternativa.

A vulnerabilidade de 418 quilos

Uma plataforma que consome 418 quilos de terras-raras por unidade, com dependência crítica de ímãs de samário-cobalto provenientes exclusivamente da China, está hoje atrelada a um fluxo de materiais sobre o qual aquele país já impôs controles de exportação explicitamente vinculados à afiliação militar estrangeira. O CSIS projeta que as entregas do F-35 podem ficar 20 % a 30 % abaixo do planejado até meados de 2026.

A vulnerabilidade se estende por todos os sistemas de defesa ocidentais. Os ímãs de terras-raras são componentes críticos em destróieres da classe Aegis, em submarinos da classe Virginia, em mísseis antitanque Javelin, em munições de precisão guiada e em todas as gerações de equipamentos militares de comunicação e guerra eletrônica [3]. A dependência das Forças Armadas norte-americanas em relação a terras-raras processadas pela China significa que, em um cenário de conflito envolvendo o país asiático, o suprimento dos materiais necessários para construir os sistemas de armas destinados a dissuadir ou enfrentar esse mesmo conflito estaria sob o controle do adversário.

Não se trata de uma preocupação hipotética. Os controles de exportação de outubro de 2025 incluíram disposições que miram especificamente aplicações de uso final militar. Pequim passou a exigir dos exportadores a certificação de que os produtos de terras-raras não seriam empregados em sistemas militares estrangeiros — concedendo, na prática, ao Ministério do Comércio da China um poder de veto sobre quais programas de defesa, em qualquer lugar do mundo, poderiam ter acesso a terras-raras processadas [3]. ◈ Evidências sólidas

A escala do problema desafia soluções rápidas. Só o programa do F-35 prevê mais de 3.300 aeronaves encomendadas por nove nações parceiras. A 418 quilos por aeronave, completar o programa exige aproximadamente 1.380 toneladas de materiais de terras-raras — volume que, hoje, só pode ser fornecido via capacidade chinesa de refino [9]. Os programas de caças de sexta geração, atualmente em desenvolvimento nos EUA, no Reino Unido e no Japão, devem requerer quantidades ainda maiores de ímãs de alto desempenho para seus pacotes avançados de sensores e armas de energia dirigida.

O investimento do Departamento de Defesa dos EUA na MP Materials, em julho de 2025, foi motivado explicitamente por esse cálculo de defesa. Mas a expansão de capacidade planejada pela MP — de 1.000 para 10.000 toneladas anuais de ímãs acabados — levará anos para atingir produção plena [6]. No intervalo, cada F-35 que sai da linha de montagem da Lockheed Martin em Fort Worth depende de ímãs processados na China — país que já demonstrou tanto a disposição quanto o aparato regulatório para cortar a oferta.

05

O custo oculto
Destruição ambiental de Mianmar à Malásia

A cadeia global de suprimento de terras-raras se sustenta sobre uma devastação ambiental que raramente aparece nas análises estratégicas dos formuladores de políticas ocidentais. Das minas ilegais do estado de Kachin aos tanques de resíduos radioativos da Malásia, o custo real do processamento de terras-raras é externalizado para comunidades com o menor poder de resistência. ◈ Evidências sólidas

Mianmar tornou-se o caso mais flagrante. Desde o golpe militar de 2021, as exportações de terras-raras para a China cresceram cinco vezes, atingindo cerca de US$ 3,6 bilhões em 2024 [8]. ◈ Evidências sólidas Durante seis anos consecutivos, Mianmar tem sido o principal fornecedor de terras-raras à China em valor — respondendo por mais da metade do total importado por Pequim. A mineração se concentra no estado de Kachin, controlado por uma constelação móvel de senhores da guerra alinhados aos militares e por organizações armadas étnicas, com operações respaldadas por capital, equipamentos e expertise técnica chinesa.

A destruição ambiental está documentada por imagens de satélite. Entre 2018 e 2024, os municípios onde se concentra a mineração de terras-raras perderam aproximadamente 32.720 hectares de floresta subtropical e úmida — área equivalente à de Malta [8]. ✓ Fato comprovado Análises de água identificaram contaminação severa: níveis extremamente ácidos de pH, concentrações alarmantes de amônia, cloreto, elementos radioativos e metais pesados tóxicos. A contaminação não está contida — o lixiviado tóxico das minas não regulamentadas dos estados de Shan e Kachin tem poluído rios que correm para o norte da Tailândia, causando prejuízos estimados em US$ 40 milhões à agricultura, à pesca e ao turismo.

◈ Evidências sólidas A mineração de terras-raras em Mianmar provocou contaminação ambiental transnacional severa

Investigações da Yale E360 e da Mongabay documentam 32.720 hectares de desmatamento, contaminação severa da água com elementos radioativos e metais pesados e poluição transfronteiriça que alcança os rios da Tailândia — causando US$ 40 milhões em danos à agricultura e ao turismo [8]. Dezenas de trabalhadores morreram em deslizamentos atribuídos ao desmatamento em larga escala para operações de mineração.

O custo humano é direto. Em 2023 e 2024, a mídia local documentou a morte ou o desaparecimento de dezenas de trabalhadores em pelo menos três deslizamentos no estado de Kachin, atribuídos ao desmatamento em larga escala feito para limpar terreno destinado às minas e para fornecer lenha aos fornos usados para converter a lama sedimentar em óxidos secos de terras-raras [8]. Não se trata de operações formais de mineração com padrões de segurança — são escavações artesanais e semi-industriais conduzidas em condições de conflito armado, fora do alcance de qualquer autoridade regulatória.

A Malásia apresenta um caso diferente, mas igualmente perturbador. A Lynas Rare Earths, empresa australiana que opera a maior instalação de processamento de terras-raras fora da China, acumulou mais de 1,5 milhão de toneladas de resíduos radioativos em sua planta de Kuantan, na Malásia [13]. ✓ Fato comprovado A planta está assentada sobre uma turfeira reaterrada propensa a inundações, a poucos quilômetros do mar. Desde 2011, comunidades do distrito de Kuantan protestam contra o que descrevem como uma gestão insegura de resíduos radioativos — os resíduos contêm radionuclídeos de longa meia-vida, inclusive urânio e tório.

Em março de 2026, a Malásia renovou a licença de operação da Lynas por dez anos, mas determinou à empresa eliminar a geração de resíduos radioativos até 2031 [13]. A condição expressa a tensão fundamental no coração da diversificação das terras-raras: o processamento que as nações ocidentais não realizam em seu próprio território — em razão dos custos ambientais e sanitários — é terceirizado para países em que a fiscalização regulatória é mais fraca. A geografia da extração reproduz, com precisão, a geografia da impotência.

A geografia da extração

Todo esforço para diversificar o suprimento de terras-raras para longe da China esbarra no mesmo obstáculo: o processamento é inerentemente sujo e perigoso. O tório e o urânio radioativos coextraídos com as terras-raras têm de ir para algum lugar. A China assumiu o custo internamente. O Ocidente o terceiriza para Mianmar e a Malásia. A transição para a energia limpa está sendo construída, em parte, sobre tanques de resíduos radioativos em zonas úmidas tropicais e sobre encostas desmatadas em áreas de conflito.

O próprio histórico ambiental da China no processamento de terras-raras é severo. Décadas de mineração e refino na região de Bayan Obo, na Mongólia Interior — o maior depósito de terras-raras do mundo —, criaram um lago de rejeitos tóxicos com mais de 10 quilômetros quadrados, visível do espaço. O governo chinês gastou bilhões em recuperação ambiental, impondo a consolidação do setor em torno de seis empresas estatais, em parte para fazer cumprir os padrões ambientais [10]. Mas o dano de quatro décadas de processamento intensivo é geracional — e os custos da reparação recaem, em última instância, sobre as comunidades que viviam a jusante.

06

A resposta
Bilhões gastos, décadas necessárias

Os governos ocidentais mobilizaram capital em volume historicamente sem precedentes para romper o monopólio chinês no processamento de terras-raras. A questão não é se o dinheiro está sendo gasto — é se o dinheiro, sozinho, consegue comprimir um cronograma de desenvolvimento industrial de várias décadas para os anos que a urgência estratégica exige. ⚖ Contestado

A parceria do Departamento de Defesa dos EUA com a MP Materials, em julho de 2025, representa a intervenção isolada mais agressiva. O DoD pagou US$ 400 milhões por uma participação de 15 % — tornando o governo norte-americano o maior acionista da MP — e concedeu um empréstimo de US$ 150 milhões para a construção de uma planta de separação de terras-raras pesadas na Califórnia [6]. ✓ Fato comprovado O Pentágono também se comprometeu com um piso de preço para os produtos de terras-raras leves da MP e firmou compromissos garantidos de compra para todos os ímãs produzidos na próxima década. A garantia governamental ajudou a destravar mais de US$ 1 bilhão em financiamento privado adicional.

O plano de expansão da MP é ambicioso: ampliar a capacidade de produção de ímãs de 1.000 para 10.000 toneladas métricas por ano por meio de uma nova planta “10-X” com capacidade anual de 7.000 t e da expansão de sua planta Independence de 1.000 para 3.000 t [6]. Para se ter ideia, a China produz aproximadamente 240.000 toneladas anuais de ímãs permanentes de terras-raras. As 10.000 toneladas planejadas pela MP — caso atingidas — representariam cerca de 4 % da produção chinesa atual.

O Acordo-Quadro EUA-Austrália para Minerais Críticos, firmado em outubro de 2025, estabeleceu um pipeline de projetos de até US$ 8,5 bilhões, com financiamento conjunto de curto prazo de mais de US$ 3 bilhões previsto para os próximos seis meses [7]. ✓ Fato comprovado Cada país comprometeu ao menos US$ 1 bilhão em financiamento para projetos qualificados. A Lynas Rare Earths — principal produtora australiana de terras-raras — constrói uma planta de processamento em Kalgoorlie, na Austrália Ocidental, e uma unidade nos EUA com apoio do DoD, embora sua produção trimestral atual de cerca de 3.993 toneladas de óxido total de terras-raras permaneça uma fração da capacidade chinesa.

US$ 400 mi
Investimento acionário do DoD na MP Materials
MP Materials, jul. 2025 · ✓ Fato comprovado
US$ 8,5 bi
Pipeline de minerais críticos EUA-Austrália
Casa Branca, out. 2025 · ✓ Fato comprovado
€ 3 bi
Mobilização do Plano de Ação RESourceEU
Comissão Europeia, 2025 · ✓ Fato comprovado
54
Nações na Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos de 2026
Depto. de Estado dos EUA, fev. 2026 · ✓ Fato comprovado

A União Europeia trilhou um caminho paralelo, mas estruturalmente distinto. Em março de 2025, a Comissão Europeia adotou sua primeira lista de 47 Projetos Estratégicos voltados a reforçar a capacidade doméstica de matérias-primas [11]. O Plano de Ação RESourceEU mobilizou mais € 3 bilhões ao longo de doze meses, impôs prazos regulatórios mais rígidos para aprovação e determinou uma ação industrial mais coordenada. O Regulamento das Matérias-Primas Críticas (Critical Raw Materials Act) da UE também estabelece a meta de 25 % dos principais materiais para ímãs vindos da reciclagem até 2030 — alvo ambicioso, dado que a reciclagem atual responde por cerca de 1 % da produção global de ímãs de terras-raras [14]. ◈ Evidências sólidas

A dimensão multilateral acelerou em fevereiro de 2026, quando 54 países e a Comissão Europeia compareceram à Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos, sediada pelos EUA [15]. ✓ Fato comprovado Washington propôs uma zona de comércio preferencial com pisos de preço exequíveis — tarifas ajustáveis pensadas para proteger os países-membros da manipulação de preços chinesa. Onze acordos bilaterais foram assinados no evento, e as negociações foram concluídas com mais dezessete nações. Japão, UE e México foram as primeiras economias a manifestar interesse formal no arcabouço.

RiscoGravidadeAvaliação
Defasagem na capacidade de processamento
Crítico
A fatia chinesa de 90 % no refino não pode ser replicada em horizonte de curto prazo. MP Materials e Lynas, somadas, representam percentuais de um único dígito da capacidade chinesa. A defasagem de conhecimento em química de separação é geracional.
Disrupção da cadeia de suprimento de defesa
Crítico
As entregas do F-35 enfrentam déficit de 20 % a 30 % até meados de 2026. Os ímãs SmCo para guiagem de mísseis são fornecidos exclusivamente pela China. Não existe produção alternativa em qualidade de especificação militar.
Fragmentação de preços
Elevado
O diferencial de preços de 6 vezes entre os mercados chinês e europeu confere aos fabricantes chineses vantagem estrutural de custo em veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos — minando a competitividade industrial ocidental.
Embargo de transferência tecnológica
Elevado
Os controles de outubro de 2025 sobre equipamentos e tecnologia de processamento restringem a capacidade ocidental de construir um refino alternativo. Trata-se de uma estratégia de negação de capacidade, não apenas de uma restrição de oferta.
Fragmentação da resposta multilateral
Médio
A despeito da presença de 54 nações na Ministerial de 2026, os mecanismos de cumprimento permanecem indefinidos. O histórico sugere que a coordenação aliada em política de commodities se desgasta sob pressão de preços.

Os acordos de Kuala Lumpur, de outubro de 2025, agregaram uma dimensão sudeste-asiática. A Malásia comprometeu-se a não proibir nem impor cotas às exportações de terras-raras para os EUA e a acelerar o desenvolvimento de seu setor de minerais críticos em parceria com empresas norte-americanas [7]. Acordos semelhantes foram concluídos com a Tailândia. Mas a Malásia esclareceu, em seguida, que os acordos não concediam aos EUA acesso exclusivo às terras-raras — ressalva que sublinha os limites da diplomacia bilateral em um mercado no qual a alavancagem chinesa de processamento permanece o centro de gravidade.

07

O debate
Pode o Ocidente cavar uma saída?

A questão central em disputa na política de minerais críticos é se os esforços ocidentais de diversificação conseguirão romper o domínio chinês dentro de um horizonte estrategicamente relevante — ou se representam gestos caros que levarão décadas para alcançar o que Pequim realizou em uma geração. ⚖ Contestado

A tese otimista repousa sobre um momento genuíno de impulso. O investimento de US$ 400 milhões do DoD na MP Materials, o acordo-quadro de US$ 8,5 bilhões entre EUA e Austrália, o plano RESourceEU de € 3 bilhões da UE e a Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos com 54 países configuram uma resposta ocidental coordenada sem precedente histórico [14]. O capital privado está fluindo: a MP Materials alavancou as garantias governamentais em mais de US$ 1 bilhão em financiamento adicional. Os programas japoneses de mineração urbana recuperam terras-raras de resíduos eletrônicos. Novas tecnologias de extração — processamento com líquidos iônicos, biolixiviação — podem, com o tempo, contornar a expertise chinesa em extração por solventes.

A tese pessimista é estrutural. O Chatham House projeta que, mesmo em cenários otimistas, a fatia chinesa de mercado no processamento de terras-raras pode declinar apenas até cerca de 75 % em 2028 [12]. ◈ Evidências sólidas A defasagem entre mineração e processamento não é um detalhe — é todo o problema. A China investiu quatro décadas na construção de uma química de separação em escala industrial. As nações ocidentais tentam comprimir esse cronograma em anos, recorrendo apenas a desembolsos de capital. Mas dinheiro não cria expertise da noite para o dia. Não forma milhares de químicos de separação. Não constrói o conhecimento operacional que decorre de manejar uma planta de extração por solventes em escala industrial por décadas a fio.

O argumento a favor da diversificação ocidental

Investimento sem precedente
Os compromissos combinados de EUA-Austrália (US$ 8,5 bi), UE (€ 3 bi) e DoD (US$ 550 mi) representam o maior investimento coordenado em minerais críticos da história.
Alavancagem de capital privado
Garantias governamentais e pisos de preço atraem investimento privado substancial — só a MP Materials alavancou mais de US$ 1 bilhão além do aporte público.
Novos caminhos tecnológicos
Processamento com líquidos iônicos, biolixiviação e hidrometalurgia avançada podem contornar o domínio chinês na extração por solventes. As taxas de recuperação da mineração urbana japonesa vêm melhorando.
Precedente histórico
As restrições chinesas de exportação de 2010 aceleraram os esforços de diversificação. O poder de preços da OPEP acabou limitado por fontes alternativas de energia. Monopólios atraem a própria disrupção.
Arquitetura multilateral
Ministerial com 54 nações, zona de comércio preferencial com pisos de preço, acordos bilaterais com mais de 28 países — a infraestrutura institucional para uma ação coordenada está sendo erguida.

O argumento contra um êxito no curto prazo

A defasagem do processamento
A mineração não é o gargalo — o refino é. Os 90 % de participação chinesa no refino refletem quatro décadas de expertise acumulada. Nenhuma instalação ocidental atingiu pureza de separação equivalente em escala industrial.
Descompasso de escala
A China produz 240.000 toneladas anuais de ímãs. A MP Materials mira 10.000 toneladas em capacidade plena — 4 % da produção chinesa. A Lynas produz cerca de 16.000 toneladas de óxido de terras-raras por ano. A aritmética é impiedosa.
Embargo tecnológico
Os controles de outubro de 2025 sobre equipamentos e tecnologia de processamento restringem a capacidade ocidental de adquirir a expertise chinesa. A barreira do conhecimento agora está juridicamente reforçada.
Resistência ambiental
O processamento de terras-raras é inerentemente sujo. As regulações ambientais ocidentais encarecem e atrasam o processamento doméstico. O “NIMBY” bloqueia instalações que a China construiu sem consentimento das comunidades.
Horizonte temporal
O Chatham House projeta, no melhor cenário, queda da fatia chinesa para cerca de 75 % em 2028. Construir uma indústria de refino competitiva leva uma geração — e adversários estratégicos não concedem cronogramas geracionais.

A questão da Groenlândia ilustra a distância entre a aspiração e a realidade. A Groenlândia detém 1,5 milhão de toneladas de reservas de terras-raras e depósitos de 25 dos 34 minerais classificados como críticos pela UE [14]. O Banco de Exportação-Importação dos EUA ofereceu US$ 120 milhões para a mina de Tanbreez. Mas não existe processo de extração economicamente viável para a rocha de eudialita que abriga os depósitos groenlandeses. A infraestrutura ártica é praticamente inexistente. Especialistas estimam que o desenvolvimento custaria bilhões e levaria décadas — e, ainda que o minério fosse extraído, ele precisaria ser refinado. Onde? Nas instalações que ainda não existem.

O caminho da reciclagem enfrenta restrições estruturais semelhantes. A UE impõe que 25 % dos principais materiais para ímãs venham da reciclagem até 2030 [14]. ⚖ Contestado A reciclagem atual responde por aproximadamente 1 % da produção global de ímãs de terras-raras. A viabilidade econômica é ruim: os custos de reciclagem superam o preço do minério virgem oriundo de fontes controladas pela China. O Japão lidera a tecnologia de mineração urbana, mas a recuperação de elementos individuais de terras-raras a partir de fluxos mistos de resíduos permanece tecnicamente desafiadora em escala industrial. A meta de 2030 está a menos de quatro anos de distância.

Romper o estrangulamento chinês sobre o processamento de terras-raras deve levar, no mínimo, uma década. Até as projeções mais otimistas veem a fatia de mercado da China cair somente para cerca de 75 % em 2028.

— Análise do Chatham House, outubro de 2025

O contra-argumento dos otimistas de mercado — de que as restrições chinesas de 2010 acabaram por acelerar a diversificação — é parcialmente válido, mas historicamente enganoso. O choque de 2010 de fato motivou a reabertura de Mountain Pass, a construção da planta da Lynas na Malásia e os investimentos japoneses em redução e reciclagem. Mas, quinze anos depois, a China ainda controla 90 % do refino. A diversificação acelerada pelo choque de 2010 foi real. Também foi insuficiente. A questão é saber se o choque de 2025, respaldado por capital muito maior, produzirá um desfecho fundamentalmente distinto — ou uma versão proporcionalmente maior do mesmo progresso incremental [10].

08

A realidade estrutural
Química, não geologia

A concepção equivocada mais perigosa na política ocidental de minerais críticos está em enquadrar o problema como uma questão de mineração. Não é. O minério existe em todos os continentes. ◈ Evidências sólidas Apesar do nome, as terras-raras não são particularmente raras. Aparecem em concentrações comercialmente viáveis nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá, no Brasil, na Groenlândia, na Índia e em toda a África subsaariana. O problema nunca foi onde estão as rochas. É saber quem consegue transformar essas rochas em elementos individuais separados, de alta pureza, em escala industrial e a custo comercial [12].

A separação de terras-raras está entre os processos mais exigentes da química industrial. Os 17 elementos de terras-raras são quimicamente similares — ocorrem juntos no minério e separá-los uns dos outros exige ciclos repetidos de extração por solventes, cada um produzindo melhoras incrementais de pureza. Alcançar a pureza de 99,99 % necessária aos ímãs de alto desempenho requer dezenas de estágios de separação, controle preciso de temperatura e pH e profunda expertise operacional — algo que cada instalação leva anos para desenvolver [12].

A China dominou essa química por meio de um programa sistemático, com respaldo estatal, ao longo de quatro décadas. As universidades chinesas formaram milhares de metalurgistas, químicos de separação e engenheiros de processo em terras-raras. A expertise está incorporada em instituições, processos industriais e capital humano que não podem ser comprados nem transferidos — sobretudo agora, em que os controles de outubro de 2025 restringem explicitamente a exportação de tecnologia e equipamentos de processamento [11]. ✓ Fato comprovado

◈ Evidências sólidas O gargalo crítico é a química de separação, não as reservas de minério — e essa lacuna não pode ser fechada apenas com capital

O domínio chinês das terras-raras se apoia em dominar a extração por solventes em escala industrial até a pureza de 99,99 % — capacidade desenvolvida ao longo de quatro décadas. A tecnologia ocidental de processamento está atrasada em décadas, não em anos. Os controles de exportação de outubro de 2025 sobre equipamentos e tecnologia de processamento reforçam juridicamente essa barreira de conhecimento [12].

A analogia com o petróleo é instrutiva, mas imprecisa. O significado estratégico do petróleo repousava sobre uma loteria geológica — certas nações o possuíam, outras não. O poder do cartel da OPEP acabou limitado pela descoberta de reservas alternativas (xisto, águas profundas, areias betuminosas) e pelo surgimento de fontes alternativas de energia. As terras-raras são diferentes. A distribuição geológica é relativamente ampla. O monopólio de processamento é o ponto de alavancagem — e monopólios de processamento são mais difíceis de romper do que monopólios de extração, pois se apoiam em conhecimento acumulado, e não em dotação geológica [1].

A realidade estrutural com a qual se deparam os formuladores de políticas ocidentais é um trilema. Em primeiro lugar, a transição energética exige quantidades exponencialmente crescentes de ímãs de terras-raras — a AIE projeta crescimento de demanda de 3,5 vezes até 2040 apenas para o neodímio [1]. ◈ Evidências sólidas Em segundo lugar, a base industrial de defesa depende de terras-raras processadas pela China para sistemas de armas concebidos para dissuadir a própria China. Em terceiro, construir capacidade alternativa de processamento leva uma década ou mais — tempo durante o qual a dependência se aprofunda, pois a demanda cresce mais rápido do que a oferta alternativa.

A Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos de fevereiro de 2026 — 54 nações, uma proposta de zona de comércio preferencial, pisos de preço exequíveis — é a resposta multilateral mais ambiciosa até hoje [15]. Mas arquitetura institucional não produz terras-raras separadas. Pisos de preço não formam químicos de separação. Acordos bilaterais não erguem plantas de extração por solventes. O dinheiro flui. A vontade política está mobilizada. A distância entre capital alocado e capacidade alcançada é onde reside a realidade estrutural.

O descompasso geracional

As democracias ocidentais operam em ciclos eleitorais de 4 a 5 anos. Construir uma indústria competitiva de processamento de terras-raras — da formação de químicos à entrada em operação das plantas, até atingir pureza de separação em grau comercial — leva de 15 a 20 anos. A urgência estratégica se mede em meses. O cronograma industrial se mede em décadas. Esse descompasso é a vulnerabilidade estrutural definidora do desafio dos minerais críticos.

As evidências sugerem que o domínio chinês das terras-raras persistirá por, no mínimo, uma década, mesmo sob as hipóteses mais favoráveis quanto ao investimento ocidental e ao desenvolvimento tecnológico [12]. Ao longo dessa década, a demanda global por ímãs de terras-raras deverá praticamente dobrar. A transição energética vai acelerar. Os programas de aquisição militar vão se expandir. E 90 % da capacidade de refino necessária para abastecer tudo isso permanecerão dentro das fronteiras de uma única nação — que já demonstrou, em abril de 2025, sua disposição de instrumentalizar essa vantagem.

As implicações ultrapassam qualquer commodity isolada. O caso das terras-raras é um modelo de um padrão mais amplo de concentração de minerais críticos. O processamento de cobalto é dominado pela China (73 %). O refino de lítio está concentrado na China (65 %). O processamento de grafite — essencial para todo anodo de bateria de íon de lítio — é 90 % chinês [1]. A transição energética está sendo erguida sobre dependências de processamento em um único país que reproduzem, em diversos minerais, a vulnerabilidade estrutural que as terras-raras tornaram visível.

A questão não é saber se as nações ocidentais acabarão por construir uma capacidade alternativa de processamento de terras-raras. Construirão — a economia e a segurança nacional, ambas, o exigem. A questão é o que acontece durante a década de transição, enquanto essa capacidade estiver em construção. Ao longo dela, a China conserva a capacidade de impor restrições de oferta, fragmentar preços globais e conceder ou negar os materiais dos quais dependem a transição energética e a produção de defesa ocidental. A alavancagem não é permanente. Mas não precisa ser permanente para ser decisiva.

Deng Xiaoping compreendeu em 1992 o que os formuladores de políticas ocidentais só agora confrontam: as terras-raras são o petróleo do século XXI. A diferença é que, quando os choques do petróleo chegaram em 1973, o Ocidente teve décadas para desenvolver alternativas. No caso do processamento de terras-raras, as alternativas ainda não existem em escala — e o relógio já começou a correr.

SRC

Primary Sources

All factual claims in this report are sourced to specific, verifiable publications. Projections are clearly distinguished from empirical findings.

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APA
OsakaWire Intelligence. (2026, April 9). Minerais críticos — o novo petróleo: por que a diversificação se mede em décadas. Retrieved from https://osakawire.com/pt/critical-minerals-the-new-oil/
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OsakaWire Intelligence. "Minerais críticos — o novo petróleo: por que a diversificação se mede em décadas." OsakaWire. April 9, 2026. https://osakawire.com/pt/critical-minerals-the-new-oil/
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"Minerais críticos — o novo petróleo: por que a diversificação se mede em décadas" — OsakaWire Intelligence, 9 April 2026. osakawire.com/pt/critical-minerals-the-new-oil/

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  <p>A China controla 90 % do refino de terras-raras e 96 % dos ímãs de alto desempenho. Os controles de exportação de abril de 2025 instrumentalizaram essa hegemonia. Bilhões ocidentais não conseguem comprimir quatro décadas de vantagem industrial.</p>
  <footer>— <cite><a href="https://osakawire.com/pt/critical-minerals-the-new-oil/">OsakaWire Intelligence · Minerais críticos — o novo petróleo: por que a diversificação se mede em décadas</a></cite></footer>
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