Mais de 2.500 medidas de política industrial desde 2023, e 71 % distorcem o comércio. O que a evidência diz sobre quando o dinheiro público constrói capacidade.
O retorno, medido
Como uma doutrina desacreditada virou a configuração padrão da política econômica
Desde 1º de janeiro de 2023, o New Industrial Policy Observatory registrou mais de 2.500 novas medidas de política industrial em todo o mundo, das quais 71 % distorcem o comércio✓ Fato comprovado [4]. Estados Unidos, União Europeia e China concentram, juntos, 48 % desse total✓ Fato comprovado [4]. A política industrial deixou de ser uma posição heterodoxa defendida em seminários de economia do desenvolvimento; tornou-se o pressuposto operacional das três maiores economias do planeta. O debate se deslocou de saber se convém adotá-la para saber se alguma parte dela funciona.
O instrumento preferido não é a tarifa. Ao longo de todo o período de 2009 a 2023, os subsídios foram o veículo principal da política industrial tanto nos países ricos quanto nos em desenvolvimento: sua fatia caiu de 84 % para 75 % nas economias avançadas e subiu de 56 % para 71 % nas emergentes✓ Fato comprovado [3]. O mesmo trabalho do Fundo Monetário Internacional (FMI) identifica uma ruptura estrutural por volta de 2020, após a qual a atividade acelera bruscamente e a motivação declarada migra da competitividade e do clima para a resiliência das cadeias de suprimento e a segurança nacional✓ Fato comprovado [3]. O que começou como programa climático virou programa de segurança com a mesma roupagem fiscal.
Esse deslocamento é mensurável na redação das próprias medidas. Em 2024 e 2025, mais da metade das intervenções norte-americanas invocava explicitamente a segurança nacional ou razões geopolíticas, e a combinação de instrumentos afastou-se do apoio financeiro doméstico em direção a tarifas, exigências de conteúdo local e defesa comercial justificada por segurança◈ Evidências sólidas [5]. A proclamação de 14 de janeiro de 2026, que impõe tarifa de 25 % sob a seção 232 a um conjunto estreito de semicondutores avançados e aos produtos que os incorporam, pertence a essa segunda fase, e não à primeira✓ Fato comprovado [37]. Subsídio e proteção convergem agora para uma postura única.
O peso fiscal é mais fácil de subestimar do que de exagerar. A avaliação do Banco Mundial divulgada em 2026 constata que os países de renda média alta concedem hoje às empresas subsídios equivalentes, em média, a 4,2 % do produto interno bruto (PIB), a maior cifra já registrada e superior à das economias de renda alta✓ Fato comprovado [6]. A China destinou 1,73 % do PIB à política industrial em 2019 segundo contabilidade deliberadamente conservadora, ante 0,67 % da Coreia do Sul e 0,39 % dos Estados Unidos; sob hipóteses mais amplas, que incluem as compras públicas, o número chinês se aproxima de 4,9 %✓ Fato comprovado [7]. O mundo em desenvolvimento não está seguindo o mundo rico rumo à política industrial. Já estava lá.
Nos Estados Unidos o programa deixa rastro documental. Dezenove empresas receberam US$ 30,7 bilhões em apoios diretos e US$ 5,5 bilhões em empréstimos para 40 projetos comerciais de fabricação sob a CHIPS and Science Act, com cerca de 59 % do valor dos apoios dirigido à lógica de ponta e perto de 20 % à memória de ponta✓ Fato comprovado [15]. Ao lado dela, os créditos manufatureiros da Inflation Reduction Act desencadearam uma onda de anúncios que analistas privados vêm contabilizando desde então, e desfazendo desde 2025✓ Fato comprovado [19]. Duas leis, um único país e um compromisso somado maior que a produção anual da maioria das economias europeias.
Todos os demais responderam na mesma moeda. A União Europeia montou uma Chips Act que mobilizou cerca de 86 bilhões de euros✓ Fato comprovado [16]. O Japão comprometeu algo em torno de 2,35 trilhões de ienes de apoio acumulado à pesquisa em favor de uma única empresa nascente, a Rapidus, aos quais se somam 631,5 bilhões de ienes previstos para o exercício fiscal de 2026-2027✓ Fato comprovado [24]. A Coreia do Sul elevou seu pacote para semicondutores a 33 trilhões de wones, cerca de US$ 36 bilhões, ante 26 trilhões um ano antes✓ Fato comprovado [25]. A Índia opera catorze esquemas de incentivo vinculados à produção com dotação de 1,91 trilhão de rupias✓ Fato comprovado [26]. Nenhum desses governos está experimentando. Todos estão igualando.
Os subsídios representavam em 2023 ainda 75 % das medidas das economias avançadas e 71 % das emergentes, depois de dominarem todo o período aberto pela crise financeira✓ Fato comprovado [3]. O retorno da tarifa é real, porém recente, concentrado nos Estados Unidos a partir de 2024, e se sobrepõe à arquitetura de subsídios em vez de substituí-la◈ Evidências sólidas [5]. Qualquer análise que reduza a nova política industrial a uma guinada protecionista está medindo a metade menor.
Este relatório formula a única pergunta que importa a respeito de uma política tão cara: em que condições o dinheiro produz capacidade industrial e em que condições produz anúncios. A resposta não é ideológica. Nos últimos quinze anos, econometristas construíram sobre a política industrial um corpo de evidência corretamente identificada que não existia quando o Consenso de Washington deu a questão por encerrada✓ Fato comprovado [1]. Essa evidência é mais favorável à política industrial do que o consenso anterior admitia — e muito mais precisa sobre por que a maior parte dela fracassa.
O que a revolução empírica encontrou
A identificação causal mudou a resposta, mas não a transformou num sim simples
A antiga acusação empírica contra a política industrial apoiava-se em correlações entre países incapazes de separar a política das condições que a haviam gerado✓ Fato comprovado [1]. Desde cerca de 2015, uma literatura nova, baseada em experimentos naturais, microdados administrativos e modelos estruturais, revisitou os episódios canônicos. Seu veredicto é mais favorável que a ortodoxia anterior e consideravelmente mais exigente: os efeitos dependem de o instrumento se ajustar à falha de mercado e de o Estado conseguir retirar o apoio◈ Evidências sólidas [1].
O problema metodológico nunca foi sutil. Governos escolhem setores que já crescem, que já estão politicamente organizados ou que já são estratégicos, de modo que a correlação entre apoio e êxito não carrega conteúdo causal em nenhuma direção. A revisão de Réka Juhász, Nathan Lane e Dani Rodrik afirma explicitamente que a geração anterior de trabalhos era em grande medida correlacional e comprometida por problemas de interpretação, e que os artigos recentes, atentos à mensuração, à identificação e à estrutura econômica, oferecem um quadro mais favorável e mais contextual✓ Fato comprovado [1]. Trata-se de mudança na evidência, não de mudança ideológica.
O episódio mais bem identificado continua sendo o impulso sul-coreano à indústria pesada e química entre 1973 e 1979, lançado por razões de defesa após a retirada parcial das tropas norte-americanas. O estudo de Nathan Lane, publicado no Quarterly Journal of Economics em 2025, conclui que a política promoveu a expansão e a vantagem comparativa dinâmica das indústrias selecionadas, que beneficiou indiretamente os usuários situados a jusante dos insumos intermediários promovidos por meio da rede de insumo-produto, e que os benefícios persistiram depois de encerrado o próprio impulso✓ Fato comprovado [8]. Este último achado é o decisivo: o efeito sobreviveu ao dinheiro.
Jaedo Choi e Andrei Levchenko quantificam essa persistência a partir do universo de processos de subsídio no nível das empresas. As firmas que receberam o subsídio médio registraram crescimento de vendas 919 % maior entre 1982 e 2009 do que as firmas sem apoio, ou seja, uma taxa anual 8,6 % superior, medida integralmente depois que os subsídios cessaram✓ Fato comprovado [10]. Seu modelo estrutural atribui a persistência ao aprendizado pela prática e ao afrouxamento das restrições financeiras, e estima que o bem-estar coreano teria sido de 22 % a 31 % menor se o impulso jamais tivesse ocorrido◈ Evidências sólidas [10]. Entre metade e dois terços desse ganho vem do canal de produtividade de longo prazo, e não da transferência direta◈ Evidências sólidas [10].
As empresas subsidiadas continuaram a crescer mais que as jamais subsidiadas por trinta anos após a liquidação do impulso à indústria pesada e química, com a vantagem transmitida pelo aprendizado pela prática e pelo alívio das fricções financeiras, e não por transferências continuadas◈ Evidências sólidas [9]. Os fornecedores situados a montante das firmas apoiadas também se beneficiaram◈ Evidências sólidas [9]. É a mais sólida evidência causal isolada de que a política industrial pode alterar a trajetória de uma economia, e não apenas sua contabilidade.
A evidência dos países ricos convida a maior cautela. Chiara Criscuolo, Ralf Martin, Henry Overman e John Van Reenen exploraram as revisões setenais dos critérios europeus de elegibilidade a auxílios estatais para identificar os efeitos do programa britânico de assistência regional seletiva ao longo de duas décadas de dados de empresas. Um aumento de dez pontos percentuais no subsídio máximo ao investimento elevou o emprego manufatureiro em 10 %, com efeitos positivos sobre investimento e entrada líquida✓ Fato comprovado [12]. Mas não houve efeito algum sobre a produtividade total dos fatores, e todo o efeito veio das pequenas empresas: as grandes pegaram o dinheiro sem mudar de conduta✓ Fato comprovado [12].
A alocação acaba pesando mais que o montante. Philippe Aghion e coautores examinaram a totalidade das empresas chinesas médias e grandes entre 1998 e 2007 e constataram que subsídios, isenções fiscais, empréstimos e tarifas elevavam o crescimento da produtividade quando dirigidos a setores competitivos ou repartidos entre muitas firmas, e fracassavam quando concentrados nos incumbentes✓ Fato comprovado [13]. O mecanismo é a concorrência: apoio que preserva a rivalidade entre beneficiários rende de forma mensurável melhor que apoio que cria um campeão nacional◈ Evidências sólidas [13]. Esse resultado contraria frontalmente o instinto que a maioria dos governos segue.
O quadro que emerge, de modo geral, pinta uma visão mais favorável da política industrial — mas também destaca nuances importantes.
— Réka Juhász, Nathan Lane e Dani Rodrik, CEPR VoxEU, 2024O desenho do instrumento é o terceiro eixo. Panle Jia Barwick, Myrto Kalouptsidi e Nahim Bin Zahur reconstruíram a ofensiva naval chinesa por meio de um modelo dinâmico de entrada, saída, investimento e produção. A política funcionou segundo seus próprios critérios: a fatia chinesa das encomendas mundiais passou de 14 % em 2003 para 53 % em 2009, enquanto a do Japão caía de 32 % para 10 % e a da Coreia do Sul, de 42 % para 32 %✓ Fato comprovado [14]. Mas os subsídios à entrada e ao investimento geraram fragmentação e estaleiros ociosos, ao passo que os subsídios à produção entregavam muito mais capacidade por dólar gasto◈ Evidências sólidas [14]. O mesmo orçamento, gasto de outro modo, teria comprado bem mais.
O que essa literatura não estabelece importa igualmente. Ela não mostra que a política industrial eleve o crescimento agregado em média, pois os estudos tratam de episódios e não de países. Não mostra que qualquer governo saiba identificar de antemão um setor vencedor. E não resolve o viés de seleção que a afeta: os episódios bem identificados são, de forma desproporcional, os mais célebres◈ Evidências sólidas [1]. O resumo honesto é que a política industrial pode funcionar, que seu êxito depende do desenho e não da ambição, e que os traços de desenho capazes de prever êxito são exatamente aqueles que os sistemas políticos têm mais dificuldade de fornecer.
O molde coreano e a ruína latino-americana
Dois continentes rodaram o mesmo experimento com disciplina oposta
Entre 1950 e 1980, América Latina e Ásia Oriental protegeram indústrias nascentes, dirigiram crédito e ergueram indústria pesada sob tutela estatal. O PIB por habitante latino-americano passou de 27 % do nível norte-americano em 1950 para cerca de 29 % em 1980✓ Fato comprovado [32]. O coreano saiu do rol dos mais pobres do mundo para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os instrumentos foram semelhantes; a prestação de contas não.
A industrialização por substituição de importações não foi doutrina marginal. Foi a prescrição dominante do desenvolvimento no pós-guerra, aplicada no Brasil, na Argentina, no México e no Chile por meio de tarifas, cotas, crédito dirigido e empresas estatais. Seu fracasso mensurável foi específico: a região combinou forte aprofundamento do capital com crescimento fraco da produtividade total dos fatores, isto é, o investimento entrava sem que a produção saísse no ritmo esperado◈ Evidências sólidas [32]. Três décadas de proteção deslocaram a renda relativa em dois pontos percentuais✓ Fato comprovado [32].
O diagnóstico se sustentou. As empresas protegidas atendiam mercados internos, jamais alcançaram a escala em que operam as economias de aprendizado e jamais enfrentaram a disciplina da concorrência estrangeira◈ Evidências sólidas [32]. Como o Estado detinha poder discricionário sobre quem receberia proteção, a atividade lucrativa migrou de elevar a produtividade para pressionar pela manutenção dessa proteção◈ Evidências sólidas [32]. O subsídio virou direito adquirido, e os setores que o recebiam acumularam exatamente o peso político necessário para impedir sua retirada.
A Ásia Oriental usou os mesmos instrumentos acrescentando uma condição: o desempenho exportador. As rendas eram concedidas contra resultados mensuráveis em mercados externos, o que expunha o beneficiário a um sinal de preços que o governo nacional não podia falsear nem contornar politicamente. Mariana Mazzucato e Dani Rodrik sustentam que as rendas concedidas pela política industrial precisam vir acompanhadas de exigências de desempenho ou de supervisão estreita do uso, porque, sem um bastão que discipline o receptor, o apoio degenera em esmola obtida por pressão◈ Evidências sólidas [36]. A disciplina exportadora é o bastão mais barato já inventado, porque um comprador estrangeiro não se deixa pressionar.
A distinção que a evidência sustenta não opõe escolher vencedores a ficar de fora. Opõe regimes capazes de parar de pagar aos que não conseguem. O teste de uma política industrial não está em o Estado identificar o setor certo de antemão, algo que nenhum Estado faz de modo confiável, mas em conseguir retirar o apoio dos setores em que errou◈ Evidências sólidas [36]. A seleção é um problema de previsão, e governos preveem mal. A saída é um problema institucional, e instituições podem ser desenhadas.
A própria Coreia pagou pela saída frágil. Minho Kim, Munseob Lee e Yongseok Shin examinaram o impulso no nível das plantas e constataram que, embora a produtividade de planta tenha subido nos setores selecionados, a produtividade no nível de indústria e região não subiu, porque a eficiência alocativa se deteriorou à medida que os recursos se concentravam✓ Fato comprovado [11]. Caso a má alocação dentro das indústrias promovidas não tivesse piorado em relação às não promovidas, sua produtividade total dos fatores média teria sido 40 % maior em 1980◈ Evidências sólidas [11]. A narrativa canônica do êxito carrega dentro de si uma perda de eficiência de 40 %.
A comparação entre Ásia Oriental e América Latina costuma ser lida como prova de que alguns governos são mais espertos que outros. A evidência sustenta uma afirmação mais estreita e mais útil. As duas regiões escolheram mal seus setores em certos momentos; apenas uma amarrou ao dinheiro um teste de desempenho mensurável, verificado de fora, e o fez valer◈ Evidências sólidas [36]. A disciplina exportadora funciona não porque os burocratas de Seul entendessem de aço, mas porque um armador japonês não era convencido por um lobista coreano.
É aqui que a transferibilidade se torna a verdadeira questão. A disciplina coreana repousava sobre um Estado autoritário com burocracia econômica blindada contra pressões, sobre um número reduzido de conglomerados familiares que podiam ser monitorados individualmente e sobre uma ameaça externa que tornava o fracasso industrial politicamente intolerável. A revisão do Banco Mundial de 2026 é categórica ao apontar que os fracassos passados decorreram sobretudo da capacidade de implementação e de restrições fiscais e institucionais, e não da escolha do setor✓ Fato comprovado [6]. Uma democracia com indústria do lobby e ciclo eleitoral de quatro anos tenta o mesmo truque sem nenhum desses instrumentos.
A bancada de testes dos semicondutores
Quatro jurisdições, uma tecnologia, quatro respostas diferentes
Nenhum outro setor absorveu tanto dinheiro público em tão pouco tempo quanto os semicondutores avançados, e nenhum oferece experimento natural tão limpo. Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia do Sul lançaram, em três anos, programas em linhas gerais comparáveis, com instrumentos, condicionalidades e capacidade institucional distintos. Quatro anos depois, os resultados já divergiram✓ Fato comprovado [15].
O programa norte-americano é o maior e o mais bem documentado. Sob a CHIPS and Science Act, dezenove empresas receberam US$ 30,7 bilhões em apoios diretos e US$ 5,5 bilhões em empréstimos para 40 projetos comerciais de fabricação, com cerca de 59 % do valor destinado à lógica de ponta, 20 % à memória de ponta e 10 % a nós maduros✓ Fato comprovado [15]. Outras doze empresas assinaram acordos preliminares sem chegar a um apoio definitivo✓ Fato comprovado [15]. Os compromissos privados anunciados por TSMC, Intel, Micron e Samsung somam centenas de bilhões de dólares, e a capacidade norte-americana de fabricação cresce cerca de 5 % ao ano, rumo a 3,2 milhões de lâminas por mês◈ Evidências sólidas [31].
Os cronogramas contam algo distinto das manchetes. As datas de conclusão negociadas para os projetos financiados pela CHIPS Act vão de novembro de 2024 a outubro de 2033✓ Fato comprovado [15]. A planta da Intel em Ohio escorregou de 2026 para 2030; a produção da Samsung no Texas passou de 2024 para 2025; a TSMC adiou em pelo menos um ano a partida no Arizona, alegando incerteza quanto ao próprio apoio; o cronograma da Micron no estado de Nova York esticou-se até o terceiro trimestre de 2030 por escassez de mão de obra✓ Fato comprovado [15]. Um programa justificado pela urgência do risco de suprimento entrega segundo um calendário medido em décadas.
Depois o instrumento mudou de natureza por completo. Em agosto de 2025 o governo dos Estados Unidos converteu os apoios pendentes da CHIPS Act à Intel em participação acionária, adquirindo 433,3 milhões de ações a US$ 20,47 para uma fatia de 9,9 %, financiada por US$ 5,7 bilhões de subsídios não pagos e US$ 3,2 bilhões do programa Secure Enclave✓ Fato comprovado [17]. A participação foi estruturada como passiva, sem assento no conselho nem direitos de governança✓ Fato comprovado [17]. Um subsídio condicionado à fabricação virou posição acionária incondicional em uma única empresa, desprovida das exigências de desempenho que a literatura causal aponta como a variável operativa◈ Evidências sólidas [36].
O acordo de agosto de 2025 trocou US$ 5,7 bilhões de apoios CHIPS não pagos e US$ 3,2 bilhões do programa Secure Enclave por 433,3 milhões de ações da Intel a US$ 20,47, uma fatia de 9,9 % mantida sem assento no conselho nem direitos de informação✓ Fato comprovado [17]. Quaisquer que sejam seus méritos financeiros, a operação elimina o mecanismo, o desembolso atrelado a marcos, que a literatura causal identifica como a diferença entre os desfechos coreano e latino-americano◈ Evidências sólidas [36].
O programa europeu fracassou na aritmética antes de fracassar na execução. A Chips Act europeia mobilizou cerca de 86 bilhões de euros diante de uma meta de 20 % da fabricação mundial de semicondutores em 2030, meta que exigiria quadruplicar a capacidade produtiva europeia✓ Fato comprovado [16]. A própria previsão da Comissão Europeia, divulgada em julho de 2024, situa a fatia europeia da cadeia de valor mundial em 11,7 % em 2030, ante 9,8 % em 2022✓ Fato comprovado [16]. No mesmo intervalo, os principais fabricantes mundiais orçaram 405 bilhões de euros, quase cinco vezes o compromisso europeu✓ Fato comprovado [16]. O Tribunal de Contas Europeu concluiu que a meta era inalcançável no ritmo atual✓ Fato comprovado [16].
A meta de 20 por cento era essencialmente aspiracional: alcançá-la exigiria quadruplicar aproximadamente nossa capacidade de produção até 2030, e no ritmo atual estamos muito longe disso.
— Annemie Turtelboom, membro do Tribunal de Contas Europeu, abril de 2025O Japão optou pela concentração em vez da amplitude. O apoio público acumulado à pesquisa destinado à Rapidus, empresa fundada em 2022 sem qualquer histórico produtivo, chega a cerca de 2,35 trilhões de ienes, somados 631,5 bilhões previstos para o exercício de 2026-2027 e cerca de 300 bilhões para o seguinte✓ Fato comprovado [24]. A companhia pretende produzir em série lógica de 2 nanômetros em sua planta de Chitose, em Hokkaido, a partir do exercício de 2027✓ Fato comprovado [23]. Ainda precisa levantar em torno de 1 trilhão de ienes em capital privado e mais de 2 trilhões em financiamento privado◈ Evidências sólidas [24]. É a aposta de maior variância que uma economia avançada fez sobre uma única empresa industrial em uma geração.
A Coreia do Sul, que já possui a base manufatureira que os demais tentam construir, gasta para defender e não para adquirir: 33 trilhões de wones no último pacote, ante 26 trilhões no ano anterior✓ Fato comprovado [25]. A distribuição subjacente pouco se moveu. A capacidade chinesa cresceu 14 %, chegando a 10,1 milhões de lâminas por mês, perto de um terço do total mundial; Taiwan detém 5,8 milhões e a Coreia do Sul, 5,4 milhões, ante 3,2 milhões nas Américas✓ Fato comprovado [31]. Cinco economias, China, Taiwan, Coreia, Japão e Estados Unidos, concentram quase 90 % da capacidade mundial✓ Fato comprovado [31].
A construção manufatureira norte-americana rodava em junho de 2026 a um ritmo anual de US$ 172,7 bilhões, queda de 21,4 % em um ano, e a construção de informática, eletrônica e elétrica está 44 % abaixo do pico de julho de 2024◈ Evidências sólidas [18]. Essa categoria respondia no pico por mais da metade de toda a construção manufatureira◈ Evidências sólidas [18]. Descontada ela, o restante cresceu 5,6 %: real, mas muito aquém da reindustrialização prometida◈ Evidências sólidas [18].
A última guinada é a mais reveladora. Depois de quatro anos subsidiando a fabricação doméstica, os Estados Unidos passaram em janeiro de 2026 a tarifar as importações que com ela concorriam, impondo alíquota de 25 % sob a seção 232 a um conjunto estreito de semicondutores avançados e aos bens que os incorporam, ao mesmo tempo que isentavam a maior parte dos chips legados e os destinados a grandes centros de dados domésticos✓ Fato comprovado [37]. Essa sequência, subsidiar e depois proteger o ativo subsidiado, reproduz com exatidão o padrão que transformou as indústrias nascentes latino-americanas em dependentes permanentes◈ Evidências sólidas [32].
O contrafactual chinês
O que um Estado paciente compra e o que ele destrói
O Made in China 2025 é o maior programa de política industrial já tentado e o único com placar publicado. A avaliação do Rhodium Group conclui que a China atingiu 86 % de suas metas, superando com folga as referências em veículos elétricos e equipamento elétrico e cumprindo apenas 75 % das metas de novos materiais, o mais fraco dos dez setores✓ Fato comprovado [20]. O programa é ao mesmo tempo a prova mais forte de que a política industrial funciona e a demonstração mais nítida do que ela custa.
A distribuição de acertos e erros é diagnóstica. A China fechou a distância mais depressa nos setores em que a restrição era capital, escala e engenharia de processos, isto é, baterias, veículos elétricos, equipamento elétrico, solar e construção naval, e mais devagar onde a restrição era a pesquisa básica acumulada: semicondutores de alto desempenho, aeronáutica avançada, biomedicina e novos materiais◈ Evidências sólidas [20]. Os novos materiais ficaram por último justamente porque dependem de descoberta de ruptura, e não de implantação◈ Evidências sólidas [20]. O dinheiro compra capacidade de forma confiável; compra ciência de fronteira devagar.
A construção naval oferece o caso quantitativo mais nítido. Entre 2006 e 2013, Pequim canalizou para o setor terrenos costeiros gratuitos, assistência financeira a compradores e apoios à entrada e à produção, e a fatia chinesa das encomendas mundiais subiu de 14 % em 2003 para 53 % em 2009, enquanto o Japão desabava de 32 % para 10 % e a Coreia do Sul recuava de 42 % para 32 %✓ Fato comprovado [14]. A reconstrução acadêmica é inequívoca quanto ao fato de a política ter funcionado, e igualmente inequívoca quanto ao custo: os subsídios à entrada e ao investimento criaram fragmentação e estaleiros ociosos que subsídios à produção teriam evitado◈ Evidências sólidas [14].
O setor automotivo mostra a magnitude do apoio a empresas específicas. O Instituto de Kiel calculou que a BYD recebera ao menos 3,4 bilhões de euros em auxílio público direto, com o apoio anual saltando de 220 milhões de euros em 2020 para 2,1 bilhões em 2022✓ Fato comprovado [21]. O número exclui preços subsidiados de insumos como aço e baterias, bônus de compra pagos a seus clientes e compras públicas discriminatórias, todos reais e nenhum de fácil mensuração◈ Evidências sólidas [21]. Os subsídios industriais chineses alcançam de três a quatro vezes os níveis da OCDE nas estimativas conservadoras, e até nove vezes nas mais amplas◈ Evidências sólidas [21].
As estimativas agregadas convergem para a mesma conclusão por outro caminho. Segundo a contabilidade deliberadamente conservadora do CSIS, a China destinou 1,73 % do PIB à política industrial em 2019, mais que o dobro dos 0,67 % sul-coreanos e mais de quatro vezes os 0,39 % norte-americanos✓ Fato comprovado [7]. Ampliar a definição para incluir compras públicas eleva o número chinês na direção de 4,9 % do PIB◈ Evidências sólidas [7]. Qualquer que seja a cifra exata, a ordem de grandeza não está em disputa, tampouco o fato de que o resto do mundo tenta agora fechar uma distância que levou duas décadas para se abrir.
O placar do Rhodium mostra referências amplamente superadas em veículos elétricos e equipamento elétrico, taxa de cumprimento de 75 % em novos materiais, a menor dos dez setores, e lacunas persistentes em semicondutores de alto desempenho, aeronáutica avançada e biomedicina✓ Fato comprovado [20]. As falhas se agrupam exatamente nos domínios em que a restrição é a pesquisa básica, e não o capital de implantação◈ Evidências sólidas [20]. Dinheiro público é instrumento de capacidade, não de descoberta.
O custo já aparece nos balanços chineses. As companhias solares listadas perderam cerca de US$ 7,3 bilhões em 2025, as seis maiores perderam outros US$ 2,8 bilhões em um único trimestre e as fabricantes anunciaram mais US$ 1,5 bilhão de prejuízo no primeiro trimestre de 2026, ou seja, perto de três anos contínuos sem rentabilidade numa indústria que fornece mais de 80 % dos componentes de painéis do planeta✓ Fato comprovado [22]. Três anos de política oficial contra a involução não corrigiram o quadro, porque os governos locais mantêm vivas fábricas deficitárias para proteger o emprego◈ Evidências sólidas [22]. O subsídio que ergueu a indústria agora a impede de consolidar-se.
O que o histórico chinês estabelece é estreito e importante. Um Estado com capacidade fiscal duradoura, horizonte de vinte anos e tolerância a desperdício enorme consegue realocar capacidade manufatureira mundial em setores determinados✓ Fato comprovado [20]. O que não estabelece é que tenha saído barato, que os retornos tenham superado o desembolso ou que possa ser replicado por governos obrigados a mostrar resultados dentro de um ciclo eleitoral. A maior vantagem do programa não foi o dinheiro. Foi a ausência de qualquer obrigação de parar.
Anatomia de um desperdício
Para onde o dinheiro realmente vai quando fracassa
Os fracassos da política industrial em geral não se parecem com má escolha de setor. Parecem-se com um setor bem escolhido, uma cifra de investimento anunciada, um subsídio pago contra promessas em vez de resultados e uma renegociação discreta três anos depois. Wisconsin, Suécia e Saxônia-Anhalt produziram essa sequência em uma década, a um custo público somado na casa das dezenas de bilhões◈ Evidências sólidas [28].
O caso Foxconn no Wisconsin é o exemplo canônico norte-americano. O estado ofereceu cerca de US$ 4,5 bilhões, majoritariamente em pagamentos diretos em dinheiro mais terrenos obtidos por desapropriação, contra a promessa de 13.000 empregos, o que implicava de US$ 200 mil a US$ 346 mil de dinheiro público por vaga, de sete a doze vezes o incentivo médio de um estado norte-americano✓ Fato comprovado [28]. A Foxconn contratou 113 dos 260 empregados exigidos em 2018 e 281 dos 520 exigidos em 2019, e então parou de tentar◈ Evidências sólidas [28]. O escritório orçamentário apartidário do estado situou o ponto de equilíbrio em 2043 no melhor cenário✓ Fato comprovado [28].
A campeã europeia da bateria fracassou em outro registro. A Northvolt levantou mais de US$ 14 bilhões, posicionou-se como a resposta europeia à fabricação asiática de células e pediu falência na Suécia em 12 de março de 2025✓ Fato comprovado [27]. Sua planta em Skellefteå chegou a cerca de 1 GWh de produção anual diante de um plano de 16 GWh, defasagem que levou a BMW a cancelar contrato de fornecimento de US$ 2 bilhões✓ Fato comprovado [27]. O fracasso não foi setorial, pois a demanda europeia por baterias é real, mas operacional, na disciplina bem específica de escalar a produção de células, que nenhum capital substitui.
O compromisso alemão com a Intel fracassou antes que uma única lâmina se movesse. Berlim havia comprometido 10 bilhões de euros com a planta de Magdeburgo, o maior subsídio estatal isolado da história alemã, dos quais 3,96 bilhões estavam previstos para 2024✓ Fato comprovado [29]. A Intel suspendeu o projeto em setembro de 2024 e o abandonou em julho de 2025, deixando ao governo federal a tarefa de reaver recursos e reabrir a discussão sobre seu destino✓ Fato comprovado [29]. O Estado havia garantido o plano de investimento de uma empresa sem mecanismo algum para exigir seu cumprimento.
| Modo de falha | Gravidade | Avaliação |
|---|---|---|
| Captura política e incapacidade de sair | Os beneficiários adquirem o peso político necessário para impedir a retirada, o que converte um subsídio temporário em direito adquirido permanente e desloca o esforço empresarial da produtividade para a pressão política◈ Evidências sólidas [32]. É o único modo de falha comum a todos os episódios malsucedidos do registro◈ Evidências sólidas [36]. | |
| Reversão de política e inconsistência temporal | Desde o início de 2025 foram cancelados US$ 39,6 bilhões de investimento manufatureiro norte-americano previsto em energia limpa e 53.400 empregos anunciados✓ Fato comprovado [19], e projeta-se que a lei orçamentária de 2025 corte de 53 % a 59 % a instalação de nova capacidade elétrica limpa na década seguinte◈ Evidências sólidas [30]. O capital não se compromete com ativos de quinze anos sob política de quatro. | |
| Sobrecapacidade e corrida de subsídios | As fabricantes solares chinesas operam no prejuízo há quase três anos, com US$ 7,3 bilhões de perdas conjuntas só em 2025✓ Fato comprovado [22], enquanto o FMI adverte que administrar os efeitos transfronteiriços exige cooperação justamente quando a geopolítica a torna menos acessível◈ Evidências sólidas [35]. | |
| Custo por emprego e falha de mensuração | Os subsídios são rotineiramente avaliados contra o emprego anunciado, e não o entregue: o pacote do Wisconsin implicava de US$ 200 mil a US$ 346 mil por vaga prometida pela Foxconn, ante um quadro efetivo muito menor✓ Fato comprovado [28]. A contabilidade baseada em anúncios superestima sistematicamente os retornos. | |
| Implementação e capacidade institucional | O Banco Mundial atribui os fracassos passados sobretudo à fraca capacidade de implementação e a restrições fiscais e institucionais, e não à má seleção setorial✓ Fato comprovado [6], diagnóstico que o FMI repete para a onda atual◈ Evidências sólidas [35]. |
A reversão é hoje o risco dominante nos Estados Unidos, e é autoinfligida. As empresas cancelaram US$ 39,6 bilhões de investimento manufatureiro previsto em energia limpa e 53.400 empregos anunciados desde o início de 2025, com os cancelamentos concentrados em veículos elétricos, eletrolisadores de hidrogênio e fabricação solar✓ Fato comprovado [19]. Só no segundo trimestre de 2026 foram anunciados 5.900 novos empregos industriais contra 2.800 cancelados✓ Fato comprovado [19]. O Rhodium estima que a lei orçamentária de 2025 corte de 53 % a 59 % a instalação de nova capacidade elétrica limpa entre 2025 e 2035◈ Evidências sólidas [30].
Os dados de construção mostram o efeito sobre o investimento físico. A construção manufatureira norte-americana rodava em junho de 2026 a um ritmo anual de US$ 172,7 bilhões, 21,4 % menos na comparação anual, com a construção de informática, eletrônica e elétrica 44 % abaixo do pico de julho de 2024◈ Evidências sólidas [18]. Essa categoria respondera no topo por mais da metade de todo o gasto em construção manufatureira◈ Evidências sólidas [18]. Excluída a eletrônica, o gasto em construção subiu 5,6 % desde o início das tarifas: efeito real e bem menor que o enquadramento político◈ Evidências sólidas [18].
A política industrial pede ao capital privado que se comprometa com ativos cujo retorno leva de quinze a trinta anos, com base em leis que sobrevivem no máximo a uma troca de governo. Quando essas leis são alteradas, como ocorreu em 2025, cancelando US$ 39,6 bilhões de investimento previsto✓ Fato comprovado [19], o Estado não perde apenas os projetos. Eleva o prêmio de risco de todo programa futuro que anunciar, o que obriga a rodada seguinte a ser maior para comprar o mesmo comportamento.
Os modos de falha têm forma comum. Em cada caso o subsídio foi pago, ou comprometido, contra um anúncio e não contra um marco cumprido; não havia mecanismo para exigir desempenho; e o custo político do cancelamento recaía sobre o governo, não sobre o beneficiário. É a imagem invertida da disciplina exportadora que separou os desfechos do Leste Asiático dos latino-americanos◈ Evidências sólidas [36]. Os Estados que fracassaram não eram piores em escolher setores. Eram piores em amarrar condições e fazê-las valer.
A discussão que não se encerrará
Quatro divergências genuínas e o ponto exato em que cada uma se situa
Parte da disputa sobre política industrial é ruído ideológico. Quatro pontos são reais, no sentido de que pesquisadores competentes examinando os mesmos dados chegam a conclusões opostas⚖ Contestado [1]. Separar as divergências genuínas das ostentatórias é a diferença entre um debate de política pública e uma guerra cultural.
A primeira divergência genuína recai sobre o cânone coreano. Choi e Levchenko estimam que o bem-estar coreano teria sido de 22 % a 31 % menor sem o impulso à indústria pesada e química◈ Evidências sólidas [10], ao passo que Kim, Lee e Shin concluem que a produtividade total dos fatores média das indústrias promovidas teria sido 40 % maior em 1980 caso a má alocação não tivesse piorado⚖ Contestado [11]. Os dois trabalhos são rigorosos, ambos usam microdados coreanos e ambos provavelmente acertam: o impulso elevou o nível de capacidade industrial e degradou simultaneamente a eficiência com que os recursos eram repartidos dentro dela.
A segunda recai sobre a atribuição no caso chinês. O Made in China 2025 atingiu 86 % de suas metas✓ Fato comprovado [20], mas a China contava também com o maior mercado interno do mundo, as cadeias manufatureiras mais profundas, uma década de aumento de formandos em engenharia e uma posição cambial que teria sustentado o crescimento exportador sem programa algum. Os resultados de Aghion sugerem que a composição do apoio importou, pois subsídios dispersos e preservadores da concorrência elevaram a produtividade onde os concentrados não o fizeram✓ Fato comprovado [13], o que prova que o desenho teve força causal sem resolver que parcela do resultado ele explica⚖ Contestado [13].
A terceira recai sobre o êxito da CHIPS Act. Há capacidade sendo construída de fato e a produção norte-americana de lâminas aumenta◈ Evidências sólidas [31]. As datas de conclusão vão até 2033, o projeto emblemático de Ohio atrasou quatro anos✓ Fato comprovado [15] e a construção manufatureira na categoria pertinente caiu 44 % desde o pico◈ Evidências sólidas [18]. Ler isso como êxito com atrasos ou como atraso com êxitos depende quase inteiramente do contrafactual escolhido, e nenhum analista honesto consegue observar esse contrafactual⚖ Contestado [15].
Os argumentos a favor de sua eficácia
Estudos corretamente identificados sobre promoção de indústrias nascentes encontram aumento de atividade nos setores promovidos em todos os episódios revisados, ruptura marcada com a literatura correlacional✓ Fato comprovado [2].
As empresas coreanas que receberam o subsídio médio cresceram em vendas 919 % mais entre 1982 e 2009 do que as que nada receberam, três décadas após o fim do programa✓ Fato comprovado [10].
A China passou de 14 % para 53 % da construção naval mundial em seis anos, deslocando duas potências industriais estabelecidas✓ Fato comprovado [14].
O Made in China 2025 alcançou 86 % de seus objetivos declarados em dez setores, superando suas referências em veículos elétricos e equipamento elétrico✓ Fato comprovado [20].
Um aumento de dez pontos no subsídio britânico máximo ao investimento elevou o emprego manufatureiro em 10 %, com ganhos em investimento e entrada líquida✓ Fato comprovado [12].
Os argumentos contrários
O mesmo programa britânico não produziu efeito mensurável sobre a produtividade total dos fatores, e todo o efeito sobre o emprego veio das pequenas empresas, enquanto as grandes pegaram o dinheiro sem mudar✓ Fato comprovado [12].
As indústrias coreanas promovidas teriam tido em 1980 produtividade média 40 % superior sem a deterioração da eficiência alocativa que o impulso provocou◈ Evidências sólidas [11].
Subsídios à entrada e ao investimento na construção naval chinesa geraram fragmentação e capacidade ociosa que subsídios à produção teriam evitado ao mesmo custo◈ Evidências sólidas [14].
As fabricantes solares chinesas perderam US$ 7,3 bilhões em 2025 após três anos de guerra de preços, e os governos locais mantêm vivas fábricas deficitárias para proteger o emprego✓ Fato comprovado [22].
US$ 39,6 bilhões de investimento manufatureiro norte-americano em energia limpa e 53.400 empregos foram cancelados antes de completados três anos da lei que os induziu✓ Fato comprovado [19].
A quarta divergência é a de maior envergadura. Se todas as grandes economias subsidiam ao mesmo tempo as mesmas tecnologias, o resultado pode ser uma descarbonização mais rápida a menor custo global ou uma dispendiosa corrida armamentista em que cada país paga para realocar capacidade que já existia em outro lugar. A posição do FMI é que administrar esses efeitos requer cooperação internacional exatamente no momento em que a tensão geopolítica a torna mais difícil◈ Evidências sólidas [35]. As duas leituras seguem compatíveis com os dados disponíveis em 2026⚖ Contestado [35].
O que não se discute é mais estreito do que o volume do debate sugere. Ninguém sério sustenta hoje que a política industrial nunca funcione; os microdados coreanos e chineses encerraram essa posição✓ Fato comprovado [1]. Ninguém sério sustenta tampouco que governos consigam identificar de antemão e de modo confiável um setor vencedor. E ninguém contesta os dois achados de desenho que sobrevivem a todos os estudos: apoio alocado de forma a preservar a concorrência rende mais que apoio que cria campeões✓ Fato comprovado [13], e apoio sem condição de saída exigível degenera em renda◈ Evidências sólidas [36].
O debate persiste porque esses achados são politicamente incômodos nas duas direções. Negam a tese liberal de que o dinheiro público é desperdiçado por natureza e negam a tese intervencionista de que o obstáculo principal seria a falta de ambição. O que a evidência de fato acusa é o hábito institucional específico que quase todos os governos democráticos com política industrial em curso compartilham: pagar contra anúncios, recusar-se a especificar uma condição de fracasso e tratar o desembolso como se fosse o resultado.
O que a evidência nos diz
O desenho é a variável; a ambição não é
Depois de quinze anos de trabalho causal sobre política industrial, os achados que se replicam não tratam de quais setores escolher. Tratam de como o dinheiro é amarrado, de se a concorrência sobrevive à intervenção e de se o Estado preserva a capacidade de parar◈ Evidências sólidas [1]. Todo grande programa em curso pode ser pontuado por esses critérios, e a maioria pontua mal.
Cinco traços de desenho preveem êxito na literatura, e são consistentes em contextos muito distintos. O apoio precisa ser condicionado a desempenho verificável, e não a anúncio◈ Evidências sólidas [36]. Precisa ser alocado de modo a preservar a rivalidade entre beneficiários em vez de criar um campeão✓ Fato comprovado [13]. O instrumento precisa se ajustar à falha de mercado: subsídios à produção quando a restrição é escala, financiamento à pesquisa quando a restrição é descoberta◈ Evidências sólidas [14]. Precisa existir condição de saída exigível◈ Evidências sólidas [36]. E precisa haver aparato administrativo capaz de medir os quatro anteriores✓ Fato comprovado [6].
O achado sobre concorrência é o mais robusto e o menos seguido. A política industrial chinesa elevou o crescimento da produtividade quando se dispersou entre empresas de um mesmo setor e fracassou quando se concentrou nos incumbentes✓ Fato comprovado [13]. Ainda assim, todo grande programa atual concentra: os apoios norte-americanos da CHIPS Act foram esmagadoramente para a lógica de ponta num punhado de empresas✓ Fato comprovado [15], o Estado japonês apostou 2,35 trilhões de ienes numa única companhia✓ Fato comprovado [24] e a Alemanha comprometeu 10 bilhões de euros com uma única planta de um único fabricante✓ Fato comprovado [29]. A concentração é cômoda no plano administrativo e, empiricamente, a pior escolha.
O achado sobre a saída é o que mais custa às democracias. A disciplina exportadora funcionou no Leste Asiático porque delegava o veredicto a uma parte que o beneficiário não conseguia pressionar◈ Evidências sólidas [36]. Nada num programa contemporâneo de economia avançada cumpre essa função: as condições por marcos existem no papel, mas são renegociadas assim que o beneficiário fica grande o bastante, e a conversão em capital, como na posição norte-americana na Intel, elimina a condicionalidade por inteiro✓ Fato comprovado [17]. O problema não é que os governos desconheçam o que é condicionalidade. É que não conseguem se comprometer de forma crível a aplicá-la contra uma empresa que emprega 20.000 eleitores.
O ajuste entre instrumento e falha é o achado com implicações fiscais mais nítidas. Onde a restrição é escala e aprendizado, o apoio vinculado à produção supera, ao mesmo custo, os subsídios à entrada e ao investimento, como mostra diretamente a reconstrução do setor naval◈ Evidências sólidas [14]. Onde a restrição é a descoberta básica, aplicar capital é quase inútil, e daí a China ter cumprido suas metas de implantação e falhado em novos materiais, semicondutores de alto desempenho e biomedicina◈ Evidências sólidas [20]. O desenho indiano, que paga contra produção e não contra investimento, ao menos tem a estrutura certa, seja qual for sua execução: 287,48 bilhões de rupias desembolsados ante 2,16 trilhões de rupias de investimento em 31 de dezembro de 2025✓ Fato comprovado [26].
A capacidade administrativa é a restrição que ninguém quer nomear. A revisão do Banco Mundial de 2026 atribui o fracasso passado sobretudo à fraca capacidade de implementação e a restrições fiscais e institucionais, e não à má seleção setorial✓ Fato comprovado [6], e a avaliação do FMI de 2026 repete o diagnóstico para a onda atual, pois a política se adapta às crises, mas segue difícil de implementar com eficácia◈ Evidências sólidas [35]. Um governo incapaz de auditar um marco não consegue administrar um subsídio condicionado, e um governo incapaz de administrar um subsídio condicionado não faz política industrial. Faz compra pública com etapas adicionais.
A evidência não sustenta a tese de que a política industrial seja um erro, nem sustenta a tese de que quanto mais, melhor. Sustenta uma terceira posição que nenhum campo político acha cômoda: a política industrial é um teste de capacidade estatal aplicado com dinheiro público✓ Fato comprovado [6]. Governos capazes de verificar desempenho, preservar a concorrência e parar de pagar obtêm o resultado coreano◈ Evidências sólidas [10]. Os que não conseguem obtêm o do Wisconsin✓ Fato comprovado [28].
Os próximos cinco anos resolverão mais dessas questões do que os cinquenta anteriores, porque pela primeira vez várias economias grandes conduzem ao mesmo tempo programas comparáveis com dados publicados. As perguntas mensuráveis já estão formuladas: se a capacidade norte-americana de fabricação alcançará o nível implicado pelos apoios antes das datas de conclusão de 2033✓ Fato comprovado [15], se a fatia europeia da cadeia de valor dos semicondutores superará os 11,7 % que a própria Comissão prevê✓ Fato comprovado [16], se a Rapidus chegará à produção em série a 2 nanômetros◈ Evidências sólidas [23] e se algum desses governos se mostrará disposto a parar de pagar uma empresa que descumpra seus marcos. A última é a única a que nenhuma democracia jamais respondeu afirmativamente, e é a que a evidência aponta como a mais determinante◈ Evidências sólidas [36].