23 % dos cursos de graduação nos EUA deixam o formando mais pobre do que o ensino médio, e 8,8 milhões de devedores estão inadimplentes. Auditoria de quem carrega o risco.
O livro-caixa que deixou de fechar
O que US$ 1,65 trilhão em promessas não cumpridas de fato comprou
Os americanos devem US$ 1,65 trilhão em dívida estudantil, e 8,8 milhões de devedores estão inadimplentes em empréstimos que a falência não apaga ✓ Fato comprovado [1][2]. O sistema foi desenhado para ampliar o acesso. Hoje opera como um dispositivo de transferência de risco apontado para a parte menos informada da transação.
A conclusão central deste relatório cabe em uma frase: o financiamento do ensino superior americano não precifica mais aquilo que vende. O estoque de empréstimos estudantis chegou a US$ 1,65 trilhão no segundo trimestre de 2026, dentro de um endividamento das famílias de US$ 18,77 trilhões [1]. Diante desse estoque, cerca de 23 % dos cursos de graduação nos Estados Unidos produzem retorno negativo ao longo da vida: seus formandos terminam financeiramente piores do que estariam apenas com o ensino médio [3]. Os dois números saem da mesma engrenagem: um credor que não analisa risco, uma instituição que não suporta a perda e um devedor que não consegue se livrar da obrigação. O resultado não é, em primeiro lugar, um problema educacional. É um mercado de crédito no qual o único participante sem proteção é o jovem de dezoito anos que assina a nota promissória.
O número agregado de inadimplência de 2026 parece enganosamente benigno. O Federal Reserve de Nova York registrou 7,83 % dos saldos estudantis com noventa dias ou mais de atraso no segundo trimestre de 2026, ante 12,88 % um ano antes [1]. A melhora é um artefato. A instituição atribui a queda ao efeito persistente da reinserção nos cadastros de crédito das dívidas antes inadimplentes, e não à retomada dos pagamentos [1]. Ler essa série como recuperação é o erro mais comum na cobertura atual do tema, e ele importa porque os dados de inadimplência subjacentes andaram na direção oposta.
Os números são duros. Em janeiro de 2026, 8,8 milhões de devedores estavam inadimplentes em empréstimos mantidos diretamente pelo Departamento de Educação, somando US$ 208,7 bilhões [2]. Desses, 3,62 milhões entraram em inadimplência pela primeira vez entre 20 de janeiro e 31 de dezembro de 2025, contra praticamente nenhuma nova inadimplência no primeiro trimestre daquele ano [2]. Os saldos inadimplentes de toda a carteira alcançaram o recorde de US$ 233 bilhões em meados de 2026, com cerca de um em cada cinco devedores com mais de nove meses de atraso [44]. Uma contagem distinta apontava 8,93 milhões de devedores federais com ao menos trinta dias de atraso no primeiro trimestre de 2026 [40].
A sequência era estruturalmente previsível. Os pagamentos federais ficaram suspensos por quatro anos, foram retomados e depois cobertos por um período de transição em que as parcelas não pagas não geravam consequência alguma. Quando esse período expirou, vários anos de inadimplência acumulada convergiram de uma vez para o limiar de duzentos e setenta dias, resultado mecânico que o serviço de pesquisa do Congresso havia modelado de antemão [31]. A onda não revelou nada de inesperado sobre o comportamento dos devedores. Foi um vencimento contábil chegando ao fim.
As emendas de 1998 à lei do ensino superior eliminaram o prazo após o qual os empréstimos federais podiam ser cancelados sem comprovação de dificuldade extrema, e a lei de falências de 2005 estendeu essa impossibilidade de cancelamento aos empréstimos privados qualificados [47]. De um financiamento imobiliário pode-se sair entregando o imóvel. Um saldo de cartão pode ser cancelado. Um diploma não se retoma, e a obrigação que o financiou também não, que é exatamente por que a perda nunca alcança a instituição que fixou o preço.
Vale comparar com o funcionamento de qualquer outro mercado de crédito. Um credor imobiliário avalia o bem, confere a renda do tomador e recusa a operação quando as contas não fecham. Uma financeira de veículos embute o risco na taxa. No empréstimo estudantil federal, o valor é determinado pelo custo de frequência que a instituição declara, a taxa é fixada em lei e em nenhum momento se examina a renda esperada do tomador. A instituição recebe o dinheiro na matrícula e o mantém, forme-se o aluno ou não, encontre o formando trabalho ou não, e pague esse trabalho o suficiente para servir a dívida ou não.
O desenho se defendia enquanto o retorno de um diploma subia e sua dispersão era estreita. Nenhuma das duas condições se sustenta mais. O restante deste relatório reconstrói o que aconteceu com o preço, o que aconteceu com o prêmio salarial e o que os dados por curso revelam sobre a distância entre os dois.
O preço e o prêmio
Duas curvas que deveriam caminhar juntas
O prêmio salarial do diploma atingiu o pico por volta de 2015 e hoje está em 55,2 %, aproximadamente o patamar do fim dos anos 1990, enquanto o custo de um curso de quatro anos subiu 40 % entre 2000-2001 e 2022-2023 ✓ Fato comprovado [5]. A justificativa do endividamento era que o prêmio continuaria a crescer. Ele parou.
O argumento econômico a favor do endividamento estudantil sempre repousou sobre uma única afirmação empírica: a distância salarial entre diplomados e concluintes do ensino médio seria grande e crescente. Durante três décadas a afirmação se confirmou. Já não se confirma. As análises do Federal Reserve de Minneapolis situam o prêmio salarial global em 55,2 %, patamar visto pela última vez no fim dos anos 1990, depois de um pico por volta de 2015 e de uma erosão lenta desde então [5]. Um documento de trabalho do Federal Reserve de São Francisco chega ao mesmo ponto por outro caminho, ao constatar uma distância essencialmente estável por vinte anos e ligeiramente inferior em 2023 ao seu valor de 2000 [5].
Enquanto isso, o preço seguia subindo. A mesma análise aponta que um curso de quatro anos custava em 2022-2023 40 % a mais em termos reais do que em 2000-2001 [5]. Os preços divulgados para 2025-2026 chegam a US$ 11.950 em mensalidades e taxas para estudantes do próprio estado em instituições públicas de quatro anos, e a US$ 45.000 nas privadas sem fins lucrativos [7]. Um investimento cujo preço sobe 40 % enquanto o retorno se achata não é um caso de fronteira. É uma reprecificação que o sistema financeiro ao redor nunca registrou.
A complicação honesta está em que os preços divulgados não são o que a maioria paga. Corrigidas pela inflação, as mensalidades líquidas médias pagas por estudantes do próprio estado matriculados pela primeira vez em tempo integral em instituições públicas de quatro anos atingiram o pico de US$ 4.450 em 2012-2013 e caíram para cerca de US$ 2.300 em 2025-2026 [7]. Nas privadas sem fins lucrativos, a mensalidade líquida real recuou de US$ 19.810 em 2006-2007 para cerca de US$ 16.910 [7]. Quem sustenta que a mensalidade de graduação americana é a causa imediata do estoque de dívida precisa explicar uma série que recua em termos reais há mais de uma década.
A mensalidade líquida das instituições públicas de quatro anos vem caindo em termos reais desde 2012-2013 e, ainda assim, os saldos continuaram subindo [7][1]. Dois elementos conciliam o fato. Os custos de subsistência — aluguel, alimentação, transporte — entram no limite de endividamento e ficam inteiramente fora da série de mensalidades. E a pós-graduação, sem controle de preço relevante e, até 2026, sem qualquer teto de crédito, fica fora das estatísticas de graduação que dominam o debate público.
Resta saber de onde vem de fato a pressão sobre os preços. A hipótese de Bennett sustenta que ampliar o auxílio federal permite às instituições elevar preços em montante aproximadamente equivalente. O teste quantitativo mais sólido, um documento de pesquisa do Federal Reserve de Nova York, mede um repasse médio de cerca de 40 centavos por dólar, com ampla variação conforme o tipo de auxílio [8]. As instituições com fins lucrativos capturaram cerca de 57 centavos de cada dólar adicional de bolsa e 51 centavos de cada dólar adicional de empréstimo [8]. Nesse setor o mecanismo não é contestado; contesta-se apenas sua magnitude em outros lugares.
Para onde vai o dinheiro depois de entrar é uma questão distinta e mais bem documentada. Entre 2010 e 2018, o gasto com serviços ao estudante cresceu 29 % e o gasto administrativo 19 %, contra 17 % do ensino [46]. Em horizonte mais longo, o ensino caiu de 41 % para 29 % do gasto universitário total [46]. Trabalhos anteriores referentes a 1993-2007 registravam alta de 39 % no número de administradores em tempo integral por cem estudantes, contra 18 % do pessoal de ensino, pesquisa e serviço, com avanço de 61 % no gasto administrativo real por estudante contra 39 % do ensino [45]. A instituição cresceu em torno do ensino, e não por meio dele.
O documento do Federal Reserve de Nova York sobre oferta de crédito e mensalidades permanece a estimativa mais cuidadosa disponível, e detecta heterogeneidade substancial em vez de efeito uniforme [8]. O corolário pesa mais do que o resultado principal: onde uma instituição não enfrenta disciplina competitiva de preço nem exposição alguma ao destino de seus formandos, o crédito adicional é absorvido em vez de se converter em acesso para os estudantes.
Sobrepondo as duas séries: um prêmio que parou de crescer há uma década, um preço real que recua na graduação pública mas dispara na pós, e um mecanismo de crédito indiferente a ambos. O argumento agregado a favor do endividamento não desabou. Simplesmente deixou de ser um argumento agregado, que é o que os dados por curso mostram a seguir.
Vinte e três por cento dos diplomas dão prejuízo
A média esconde a distribuição, e a distribuição é a história inteira
Entre 53.000 cursos, a graduação mediana rende cerca de US$ 160 mil uma vez incorporado o risco de evasão, enquanto 23 % das graduações, 43 % dos cursos tecnológicos curtos e quase metade dos mestrados rendem menos que nada ✓ Fato comprovado [3]. A pergunta sobre se a faculdade compensa não tem resposta no plano da faculdade.
A pesquisa mais decisiva nesse campo não trata dos diplomas como categoria. É a análise de retorno por curso conduzida por Preston Cooper na Foundation for Research on Equal Opportunity, que estima o retorno financeiro vitalício de cerca de 53.000 cursos de graduação e certificação tomados um a um, e não de instituições ou do ensino superior como um todo [3]. Ajustada pela probabilidade de que determinado ingressante não conclua, a graduação mediana rende cerca de US$ 160 mil ao longo da vida [3]. O valor é real e substancial. É também uma média sobre uma distribuição tão ampla que quase nada informa a um estudante específico.
A dispersão por área é o achado decisivo. Os cursos de engenharia rendem mediana de cerca de US$ 949 mil, os de ciência da computação cerca de US$ 652 mil e os de enfermagem cerca de US$ 619 mil [3]. As belas-artes rendem menos que nada, e pedagogia, letras e psicologia se agrupam em torno da linha de água ou abaixo dela [3]. A distância entre o topo e a base dessa faixa supera várias vezes a distância entre ter uma graduação e não ter nenhuma. Um sistema de financiamento que empresta valores idênticos em condições idênticas ao longo de toda a faixa não precifica mal o risco. Não o precifica de maneira alguma.
Esse número não é a proporção de cursos, e sim a proporção de estudantes, que é a que governa a perda agregada [3]. Em torno de 23 % das graduações, 43 % dos cursos tecnológicos curtos e quase metade dos mestrados ficam abaixo de zero [3]. A versão ponderada pela matrícula é pior do que a simples contagem de cursos, porque vários dos mais procurados se situam na faixa negativa.
É na pós-graduação que a aritmética fica hostil mais depressa. O graduado típico acumula cerca de US$ 28 mil em empréstimos federais; o mestre típico ultrapassa US$ 55 mil [11]. Perto de 40 % dos mestrados não elevam a renda o bastante para justificar a mensalidade [11]. Mestrados em engenharia, computação e enfermagem quase sempre compensam; os de artes e humanidades raramente o fazem, e mesmo o mestrado em administração, um dos títulos de pós mais populares do país, com frequência rende pouco ou nada [11].
O Urban Institute chega à mesma conclusão pelo lado da dívida em vez do lado da renda. Mestrados e doutorados em psicologia, mestrados em artes visuais e cênicas e cursos de pós com fins lucrativos em ciências da família e do consumo deixam os estudantes com dívida impagável ou renda baixa em proporções superiores às de qualquer outra categoria examinada [12]. Até julho de 2026, cada um desses cursos podia tomar crédito sem teto pelo programa Grad PLUS, pelo custo integral de frequência que a instituição resolvesse declarar [13].
Alguns diplomas valem milhões, enquanto outros não têm valor financeiro líquido algum.
— Preston Cooper, Foundation for Research on Equal Opportunity, 2025É aqui que o debate público e a evidência se separam. A pergunta recorrente do discurso político é se a faculdade compensa. Os dados por curso indicam que a pergunta está mal formulada: ela agrega uma distribuição cuja variância entre cursos excede a diferença média sobre a qual pergunta. A pergunta correta é se um curso específico, numa instituição específica, a um preço líquido específico, compensa. E até data muito recente nenhuma peça do sistema financeiro americano estava organizada para formulá-la.
Duas objeções merecem ser levadas a sério, e este relatório retorna a ambas adiante. A primeira sustenta que um retorno puramente financeiro distorce o valor da educação. A segunda observa que a modelagem de renda de Georgetown situa o prêmio da graduação perto de US$ 1,2 milhão, uma ordem de grandeza acima da mediana da FREOPP [10]. Nenhuma das duas atinge o achado sobre a dispersão, que é justamente o que o sistema de crédito não enxerga.
A catraca das credenciais
Por que a exigência sobe mais rápido que o trabalho
43 % das vagas que exigem graduação descrevem tarefas executáveis sem ela, e menos de uma contratação em setecentas mudou de fato quando os empregadores suprimiram essas exigências ◈ Evidências sólidas [9]. A credencial não acompanha o cargo. Acompanha a fila.
A inflação de credenciais costuma ser apresentada como deriva cultural. É melhor compreendida como resposta racional a uma oferta abundante de diplomados. Quando cresce a parcela de candidatos com diploma, exigi-lo vira um filtro de primeira triagem barato, precise a vaga dele ou não. A análise do Burning Glass Institute estabelece que 43 % das vagas que exigiam graduação descreviam funções executáveis por quem tem outras credenciais ou experiência pertinente [9]. A exigência faz trabalho de triagem, não trabalho de competência.
Entre 2017 e 2024, muitos empregadores americanos suprimiram publicamente suas exigências de diploma, e cerca de 20 % das vagas as abandonaram [9]. A execução beirou o nada. A pesquisa do Burning Glass Institute com a Harvard Business School rastreou o que de fato ocorreu nas contratações após os anúncios e concluiu que menos de uma em setecentas mudou em consequência [9]. Cerca de 37 % das empresas que retiraram as exigências realmente seguiram adiante e elevaram em quase 20 % sua parcela de empregados sem diploma; as demais alteraram o anúncio e nada mais [9].
O resultado dessa catraca no mercado de trabalho aparece em duas séries. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego dos recém-formados americanos seguia elevada, em torno de 5,6 %, enquanto a taxa de subocupação — a parcela em cargos que não exigem diploma — subia para 42 % [4]. Os trabalhos do Federal Reserve de Cleveland mostram que a taxa de desemprego dos jovens diplomados acaba de superar a taxa geral, e que a erosão de sua vantagem vem se formando desde 1979 pela queda das contratações, e não pela alta das demissões [6].
O mesmo mecanismo opera em escala muito maior na China. Um contingente recorde de 12,7 milhões de universitários se formou no verão de 2026, cerca de 4 % acima dos 12,22 milhões do ano anterior: 480 mil ingressantes adicionais num mercado de trabalho já em desaceleração [25]. O desemprego juvenil chegou a 18,9 %, o nível mais alto desde que a série foi redefinida em 2023 para excluir estudantes [26]. O descompasso entre a formação dos diplomados e o que as vagas pedem empurra contingentes consideráveis para o trabalho operário e para tarefas por demanda [26].
Assim que um diploma vira o dispositivo de triagem de um cargo, nenhum empregador isolado ganha ao retirá-lo primeiro: o filtro é barato, e o custo de suprimi-lo recai sobre a empresa enquanto o benefício se espalha por todo o mercado de trabalho [9]. Daí 20 % das vagas alteradas e menos de uma contratação em setecentas. A inflação de credenciais é uma falha de coordenação, e falhas de coordenação não se corrigem porque agentes isolados publicam novas políticas de contratação.
A Coreia do Sul mostra o custo da catraca deslocado para as famílias em vez da dívida. As famílias coreanas destinaram pouco menos de 29,2 trilhões de wones à educação privada em 2024, cerca de US$ 20,2 bilhões, alta de 60,1 % em uma década, com participação de aproximadamente 78,3 % entre os estudantes da educação básica [27]. Esse gasto compra posição numa fila rumo a vagas universitárias cujo valor econômico depende de as demais famílias gastarem menos, coisa que não fazem. O desembolso é real, o ganho posicional agregado beira zero, e nada disso aparece em qualquer estatística de dívida estudantil.
Juntando as versões americana e asiática, a estrutura é a mesma. Ampliar a oferta de credenciais não amplia a oferta dos empregos que essas credenciais deveriam destravar. Eleva a exigência de diploma para os empregos que existem. O retorno individual de obter o título continua positivo, razão pela qual os estudantes seguem se matriculando e não erram, enquanto o retorno agregado de todos o obterem desliza rumo ao próprio custo de aquisição.
Quem de fato carrega o risco
A única parte da transação que não pode ir embora
A instituição é paga na matrícula, o credor é o Estado e não pode sofrer perda, e o devedor não consegue se livrar da dívida pela falência ✓ Fato comprovado [47]. Todos os demais participantes têm uma saída. Cerca de 452 mil beneficiários da previdência estão inadimplentes e ao alcance de uma retenção sobre o benefício [35].
Sigamos o dinheiro numa única transação. Um estudante se matricula num curso, toma emprestado o custo de frequência declarado e paga a instituição. A instituição reconhece a receita de imediato e não guarda exposição financeira alguma a se o estudante vai se formar, a quanto o formando vai ganhar ou a se o empréstimo será pago. O credor é o governo federal, que não marca sua carteira a mercado e não pode se tornar insolvente. A única parte cujo balanço fica exposto ao desfecho é o estudante, e essa exposição não admite cancelamento.
Esse último ponto é uma construção legislativa de história rastreável. Os empréstimos estudantis federais passaram em 1998 a se submeter a um critério de dificuldade extrema sem prazo prévio algum, e a lei de falências de 2005 estendeu essa impossibilidade de cancelamento aos empréstimos privados qualificados [47]. Na prática, o critério de dificuldade extrema é satisfeito com frequência tão baixa que a maioria dos devedores sequer tenta. A obrigação sobrevive, assim, ao desemprego, à doença, ao divórcio, ao fracasso empresarial e ao fechamento da instituição que emitiu a credencial.
O Tesouro pode reter até 15 % de um benefício previdenciário mensal por conta de um empréstimo estudantil federal inadimplente, respeitado um piso de US$ 750 mensais [35]. Cerca de 452 mil beneficiários estão inadimplentes e ao alcance dessa retenção [35]. As retenções foram suspensas em 2026 sem data divulgada de retomada, o que é uma suspensão da cobrança, não uma mudança da situação jurídica subjacente.
Parcela considerável dessa exposição recai sobre os pais, e não sobre os estudantes. Os empréstimos Parent PLUS não tinham análise de risco relevante nem teto de valor até que a lei de 2025 impôs um, e estão plenamente sujeitos à retenção do Tesouro sobre os benefícios do progenitor tomador em caso de inadimplência [13][35]. A partir de 2026, os novos tomadores de Parent PLUS perdem ainda todo acesso ao pagamento vinculado à renda [13]. O instrumento que permitia a uma família financiar o diploma de um filho sem olhar para sua capacidade de pagamento exibe hoje as condições mais rígidas do sistema.
O setor onde esses incentivos produzem os piores resultados está perfeitamente identificado. A pesquisa do Federal Reserve de Nova York estabelece que os estudantes de instituições com fins lucrativos se endividam mais, obtêm piores resultados no mercado de trabalho e ficam inadimplentes em taxas muito superiores às de estudantes comparáveis em instituições públicas de seletividade equivalente [30]. Os dados de coorte mostram que mais da metade dos tomadores desse setor que entraram em pagamento em 2003-2004 ficou inadimplente em doze anos, aproximadamente o triplo da taxa das instituições públicas ou privadas sem fins lucrativos de quatro anos [30]. Em 2026, cerca de um terço dos tomadores do setor lucrativo acumulava noventa dias ou mais de atraso [40].
A questão aqui não é se algo deve ser feito; é quem tem autoridade para fazê-lo.
— John Roberts, presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos, decisão Biden contra Nebraska, junho de 2023Os efeitos posteriores são mensuráveis e atingem justamente as decisões de vida que a credencial deveria viabilizar. Uma pesquisa publicada no Journal of Labor Economics estabelece que um aumento de US$ 1.000 na dívida estudantil reduz a taxa de aquisição de casa própria em cerca de 1,8 ponto percentual para quem cursou instituições públicas de quatro anos, na metade dos vinte anos, equivalente a um adiamento médio de cerca de quatro meses [43]. Trabalhos que usam a suspensão dos pagamentos como experimento natural constatam que a dívida estudantil freia a formação de casais e a natalidade, com efeito que aparece quando os pagamentos param e retorna quando são retomados [42].
Nada disso descreve uma falha de mercado no sentido usual. Cada agente se comporta racionalmente dentro das regras. A instituição maximiza matrículas porque matrícula é receita. O empregador eleva a régua da credencial porque o filtro sai de graça. O estudante se endivida porque o retorno individual segue positivo. O Estado empresta porque o acesso é o objetivo da política pública. As perdas são reais, são enormes, e o desenho garante que se acumulem sobre o único balanço desprovido de qualquer mecanismo de liberação.
Cinco países, cinco pactos
O que acontece quando o Estado traz o risco de volta para as próprias contas
A Austrália cancelou 20 % de cada saldo elegível e retirou mais de 16 bilhões de dólares australianos de dívida de mais de 3 milhões de devedores ✓ Fato comprovado [16]. A Inglaterra hoje prevê jamais recuperar cerca de 30 % do que empresta [19]. Os sistemas nórdicos não cobram nada e a maioria de seus estudantes se endivida assim mesmo [21].
A Austrália conduziu o experimento mais direto. A partir de 1º de junho de 2025 o governo aplicou uma redução única de 20 % a cada saldo elegível de empréstimo estudantil, retirando mais de 16 bilhões de dólares australianos de dívida entre mais de 3 milhões de devedores, por operação automática do fisco e sem qualquer requerimento [16]. A indexação, de 3,2 % para 2025, incidiu depois sobre o saldo já reduzido, e não sobre o original [17]. O limiar de pagamento compulsório subiu de 54.435 para 67.000 dólares australianos, e o pagamento passou a ser marginal, exigível apenas sobre a renda que supera o limiar, e não sobre a totalidade dela [17].
O desenho australiano merece ser compreendido com precisão porque altera a repartição do risco em vez do preço. A dívida HELP é vinculada à renda: nada se deve abaixo do limiar, o saldo é indexado em vez de render juros, e a obrigação se extingue com o devedor. Isso a aproxima mais de um tributo sobre diplomados com teto do que de um empréstimo. A redução de 20 % foi uma transferência, e de grande porte, mas a proteção estrutural já existia antes dela, que é exatamente o que falta ao sistema americano e o que nenhum cancelamento supriria.
A Inglaterra seguiu o caminho oposto: preço nominal alto financiado por um empréstimo vinculado à renda cujo subsídio se esconde na contabilidade. As taxas subiram de 9.250 para 9.535 libras em 2025-2026, primeiro aumento desde 2017, e o teto vai a 9.790 libras em 2026-2027 e a 10.050 libras em 2027-2028 [18]. O Departamento de Educação situa em 30 % o encargo RAB do regime Plan 5, isto é, a parcela do novo crédito que jamais se espera recuperar [19]. Por essa medida, cerca de 30 % da carteira é um subsídio rotulado como empréstimo.
O número é disputado de um modo que ilustra o quanto se desconhece. O Institute for Fiscal Studies situa a mesma coorte de ingresso de 2025 em menos 6 %, o que implicaria ganho de 1,3 bilhão de libras para o contribuinte no longo prazo, com o componente de subsídio genuíno limitado a uma parcela de cancelamento de 10 % avaliada em 2,1 bilhões de libras [19]. Toda a divergência repousa em premissas sobre a renda dos formandos no meio de uma janela de pagamento de quarenta anos [39]. Duas instituições competentes que examinam a mesma coorte discordam sobre se o Estado ganha dinheiro ou perde 30 % do que desembolsa, e ninguém poderá verificar isso por décadas [20].
| Risco estrutural | Gravidade | Avaliação |
|---|---|---|
| Dívida incancelável contra uma credencial que se deprecia | A obrigação é permanente e o retorno do ativo não é. Quando um curso cai nos 23 % negativos, o devedor detém um passivo sem ativo de contrapartida nem saída jurídica [3][47]. | |
| Crédito concedido sem análise alguma da renda esperada | O valor é fixado pelo custo de frequência que a instituição declara, e não pela capacidade de pagamento projetada do tomador. Nenhum outro mercado de crédito ao consumidor opera assim nessa escala [13]. | |
| Instituições isoladas do destino de seus formandos | A receita é reconhecida na matrícula sem devolução possível. O novo marco de responsabilização por renda é a primeira tentativa séria de ligar as duas pontas, e ainda não foi testado [14][15]. | |
| Exigências de diploma à frente do conteúdo do cargo | 43 % das vagas que exigem diploma descrevem trabalho que não precisa dele, e os anúncios das empresas alteraram menos de uma contratação em setecentas [9]. | |
| Alívio que reduz saldos sem tocar nos preços | O corte australiano de 20 % trouxe alívio real a 3 milhões de pessoas e não alterou nenhum incentivo institucional. O estoque cai uma vez; o fluxo continua [16]. |
Os sistemas nórdicos e o alemão eliminam a questão do preço e revelam o que havia por baixo. A Alemanha não cobra mensalidade em quase nenhum de seus estados e gasta cerca de US$ 17.960 por estudante em paridade de poder de compra, do ensino básico ao superior, acima da média da OCDE, situada em US$ 15.023 [24]. A Noruega gasta mais de US$ 33.000 por estudante em instituições públicas [21]. E, ainda assim, a OCDE registra que mais da metade dos estudantes da Noruega, da Suécia e da Finlândia se endivida do mesmo jeito, porque a restrição determinante é o custo de viver durante os estudos, e não a taxa [21]. Abolir a mensalidade não abole a dívida estudantil. Muda para que a dívida serve.
A gratuidade também não resolve a conclusão do curso, onde se concentra o dano financeiro. A conclusão da graduação entre os ingressantes do período pandêmico na Noruega subiu quatro pontos, para 53 %, com diferença de gênero de 12 pontos: 81 % entre mulheres contra 70 % entre homens [22]. Na Finlândia essa diferença chega a 17 pontos, 84 % contra 67 %, bem acima da média da OCDE [23]. Um estudante que se endivida para viver e não conclui fica com a dívida sem a credencial, e essa é a rota mais confiável para a inadimplência em todos os sistemas examinados aqui.
Sinal, competência ou subsídio
Três explicações, uma divergência infalsificável e por que ela governa a política pública
Se a maior parte do prêmio salarial é sinal e não competência, ampliar a matrícula encarece o sinal sem aumentar a produção, e a inflação de credenciais passa a ser o resultado previsto, e não uma anomalia ⚖ Contestado [36]. A disputa não se resolve com dados salariais, e determina qual é a política correta.
Os economistas oferecem duas explicações para os diplomados ganharem mais. A teoria do capital humano sustenta que a educação torna as pessoas mais produtivas. A teoria do sinal sustenta que a educação identifica quem já era mais produtivo, e a credencial transmite essa informação aos empregadores. Bryan Caplan situa a parcela atribuível ao sinal em 45 % numa leitura cautelosa e em 80 % na leitura que prefere, apoiando o argumento no efeito pergaminho: o salto de renda na formatura supera de longe o retorno dos anos de estudo que a precedem [36].
A réplica metodológica é mais sólida do que a maioria dos participantes admite. Uma análise formal publicada em Empirical Economics sustenta que capital humano e sinal geram perfis salariais observacionalmente equivalentes, de modo que o peso relativo de cada um não pode ser identificado apenas a partir de dados de renda [37]. Críticos também contestam a aritmética de Caplan de forma direta, notando que sua própria estimativa de viés de aptidão, entre 25 % e 45 % do prêmio, se concilia mal com uma parcela de sinal de 80 % [36]. A disputa não se aproxima de uma resolução e talvez não admita nenhuma.
O que sustenta que o diploma ainda compensa
A modelagem de Georgetown, que incorpora progressão de carreira e tributação, situa o prêmio da graduação em cerca de US$ 1,2 milhão acima do ensino médio [10].
Mesmo depois de incorporar o risco de não concluir, a graduação mediana entre 53.000 cursos examinados devolve um valor positivo substancial [3].
A mensalidade líquida corrigida pela inflação nas instituições públicas de quatro anos quase se reduziu à metade desde o pico de 2012-2013 [7].
75 % dos estudantes atuais e 71 % dos formados afirmam que o diploma vale o que custa, muito acima do sentimento do público geral sobre o setor [29].
A confiança no ensino superior subiu para 42 % em junho de 2025, ante 36 %, primeiro movimento de alta registrado pelo Gallup desde 2015 [28].
O que sustenta que o pacto se rompeu
Aos quais se somam 43 % dos cursos tecnológicos curtos e quase metade dos mestrados, no mesmo conjunto de dados que produz a mediana positiva [3].
Chegou ao topo por volta de 2015 e hoje está em 55,2 %, aproximadamente o patamar do fim dos anos 1990, enquanto o preço subia 40 % em termos reais [5].
Trabalham em cargos que não exigem a credencial pela qual se endividaram, com desemprego de diplomados hoje acima da taxa geral [4][6].
A mesma impossibilidade de resolver afeta o debate sobre preços. A hipótese de Bennett tem respaldo sólido num setor e fraco em outro. Um documento do Federal Reserve de Nova York mede repasse médio de cerca de 40 centavos por dólar, que sobe a 57 centavos nas bolsas de instituições com fins lucrativos [8]. Um estudo sobre os preços das faculdades de direito, setor com crédito federal historicamente sem teto, onde a hipótese prevê seu efeito máximo, não encontrou evidência sólida de que as escolas tenham elevado preços em resposta [38]. A mensalidade líquida real das instituições públicas de quatro anos, enquanto isso, cai há mais de uma década [7].
A opinião pública se move numa direção que nenhum dos modelos rivais acomoda com limpeza. O Gallup registrou alta da confiança no ensino superior para 42 % em junho de 2025, ante 36 %, primeiro movimento de alta desde o início do acompanhamento em 2015, com a parcela que declara pouca ou nenhuma confiança caindo de 32 % para 23 % [28]. Ao mesmo tempo, 75 % dos estudantes atuais e 71 % dos formados sustentam que o diploma vale o que custa [29]. Quem está dentro da transação a avalia bem melhor do que o público avalia a instituição, que é o esperado se o retorno individual segue positivo enquanto o pacto agregado se deteriora.
Georgetown situa o prêmio vitalício da graduação perto de US$ 1,2 milhão [10]. A FREOPP, trabalhando por curso e incorporando o risco de evasão, situa o retorno mediano em cerca de US$ 160 mil, com 23 % abaixo de zero [3]. As duas medem objetos distintos, a média de uma distribuição contra a distribuição em si, e sustentam conclusões opostas de política pública. É a disputa de medição não resolvida de maior alcance nesse campo [37].
O que resolveria tudo isso seria a divulgação sistemática da renda por curso cruzada com a dívida por curso. Os Estados Unidos acabam de começar a construir exatamente isso. O marco de responsabilização por renda de 2026 restringiria a elegibilidade ao crédito direto aos cursos cujos formandos superem patamares de renda definidos, substituindo a arquitetura mais estreita do emprego remunerador por um teste válido para todo o sistema [14][15]. Se ele sobreviverá ao contato com litígios e grupos de pressão é questão distinta de se a medida escolhida é a correta.
Convém precisar o que a divergência não abrange. Ninguém contesta o tamanho do estoque, o número de devedores inadimplentes, a taxa de subocupação nem a dispersão dos retornos entre cursos. O terreno contestado é causal e prospectivo: por que os preços subiram, o que o prêmio fará em seguida e quanto do retorno corresponde a competência e não a triagem. Os fatos descritivos não estão em disputa, e bastam para sustentar as conclusões que seguem.
O que os dados de fato mostram
Cinco conclusões que os dados sustentam, e uma que não sustentam
A conclusão defensável é estreita e desconfortável: o diploma em geral é um bom investimento, o sistema de financiamento é indiferente a se um diploma específico o é, e o devedor absorve integralmente as consequências dessa indiferença ✓ Fato comprovado [3][47].
Primeira conclusão: o argumento agregado a favor do ensino superior resiste à evidência. O curso mediano devolve valor positivo substancial, os diplomados ainda obtêm prêmio amplo sobre os não diplomados, e quem tem diploma afirma de modo esmagador que ele valeu o que custou [3][10][29]. Qualquer tese de que a faculdade como categoria é mau negócio precisa explicar esses três fatos, e nenhuma das críticas disponíveis consegue.
Segunda conclusão: o argumento agregado deixou de ser o argumento pertinente. Quando 23 % das graduações, 43 % dos cursos tecnológicos curtos e quase metade dos mestrados rendem menos que nada, e cerca de 31 % dos estudantes estão nessa faixa, a distribuição importa mais do que a média [3]. O sistema de financiamento empresta o mesmo valor nas mesmas condições ao longo de toda a faixa, o que converte um problema de dispersão em problema de inadimplência com defasagem previsível.
Terceira conclusão: a exigência de credencial se descolou em larga medida do trabalho. 43 % das vagas que exigem diploma descrevem funções que não precisam dele, e o movimento empresarial para suprimir essas exigências alterou menos de uma contratação em setecentas [9]. Trata-se de falha de coordenação sem solução de mercado, porque a empresa que retira o filtro primeiro arca com o custo de uma triagem pior enquanto o benefício recai sobre o mercado de trabalho como um todo.
Quarta conclusão: alívio de dívida e disciplina de preço são instrumentos distintos que vêm sendo confundidos. A Austrália retirou mais de 16 bilhões de dólares australianos de saldos sem mudar nada do que uma instituição pode cobrar nem do que ela suporta quando um formando não consegue pagar [16]. A Inglaterra elevou o preço enquanto cancela, pela estimativa oficial, cerca de 30 % do que empresta [18][19]. Nenhum dos dois países ligou a perda à parte que fixa o preço.
O crédito estudantil é o único grande mercado de crédito ao consumidor sem análise de risco, sem repartição institucional de perdas e sem possibilidade de cancelamento. Essas três ausências não são falhas independentes: constituem um único desenho. A dispersão entre cursos, superior à distância entre ter diploma e não ter, fica assim precificada em exatamente zero, e todo o custo desse erro de precificação recai sobre a parte menos equipada para avaliá-lo.
A quinta conclusão trata dos países que tiraram o preço da equação, e é o achado menos intuitivo deste relatório. A Alemanha e os sistemas nórdicos não cobram mensalidade e mesmo assim veem a maioria dos estudantes se endividar, porque o custo de vida aperta onde a taxa já não aperta [21][24]. As taxas de conclusão nesses sistemas rondam ou ficam abaixo de 53 % nas coortes recentes, com diferenças de gênero de 12 a 17 pontos percentuais [22][23]. A gratuidade muda quem paga e para que serve a dívida. Sozinha, não entrega o resultado que a não conclusão destrói.
O que a evidência não sustentará é a afirmação de que os estudantes estão errando. Dadas as condições que enfrentam, matricular-se em geral é racional, endividar-se em geral é racional, e escolher uma área de alto retorno não está ao alcance de todos os que prefeririam. O erro é estrutural, situa-se a montante do estudante, e consiste em operar um mercado de crédito de US$ 1,65 trilhão no qual a única parte que pode perder é também a única sem informação, sem poder de negociação e sem saída [1][47].